Birds are Indie / Amor e algo mais…

Sexta-feira. Final de uma tarde, de inverno. Noite, portanto. Aqui Base Tango aberto especialmente para um chá Mutante, com pássaros. Um deles vinha com lata de bolachas, caseiras – umas com nozes. E o que foi um jogo de perguntas e respostas, para vos dar a conhecer uns Birds de Coimbra, tem de ser aqui uma prosa. Com Birds, um novo álbum e chá(s) com cookies with nuts, não dá para entregar uma comum entrevista.

Tudo começou, nesta banda (ou bando, válidos os dois substantivos), com o duo amoroso Joana + Jerónimo, sabem como é, when a boy meets a girl. Depois, em ponta dos pés, disfarçadamente, vão passando a trio. O que gosto de chamar uma adoção legal do Henrique. Isto porque “foi uma coisa natural, não houve propriamente um momento em que disséssemos: a partir de hoje somos um trio. O Henrique já era nosso produtor e começou a tocar mais regularmente connosco no, e após, o primeiro álbum, em 2012. Com a gravação começou a criar-se uma habituação a estarmos os três juntos, ele a tocar uma música ou outra nos discos e… surgiu o inevitável, ao vivo, num ido concerto em Coimbra. Tocou umas músicas. Agora, o estranho é ele não estar”. O álbum, de 2012, surge depois de uns EP’s, e com ele aprendemos que a música encaixa, na muche, no silêncio de um pássaro. Era editado “How Music Fits Our Silence”.
O duo, agora trio – família perfeita, acreditem; a adoção segue afinada – foi batizado de Birds are Indie. Indagação inevitável. Sempre considerei os lémures mais indies que os pássaros, e embora o Henrique me tenha dito que “há lémures que cantam como pássaros”, só fiquei esclarecida quando o Jerónimo disse que o rótulo indie “começou a ser usado como um adjetivo não só para música, mas para quase tudo – a tua camisola é muito indie, o teu gancho é muito indie…”, não que eles tenham algo contra a palavra. Eles têm uma ideia, muito própria, do conceito e, constataram também que “uma série de coisas que as pessoas diziam ser indie – posters, fotografias… – muitas tinham pássaros, então decidiram decretar que a única coisa que era indie, eram os pássaros. Uma espécie de provocação”. A Joana, para eu não me sentir só disse que me entendia, “as caudas dos lémures, são muito indie”, mas realmente nunca os vi em posters.


Posto as apresentações e denominações justificadas, um gole de chá(s), em chávena lilás e… a guitarra do Henrique é rosa, brilha, “veio do Brasil, oferecida pelo meu irmão”, e… há que falar dos instrumentos Birds. Para entendidos em ornitologia indie sabem que eles têm instrumentos que são aves raras, outros mais comuns periquitos. Na base, a guitarra acústica e o xilofone, e depois “são coisas que me vão aparecendo à frente, como o acordeão pequenino de criança. Comprei-o no Mercado da Figueira da Foz”. O Jerónimo confessa que o garimpar instrumental está muito entregue à Joana que continua, entre bolachas, a dizer-me que compra “instrumentos em mercados de velharias, em mercados e sites de venda de instrumentos em segunda mão… E quanto mais fora do comum, melhor”. Concluo, a guitarra faz todo o sentido, estético e sonoro – “uma guitarra rosa tem personalidade”. Estes Birds estão minados de uma curiosa diversidade instrumental, onde hoje encontramos uma comum bateria “talvez a tomada mais consciente, porque queríamos dar mais corpo às músicas”. No todo, têm sonoridade simples, sem gongorismos – “uma abordagem aos instrumentos, muito directa, muito simples, e o resultado é, inevitavelmente, simples” – e ao vivo, os instrumentos têm papel tão importante como no disco, conseguirá não reparar na Joana quando ela toca o pequeno acordeão?

Sala quente do piano, luz difusa, chá(s) e tudo começou com um duo, “needless to say”. Construídas as melodias, urge preencher a pauta com lírica. O que à primeira leitura parece, apenas, amor, não é. É amor e algo mais. O fio condutor do novo álbum “é a relação entre as pessoas que pode ser de amor, de amizade, de indiferença, de saudade, de desapontamento…”. É um exercício musical sobre o ser humano e as suas (inter)relações com outros e o seu mundo. Porém, o amor existe e dura há muito, por isso “algumas canções são sobre amor – amor entre duas pessoas, mas o tema geral seria a relação entre as pessoas”. E o amor, porque o chá adoça-me o discurso e o geral é o amor e algo mais…
Todavia, continuam a desafiar-me o ego freudiano dizendo-me que o amor não basta, na capa. Como não basta? Porquê a Intriga Internacional? Eles que dentro prometem “One Thousand Kisses in Cardiff” e sussurram que estão “High On Love Songs”. Seria do chá? “Love Is Not Enough” é o nome do novo álbum que, nas entrelinhas, tem sido falado desde o título, nesta prosa. Dizem-me que são duas ideias. Primeiro, a provocação: “estávamos muito conotados com  ‘tão amorosos, letras sobre o amor’, foi mesmo a provocação de ‘esqueçam lá isso do amor que isso não chega, somos (todos) mais do que isso’”.  Segundo, a lógica: “depois de gravarmos, ouvimos o álbum e percebemos que, provavelmente, o grande tema é mudança. A nossa mudança (evolução) enquanto banda e como lidar com a mesma, as mudanças que correm bem ou mal, os limbos entre situações. Aquela incerteza de já somos uma banda, já tínhamos um disco, é suposto o segundo e outros, e como se faz isto… A ideia era reflectir um pouco essa incerteza. Ou seja, o ‘amor’ é uma metáfora para o que falta”. É sempre algo mais.

Explanado o que se esconde atrás do título, continuará a inquietude que o mesmo origina, é provocação. “Love Is Not Enough” é álbum a ter, ouvir e reter. Com a bitola elevada do anterior álbum, não desilude. Birds que cresceram “pela maneira como foi gravado e produzido e nota-se uma grande evolução, graças ao trabalho do Henrique. Foi um trabalho mais estruturado, mais pensado. Antes fomos mais descontraídos, agora é mais a sério”. Forte nas melodias de acústico temperado com percussão gentil, mais uns travos eletrónicos, tudo bem encaixado para dilatar emoções com lírica a preceito… no alinhamento de palavras e acordes perguntam, com timbre agridoce, a certo momento: Do you think you can see/ The sunset through me?… e a resposta é dada quando o álbum termina. Vemos o pôr-do-sol através e com a música dos Birds are Indie. É um som indie, de uns tais birds. •

Fotografia: Carlos Gomes.
Espaço: Aqui Base Tango, Coimbra.
Birds are Indie: Ricardo Jerónimo, Joana Corker, Henrique Toscano.