O bairro

– Mas normal, como?
– Homem, já lhe disse, um bairro normal, com casas juntas, todas iguais, e pessoas dentro. Não todas iguais. Chega-lhe assim?  Um bairro de retornados como tantos outros, na periferia da cidade. Habitações precárias que ficaram esquecidas até hoje, gatos de pêlo magro a espreguiçarem-se no capot dos carros, fogareiros indígenas nos quintais, anunciando, por sinais de fumo, a hora do almoço. Um picotado fácil de telhados e chaminés,  em que toda a gente se conhece.
– E toda a gente…  quem é?
– Irra! Sempre me atira com cada uma! Bem se vê que não é daqui. Toda a gente! Como aquela comadre acolá, cristalizada na soleira da porta, mas muito capaz de lhe saltar ao caminho como um diabo de mola. Bom dia boa tarde, a vida que vai andando, um dia de cada vez que mais não se pode pedir e nesse treco-lareco já o tem desarmado, sabe de que ângulo exato vai arriscar a pergunta que lhe há-de pôr a vida a nu.
Nos dias soalheiros de Inverno, quando os lulus se atrevem a passear as donas pela trela, toda a gente é o casal de reformados que sai de casa de manhã para se instalar no habitáculo do carro. Ali ficam a ver as horas passar, num enfado conjugal. O senhor com o seu jornal,  a senhora com o seu crochet. Chocam de frente, na calçada, com um poste de eletricidade elevado a obituário e onde, por entre notícias de mortos que exibem, descaradamente, retratos de há vinte anos, se suspendem também prospetos de convívios e sardinhadas. O senhor enterra a cabeça nas folhas, procura consolo nos cabeçalhos sanguinolentos. Apraz-lhe pensar que há vidas, apesar de tudo, piores que a sua. A senhora anseia por ver cumprido um sonho antigo: levantar a cabeça do naperon e dar com a notícia da morte do marido no dito jornal.  Não, no dito poste. Olhe, tanto faz.
–  Não é fácil sair daqui, ãh?
– O traçado do bairro é como o de uma aguarela barata. Ruas estreitas, quase sempre de sentido único,  caminhos de terra batida e cascalho, largos que mais parecem becos, muros cobertos de trepadeiras, vasitos com salsa onde os gatos fazem xixi sem pressa. Em todo o lado se respira ar de coisa quieta, cada som, familiar. Veja… a comadre desinteressou-se e largou a presa, um olho espreita pelo canto do jornal, outro suspendeu-se da mira da agulha. Chiiuuuu, não sente?
– Que diabo é isto?!
É a carrinha do peixeiro, varrendo o bairro de uma ponta à outra. E um mar de gente há-de  sair à pressa, descomposta, a chinelar, a chocalhar os porta-moedas, a tentar lembrar-se do que comeu ontem e do que hoje vinha mesmo a calhar.
– Pelo amor de Deus! Mais alguma coisa extraordinária que eu deva conhecer?
– Só o Ti Lopes, esta tasca perdida onde tantos dão à costa.  No toldo velho, comido pela humidade, percebe-se que houve coisas escritas, mas Ti Lopes é que ficou. Quem aqui passa, conhece o som de copo batido com força no tampo da mesa. Um silêncio grave primeiro, um borbulhar de sorvedouro, a seguir.  Depois, nada. Desgostos que já lá vão, arrastados pela correnteza de uma aguardente.
– Por mim chega. Acho que vou andando…
– Ouça  só isto que é importante, ó amigo. Não sei se é pela sirene do peixeiro, pelo folhear do jornal do reformado, pelos silvos da roupa que se agita nos estendais, aos caprichos do vento, ou se é nisto tudo misturado, que se percebe que há uma respiração própria, um pulsar de nexos invisível, um passado longínquo de camadas fundas mas que, de quando em vez, se revolve e se acende: num encolher de ombros, no brilho de um olhar, numa sobrancelha que descai, assentindo, em palavras que escusam ser voz. Percebe o que lhe quero dizer?

> Ilustração: Andrea Ebert

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