Leituras: “Cidade Nenhuma”

Luís Belo, que ilustra e fotografa de uma maneira tão sua, regressa com novo livro de fotografia, na companhia das palavras de Bruno Ministro.

“Cidade Nenhuma” é o segundo livro de fotografia de Luís Belo que sucede a “Emergir” – este num registo saudosista, que acompanhou com poesia escrita por si. Para esta nova aventura no mundo da publicação continuam a existir palavras a acompanhar as imagens, mas a pena é de Bruno Ministro que lhes dá forma, pena que domina “com particular destreza“. Apresenta-se-nos um livro num registo experimental, com a linguagem verbal a ser explorada sob diversas perspetivas, o texto não se limita a acompanhar o leitor na descodificação das fotografias. Será uma viagem que nos levanta interrogações diversas, leituras dispares? Terá de ler, para saber.”O jogo de produção de significado é baralhado ao fornecer linhas diversas e divergentes para a leitura das imagens e das próprias palavras. Se as fotografias podiam existir neste livro sem os poemas e se os poemas podiam existir neste livro sem as fotografias, a verdade é que não é isso que acontece: a palavra existe junto da imagem e a imagem junto da palavra. E é nessa comunhão e/ou confronto que a leitura se tece“, Luís Belo.

E que se dê palavra aos autores, fotografia e texto respetivamente, para que se façam ouvir, sobre esta aventura no mundo das nossas leituras. Luís Belo, “A cidade que aqui se representa não tem nome, ou melhor, tem nome, mas é como se não o tivesse. Esta cidade é Viseu, mas é como se não o fosse. Esta cidade que é aquela onde vivo é também uma cidade que cresceu para cima e para os lados e aos poucos tornou-se cidade como todas as outras, e todas as outras são como esta. Estas fotografias representam uma cidade, não necessariamente aquela que captam. Mostram, de forma quase clínica, a sua beleza, frieza e simetria. A ausência do ser humano em desprimor do betão. Um céu nublado em vez de um sol emocional“. Bruno Ministro, “Não sei se estive em Viseu mais de duas vezes. Ainda assim, através das fotografias do Luís, deambulei por vários cantos e recantos da cidade. Mas é esta cidade ainda Viseu? Não creio. O que o conjunto de fotografias deste livro faz é apresentar uma cidade nenhuma que poderia ser qualquer cidade. A descaracterização, o carácter solidamente áspero das fotografias, a procura da construção do não-lugar por meio de uma objectiva muito objectiva, permite afirmar que aqui a fotografia não retrata, não toma um momento e um objecto do presente para o fixar e representar. O que acredito que estas fotografias fazem – e foi daí que o meu trabalho poético partiu – é criar mundos outros (porque quem cria uma cidade, cria um mundo). E o que acontece quando em cima de um mundo que é já outro lhe colocamos um outro mundo feito de um outro material?”

Sobre os mesmos, para quem ainda não os conhece: Luís Belo – nascido em Viseu, no ano de 1987, “quando as estações do ano ainda eram quatro” – diz o próprio, com toda a razão. Cedo começou a pintar, ainda antes de saber escrever… tantos de nós sofremos da mesma maleita. No caso de Luís Belo, ao crescer, a paixão pela ilustração estendeu-se ao interesse pela fotografia e o resultado está à vista. Estudou, licenciou-se e desde então tem feito exposições e foi galardoado em vários concursos; Bruno Ministro – 1988, natural do Bombarral, diz que publicou poemas em revistas online e em papel. Ao que se sabe, há vestígios que indicam que também houve umas impressoras e umas fotocopiadoras que publicaram chapbooks em seu nome, uma máquina imprimiu um livro, estreitinho, com um agrafo no meio, uma aventura tão válida como livros de lombada mais generosa, e já ganhou um prémio literário e perdeu vários, aqui é a sua segunda aventura na publicação de poesia.

Um livro a descobrir, uma prenda de Natal a dar. Boa leituras.  •

+ Medíocre 

 

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