Lá fora, a aventura testa os limites do ser humano, por terra e nas águas do rio que banha a vila raiana portuguesa abrangida pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês enquanto, lá dentro, a cozinha minhota conta com a eterna benção de Baco.
O rio Minho é o cartão de visita do concelho mais setentrional do país
Melgaço, o concelho mais setentrional de Portugal é o berço de uma iniciativa focada nos valores da fauna, da flora e da paisagem, na gastronomia e nas gentes, na cultura e nos costumes, no desenvolvimento económico e social sustentáveis suportados por um denominador comum: Turismo de natureza. “Uma actividade com segurança na natureza”, nas palavras de Manoel Batista, Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, mas também um bom pretexto para quem procura um refúgio bem longe da azáfama na cidade.
Eis a génese da Pegada Zero, uma iniciativa criada em conjunto entre o município e entidades locais, e apresentada no âmbito das I Jornadas de Turismo de Natureza, em Outubro, na vila raiana que se encontra inserida a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés e no Parque Nacional da Peneda-Gerês – o único de Portugal classificado como nacional cuja área comporta cerca de 72 mil hectares a Noroeste do país, na fronteira com Espanha, atravessando cinco municípios –, com a Porta de Lamas de Mouro e Castro Laboreiro como ponto de partida para iniciar uma viagem por uma paisagem (quase) intocável.
Quem alinha em descer o rio?
O rafting pôs todos à prova no rio Minho / © Jorge Marçoa
Nasce na Serra da Meira, na Galiza, a uma altitude acima dos 700 metros e desagua no Atlântico passando, entre outros locais, por Melgaço. Falamos do rio Minho, que traça a fronteira entre o nosso país e a vizinha Espanha, o protagonista de um cenário gracioso e cheio de vida. Na verdade, aqui a fauna e a flora desempenham um papel superlativo, conquistando o olhar de quem elege a natureza como pano de fundo… e o rafting.
À medida que é feita a descida, a envolvente acompanha o chamado Trilho das Pesqueiras, as quais são erigidas, há séculos, pelo Homem – para capturar, de forma artesanal, o sável e a lampreia – e provocam os rápidos nas águas do rio Minho. Ao mesmo tempo, foram dadas orientações – a complementar com as instruções dadas em terra –, ora para remar, sobretudo quando as águas teimam em levar o barco a toda a velocidade, ora para descansar. Tudo deve ser levado a sério em nome da segurança, mas a diversão é também uma garantia ou não houvesse sítios onde o barco pudesse, simplesmente, virar.
À prova esteve a Melgaço WhiteWater fundada, em Abril de 2016, por Paulo Faria que, com Rúben Alves, se encarregou de conduzir um grupo de oito participantes decididos a aceitar o desafio – e de disponibilizar o fato, razão pela qual fica a recomendação de colocar uns ténis velhos, para usar durante o percurso. Além do rafting, a quase recém-inaugurada empresa apresenta uma lista de outros desportos de aventura, como canyoning, canoagem, salto pendular, rappel, slide, BTT, passeios 4×4 e orientação. Para 2017 há, para já, uma boa nova no portefólio desta empresa composta por uma equipa de seis elementos.
Desafiar o medo sem limites
Canyoning ou o desafiar dos obstáculos dentro de água / © Jorge Marçoa
Porque a natureza é o mote desta infinita Pegada Zero, o desporto de aventura não parou pelo rio Minho. Desta vez, houve water canyoning e o cenário foi outro, o rio Castro Laboreiro, na freguesia homónima de Melgaço.
Caminhar ao longo do vale do Laboreiro, transpondo os obstáculos, ora com o auxílio de cordas, ora através de saltos para lagoas formadas nos rochedos ladeados de fragas é a descrição possível para tamanha emoção, que se converteu, num abrir e fechar de olhos, num teste ao medo. Houve quem saltasse, mas houve quem não fosse assim tão destemido. Mesmo assim, foram muitos os motivos que levaram a fazer rappel numa ponte, só para começar, e num buraco escavado pela água, no meio do rio e, assim, seguir em frente nos trilhos fluviais delineados pela beleza escultórica da Natureza.
Tudo a postos para a aventura? Desta vez com a empresa de animação turística Montes de Laboreiro, que dá uma mão sempre que é necessário em nome da segurança também em outras actividades – canoagem, percursos pedestres, BTT, passeios Todo-o-Terreno, kart cross, arvorismo, escalada, rappel, slide – e responsável pelo Parque de Campismo de Lamas de Mouro localizado no Parque Nacional Peneda-Gerês, a cerca de 800 metros de altitude.
Os bungalows comungam com a natureza do parque de campismo
Aberto o ano inteiro, o parque de campismo é um espaço aberto para os amantes da Natureza e do sossego em toda a plenitude. Portanto, não há acesso à Internet nem à rede de telemóvel. Em contrapartida, há espaço para tendas e roullotes, e quatro bungalows. Estes últimos já estão esgotados durante todos os fins-de-semana que restam de 2016, o Natal e a Passagem de Ano e, embora o pequeno-almoço não esteja incluído no preço (€ 45 em época baixa; € 50 em Junho e Julho; € 55 em Agosto, no Natal e na Passagem de Ano, com toalhas de banho e roupa de cama). Porém, todas as manhãs passa uma carrinha com pão e produtos de pastelaria frescos, entre outras iguarias que complementam a primeira refeição do dia.
Faísca, a amistosa égua do Parque de Campismo de Lamas de Mouro
E há a probabilidade de se ser surpreendido por esquilos, corsos, javalis e raposas, e pela Faísca, a amistosa égua que acicata a curiosidade e arrebata o coração de todos os que entram no parque de campismo.
Quanto a boas novas, 2017 será o ano das alterações no local, mas para melhor, pois em 2018 haverá muito para experimentar – mais bungalows, além de yurds, tipis, gotas e casas nas árvores.
“Deixe-se guiar…” pela Sylvie Amorin
As cadeias montanhosas sustentadas no Maciço de Peneda Gerês são de cortar a respiração
A recomendação é da Vertigem Trilhos, empresa fundada, em 2011, por Sylvie Amorin, natural de Nice, no sul do França, o ponto de partida da viagem rumo a Portugal, a qual aconteceu há 30 anos. Desde então, Sylvie Amorin por cá ficou, arrebatada pela paisagem do Parque Nacional Peneda-Gerês, pela hospitalidade das gentes da região minhota, pela gastronomia, pelas estórias.
A escassos quilómetro do Miradouro de Tibo, lá bem no alto, em Arcos de Valdevez, os nossos olhos são preenchidos por serras altas que serpenteiam entre enormes vales com o rio Lima a contornar os tons de Outono, entre o verde, o amarelo, o dourado e o castanho, os quais, na Primavera regressarão ao verde carregado.
A cachena, raça autóctone da alta montanha, faz parte da paisagem da Nossa Senhora da Peneda, em Arcos de Valdevez
Entretanto, os rios Laboreiro e Peneda continuarão a encontrar-se na barragem do Lindoso depois de passarem, juntos, na zona de confluência entre ambos, e as serras do Penedo, do Soajo, do Gerês e do Amarelo, assim como os planaltos de Castro Laboreiro e da Mourela farão parte do Parque Nacional da Peneda-Gerês, onde os trilhos traçam caminhos a explorar. A contar com o Santuário da Nossa Senhora da Peneda, também em Arcos de Valdevez, onde se encontra a Igreja barroca de Nossa Senhora da Peneda em frente à via sacra que vai até à Porta do Sol. Para quem for, deixamos o desafio: Descobrir o intruso que se encontra na capela onde está representada a cena da crucificação de Jesus Cristo.
No passadiço de madeira que acompanha o trilho ao longo do rio
De volta a Melgaço, o rio Minho tomou, de novo, conta da paisagem com o Trilho das Pesqueiras, que começa na Barragem da Frieira e termina na Ponte Internacional do Peso, e onde há um moinho que, outrora, servia a comunidade local, mas que, hoje, se encontra desactivado. Pelo passadiço contemplamos a flora, como o carvalho, a urze os fetos, sendo a fauna possível de encontrar, uma vez que este é um dos pontos de eleição para a observação de aves, além de que é possível encontrar outros animais, como as lontras ou as garças.
Para quem aprecia o desporto indoor, a vila de Melgaço apresenta ainda o Centro de Estágios de Melgaço – Complexo Desportivo e de Lazer Comendador Rui Solheiro, onde a multidisciplinaridade se converte numa panóplia de desportos e actividades que, segundo o gestor desportivo Igor Moreira, se complementam com as acções outdoor, como o rafting, o XCO (BTT na mata adjacente ao complexo desportivo) ou o Melgaço Alvarinho Trail com a terceira edição agendada para 21 de Março de 2017. Ao ar livre, este espaço contempla um campo de ténis, o circuito de manutenção, um lago artificial, e uma área de lazer, com as piscinas descobertas e o mini-golfe.
O equilíbrio da mente com o corpo
Edifício do balneário das Termas de Melgaço
Depois de uma mão cheia de actividades ao ar livre, nada melhor do que eleger as Termas de Melgaço, para bem da saúde, mas também para relaxar. Assim, entre os meses de Abril e Setembro, época do ano em que o balneário das termas se encontram de portas abertas, é possível entregar-se nas mãos de especialistas nestas termas medicinais, onde as salas destinadas ao tratamento específico do aparelho digestivo, doenças respiratórias, metabólicas e reumáticas, estão complementadas por uma piscina dinâmica, com um circuito de águas.
Piscina com um circuito de águas imperativo no tratamento de maleitas
Por outro lado, o edifício das termas dispõe de duas salas destinadas à componente de lazer, com serviço de estética e, claro, massagens. O melhor dos troféus para depois de uma caminhada ou de qualquer outra actividade ao ar livre num espaço com história, pois foi em 1915 que se concluiu o pavilhão da Buvete da Fonte Principal, desenhado pelo engenheiro Luís Couto dos Santos e o ponto de referência das Termas de Melgaço, uma vez que é onde está a nascente da água da vila raiana – de gaseificação natural e recomendada para combater maleitas como a diabetes –, a qual é engarrafada numa oficina erigida, em 1927, para o efeito. Contudo, a água com gás de Melgaço encontra-se à venda apenas na vila, devido à quantidade limitada da mesma que é engarrafada.
Alvarinho e a cozinha minhota
António Luís Cerdeira, co-proprietário e enólogo da Quinta de Soalheiro, desafiou todos a experimentar o Soalheiro Reserva Alvarinho 2015
Para tranquilizar a alma no seu todo, eis que chega a hora do repasto, mas não sem antes visitar um dos lugares mais emblemáticos da sub-região de Monção e Melgaço, da Região dos Vinhos Verdes, Quinta de Soalheiro (leia o artigo aqui). Segundo António Luís Cerdeira, co-proprietário e enólogo da Soalheiro, “2016 vai ser uma muito boa colheita!”
Sobre os vinhos, o anfitrião falou sobre o processo de fermentação e estágio, deu a provar o Terra Mater de 2015 e a colheita do Soalheiro Clássico deste ano – 2016 – e enfatizou a importância de dar a conhecer de que “Monção e Melgaço são a origem do Alvarinho”, a casta rainha desta sub-região. Porém, o segredo do legado de João António Cerdeira, pai de António Luís e Maria João Cerdeira e, por conseguinte, da Quinta de Soalheiro, que se encontra no vale, “é o Monte de Faro, que faz a divisão de Monção e Melgaço”.
Sem que deixássemos pegadas pelo caminho, a Quinta de Folga foi o destino que se seguiu. Contígua à primeira, este espaço enogastronómico da dupla de irmãos, desta vez representada por Rui Loureiro, é onde se trabalha o produto de fumeiro – de Setembro a Abril –, como “o presunto de cura prolongada por três anos” na cave; o salpicão, feito a partir “das partes mais nobres do porco bísaro, com maturação de uma semana e fumeiro de um mês, no qual utilizamos a madeira de carvalho”; e a alheira que, “apesar de não ser uma tradição, aqui é feita com porco bísaro”.
A horta também requer uma grande importância à mesa da Quinta de Folga, assim como as sinergias criadas com outros produtores da região, como quem faz o queijo de cabra – “há de cura, de meia cura e o queijo fresco de cabra”, informou António Luís Cerdeira.
A doçaria regional, como a aletria com ovos, é “a cereja no topo do bolo” na Quinta de Folga
Durante o desfile de entradas e pratos, do qual fizeram ainda parte o cachaço e as suculentas costeletinhas de porco bísaro, foram servidos os vinhos – Soalheiro Clássico 2015; Espumante Bruto rosé 2012, com Alvarinho e Touriga Nacional; Primeiras Vinhas 2015; Terra Matter Alvarinho 2014; e Alvarinho Soalheiro 9% Dócil.
O Brandeiro, na Branda da Aveleira, conta com uma vista devota ao silêncio das montanhas
Já no lado oposto, na Branda da Aveleira, nas encostas da serra da Peneda, em Melgaço, está O Brandeiro, o restaurante de Agostinho Alves. Ao lado da capela de Nossa Senhora da Guia, localizados no interior de um espaço rodeado por um muro baixo de pedra e com vista para uma paisagem inóspita, este lugar parece mágico assim que a noite toma conta do dia.
Já à mesa, e apesar de estarmos no Alto Minho, a ementa foi dominada pelos secretos de porco preto, mas a suculenta cachena – “a carne das alturas” como lhe chamam – tomou conta do prato. Afinal estamos a falar da carne cachena da Peneda, raça portuguesa e uma das mais pequenas do mundo cujo habitat natural são as zonas de alta montanha.
Por sua vez, o cabrito e o bacalhau com broa são os outros dois pratos muito apreciados em Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço, com os restaurantes Mira Castro e Miradouro do Castelo no cartaz.
A sétima arte, a história… e o vinho
O espólio de Jean Loup Passek pode ser contemplado no Museu de Cinema local
Repasto à parte, passemos às visitas, desta vez para conhecer o Museu do Cinema de Melgaço, na antiga casa da Guarda Fiscal. Inaugurado em 2005, este espaço dedicado à sétima arte resulta da paixão do cineasta francês Jean Loup Passek pela vila raiana depois de filmar um documentário sobre imigração, nos anos 1970’ – outro dos temas imperativos na vila raiana e, por conseguinte, representado no Espaço Memória e Fronteira – e acolhe um importante e valioso património que Jean-Loup Passek coleccionou durante mais de 25 anos.
Por sua vez, o Espaço Memória e Fronteira, no antigo edifício do matadouro municipal, retrata as estórias de contrabando e de emigração clandestina, as quais marcaram a História de Portugal e da vila raiana sendo ao longo de décadas do século XX. Com efeito, o contrabando constituiu uma actividade socioeconómica de enorme relevância para quem vivia deste lado da fronteira com a vizinha Espanha, sendo o café e as amêndoas, as cabças de gado bovino, suíno e ovino, as peles, o azeite e o sabão, o tabaco e as bananas, entre outros, os produtos de troca. Por outro lado, o concelho debateu-se com a emigração ilegal que começou no século XIX, para o Brasil, e mais tarde, no século XX, para França.
E terminemos no Solar do Alvarinho, casa que já foi uma prisão, um tribunal, uma escola primária, os Paços do Concelho e uma biblioteca. No alinhamento do tempo, há 19 anos que é o espaço eleito para homenagear a casta rainha desta sub-região da Região dos Vinhos Verdes e o representante de 25 das 27 marcas de adegas/produtores de Melgaço.
A ir, visitar, explorar e desfrutar. Boa viagem! •






3 Comments
Gostámos muito de vos ler, gostámos ainda mais de vos ter conhecido aí, entre a natureza e a mesa.
Um abraço desta casa.
Muito agradecemos por nos terem lido.
Foram dois dias de partilha e de boa disposição, como também gostamos. E muito.
Um abraço aos dois e um beijinho especial para a Menina Mundo.
[…] (Leia a reportagem “Pegada Zero: Da mesa à natureza vai um passo”) […]