À descoberta de Nantes

Recriada por uma forte componente cultural, a cidade à beira do Loire e de Jules Verne, outrora voltada para o comércio ultramarino e a indústria, convida a uma viagem por ruas e recantos, pelo castelo, pelas ilhas do outro lado do rio e pelo estuário que preguiça até Saint-Lazaire. Sejam bem-vindos a Nantes.

Le voyage à Nantes. Eis o mote para conhecer a outrora capital da Bretanha, no noroeste de França, quando François II fez do castelo de Nantes, com muralhas colossais e fossas profundas em redor, a sua residência oficial. O acesso ao castelo, símbolo máximo do Ducado da Bretanha e ponto de partida da história da cidade, era feito por uma ponte levadiça que conduz para um enorme átrio circundado por edifícios gigantes, brancos, renascidos de um conto de fadas, testemunhos de palco de guerras e encruzilhadas políticas de então, que o passaram para o reino de França, no século XVI.

O castelo de Nantes, o ponto de partida da história da cidade

Desde 2007, o castelo é a morada atual do Museu de História de Nantes. A cidade que foi porto principal de comércio do chamado ouro negro, no século XVIII, do desenvolvimento comercial além mar e da construção naval, no século XIX, e das fábricas, sobretudo de sabão e de conservas, tendo Nantes assistido ao nascimento da primeira conserveira de sardinha.

Ao estilo da arquitetura e do tempo

As traseiras da catedral Saint-Pierre e Saint-Paul, por onde passa a linha verde do roteiro Le voyage à Nantes

Depois da súmula, fica o convite para embarcar na Viagem a Nantes – ou Le Voyage à Nantes –, conceito criado, em 2012, pelo diretor artístico francês Jean Blaise, que elevou Nantes a uma cidade criativa com profunda ligação à arte no espaço público, e demarcado pela promoção da cidade, por um evento cultural repleto de espetáculos e exposições e um trajeto sublinhado a verde no chão. Para o efeito, basta seguir esse mesmo traço que se estende por 12 quilómetros – desde a gare ferroviária até ao Hangar à Bananes, na ponta mais ocidental da Ilha de Nantes.

Começamos o périplo no centro histórico com a Cathédrale Saint-Pierre et Saint-Paul como pano de fundo, onde a pedra alva do vale do Loire, de nome tuffeau, reveste o casario e os edifícios que compõem Nantes – o respeito pela linha da arquitetura do passado mantém-se nos prédios construídos nos dias de hoje. No interior da catedral, de estilo românico, do século XI, e gótico, do século XVI, estão sepultados o Duque de Bretanha François II e Margaret de Foix, pais de Anne de Bretanha, figura incontornável da história de Nantes, que lutou pela cidade e pela independência da Bretanha.

O faustoso campanário da Eglise Sainte Croix

Passamos para a igreja de Sainte Croix por trás da rue du Bouffay, onde fora batizado o célebre escritor francês Jules Verne. De fachada barroca, o monumento ostenta um campanário, do século XIX, onde está o mais pesado sino da cidade de Nantes, a exceder as oito toneladas. A dois passos, a passagem de Santa Cruz dá lugar a exposições de arte com um horário impróprio para os distraídos e para quem anseia conhecer a cidade de uma ponta à outra (das 12 às 18.30 horas).

Mais à frente, no acordeão de edifícios que compõem a Place du Bouffay é visível o edifício do século XVIII, a alma da cidade, como lhe chamam, apesar deste enorme recinto ter sido, em tempos que já lá vão, palco do fim de muitas vidas ceifadas pela guilhotina durante a Revolução Francesa.

Continuamos em direção à Cours Olivier de Clisson, que alinha com a Cours des 50 Étages onde, até aos idos anos 1920’, passava o rio Erdre, afluente do Loire, tendo sido ambos tapados por areia e pedra e, por fim, tornados macadamizados e alcatroados, para receberem os transportes, as bicicletas e quem muito aprecia andar a pé. Um trabalho de engenharia que durou mais de duas décadas.

E uma vez que estamos na Cours Olivier de Clisson, recordamos que no n.º 4 desta avenida nasceu, em 1828, o célebre escritor francês Jules Verne, para quem o porto de Nantes serviu de inspiração nas suas estórias e foi o ponto de partida para muitas aventuras marítimas. Uma história sobre a qual falaremos mais à frente.

A Île de Feydeau, testemunho da história marítima de Nantes, do século XVIII, assim como da construção de um bairro destinado à burguesia, deixou de o ser – uma ilha no rio Erdre – há quase um século, quando a entregaram à cidade por terra. Desses tempos, ficaram as fachadas brancas, as figuras esculpidas no cimo das portas e os balaústres de ferro forjado das varandas dos prédios habitados por uma arquitetura requintada. Visível é também a ligeira inclinação de alguns dos prédios da Île de Feydeau, devido à instabilidade do solo.

A magnificente passagem cénica de Pommeraye

O passeio prossegue a pé, claro está, até à Passage Pommeraye – sim, fizemos batota pelo meio, pois os ponteiros do relógio não dão tréguas ao tempo –, outro dos pontos obrigatórios do roteiro de Nantes. Inaugurada em 1843, esta passagem coberta, batizada com o nome do seu mecenas, Louis Pommeraye, descreve a arquitetura neoclássica com a elegância ímpar que lhe é declarada pelas estatuetas em redor. Figuras alegóricas da ciência, dos mares, da música e das demais artes, que correram mundo sob o olhar atento dos cinéfilos, graças aos filmes “Lola” (1961) e “Une chambre en ville” (1982), ambos do realizador francês Jacques Demy.

O Théâtre Graslin ostenta o belo na Place Graslin

No coração da cidade está a Place Graslin, morada incontornável do Théâtre Graslin, um edifício de estilo neoclássico que merece uma visita. Porquê? O melhor é verem com os próprios olhos, sobretudo à noite, a hora do dia em que a ida a este lugar, no coração de Nantes, é obrigatória. Do outro lado da praça está o emblemático La Cigale, o restaurante de eleição para quem é de Nantes e por quem por lá passa ou fica por tempo indeterminado.

A Torre de Bretagne destaca-se de sobremaneira o tecido urbano da cidade de Nantes

Para terminar o périplo de um dia, fiquem-se pelo Le Nid ou O Ninho. O bar que é uma instalação do designer gráfico francês Jean Jullien, o lar de um enorme pássaro branco – meio cegonha, meio garça – que vigia a cidade no topo da Torre de Bretagne, o prédio mais alto de Nantes, com 144 metros de altura e inaugurado em 1976, e permite o registo de uma visão de 360º.

O Grande Elefante e a Galeria das Máquinas

O Grande Elefante prepara-se para mais uma viagem ao Carrossel dos Mundos Marinhos
A Formiga Gigante passeia miúdos e graúdos, enquanto os mais audaciosos preferem a aventura aos pés das garças reais

Do outro lado do Loire está a Île de Nantes. Por aqui a criatividade fervilha a cada segundo que passa, desde o ano em que começou a bienal das artes em Nantes, em 2007, e regressada em 2009 e, mais tarde, em 2012. Começamos pela parte oriental da ilha, onde colossais máquinas ganham vida própria.

De um espetáculo realizado pela companhia de teatro de rua, a Royal de Luxe, de Jean-Luc Courcoult, traduzido num desfile de imponentes criaturas que recriaram o imaginário de Nantes, resultou o projeto artístico Les machines de l’île, de Pierre Oréfice e François Delarozière. A interpretação livre assente no cruzamento dos “mundos inventados” de Jules Verne e do universo mecânico de Leonardo Da Vinci com a história da indústria da cidade.

Com morada fixa no local dos antigos estaleiros navais de Nantes, a primeira parcela abriu ao público a 1 de julho de 2007, ano da inauguração do Grande Elefante – uma carcaça hidráulica de 45 toneladas e 12 metros de altura. O gigantesco paquiderme é, para miúdos e graúdos destemidos, o meio de transporte mais criativo para passear desde a Galeria das Máquinas até ao Carrossel dos Mundos Marinhos, seguindo a linha verde que atravessa o chão.

O Carrossel dos Mundos Marinhos é, por sua vez, o segundo capítulo do projeto Les machines de l’île. Um gigante de 25 metros de altura e 22 de diâmetro que invoca o mais belo universo marinho saído do imaginário de Jules Verne na célebre obra “Vinte mil léguas submarinas”.

A Galeria das Máquinas é, por conseguinte, outro dos lugares de destaque da Viagem a Nantes, pois trata-se do “habitat” das mais estranhas criaturas mecânicas ou seja, um laboratório onde são testados os bichos mecânicos. Falamos da formiga gigante, que passeia curiosos de todas as idades, entre outras criaturas cujo tamanho supera a realidade, e da maqueta da fantástica árvore das garças reais, com uma das duas aves mecânicas de oito metros de altura que, nos seus cestos gigantes, transporta os mais aventureiros; e da floresta tropical que acolhe insetos de proporções colossais. A apresentação da árvore em tamanho real, com cinco mil metros povoados de insetos enormes espalhados pelos ramos entre as demais espécies de plantas, está prevista para 2019. O protótipo da mesma encontra-se à entrada da galeria, para explorar.

O Estuaire, o museu ao ar livre

“La maison dans la Loire”, de Jean-Luc Courcoult / “Misconceivable”, do artista austríaco Erwin Wurm
“The settlers”, da artista norte-americana Sarah Sze

Agora rumamos à gare marítima, para embarcarmos no transporte fluvial Navibus em direção a Trentemoult, na margem esquerda do estuário. Uma pequena aldeia de pescadores composta por um casario que quase esgota a lista de pantones e delineia ruas estreitas versadas por apontamentos de street art e plantas trepadeiras nas paredes das casas, e por vasos floridos que ornamentam as janelas. O ponto de partida para conhecer de perto o projeto Estuaire. Uma exposição permanente de arte contemporânea que se estende por 120 quilómetros, pelas margens do rio Loire até Saint-Lazaire, na Île de Nantes, a qual resulta das três edições da bienal das artes de Nantes.

Na composição constam 29 obras de arte in situ criadas por artistas franceses, e do lado de lá da fronteira de França. Objetivo: Representar a ligação da cidade ao rio, à indústria e à natureza.

Da mostra ao ar livre, iniciamos o percurso pelo estuário, do qual se destacam “La maison dans la Loire”, do fundador do Royal de Luxe Jean-Luc Courcoult, um peça de arte que emerge no meio do Loire, num lugar poético, em Couëron; “Misconceivable”, do artista austríaco Erwin Wurm, um veleiro, com uma forma peculiar, que parece querer trepar a pequena ponte que atravessa o canal usado, em tempos, como um cemitério de barcos; e “The settlers”, da artista norte-americana Sarah Sze, que “soltou” as suas criaturas selvagens que se confundem com o novo habitat, as árvores do estuário.

A nova Nantes e o Quarteirão da Criação

Vamos para ocidente, para reiniciar, desta vez, o percurso do projeto Estuaire por terra. Começamos, assim, na nova Nantes, um aglomerado de edifícios novos que resulta da requalificação do plano urbanístico da Île de Nantes.

“Péage sauvage”, do o grupo holandês Observatorium, outras das obras do projeto Estuaire

Aqui está a primeira peça que pertence ao museu ao ar livre: “Péage sauvage”. Composta por telheiro e mesas compridos, e feita de madeira maciça, esta obra foi criada pelo grupo holandês Observatorium e tornou-se o ponto de encontro de famílias e amigos no verão.

Sobre um bunker da II Guerra Mundial está La Fabrique, que pertence ao Quarteirão da Criação, assinalado pela arte urbana

Mais à frente, em direção à foz do Loire, encontramos “L’Absence”, do atelier Van Lieshout, uma escultura em tons de azul, que acolhe um café, instalada à porta da Faculdade de Arquitetura. À semelhança das outras grandes escolas, como a de design, de artes plásticas e performativas, a Faculdade de Arquitetura faz parte do Quarteirão da Criação.

O Palácio de Justiça, um projeto assinado pelo arquiteto francês Jean Nouvel

Deste quarteirão da Île de Nantes fazem ainda parte o Palácio de Justiça, de 2000, da autoria do arquiteto francês Jean Nouvel, do qual sobressai o ferro negro das traseiras do edifício, bem como as paredes de vidro, numa alusão à transparência da justiça cuja visita ao exterior vale a pena marcar para a noite; a La Fabrique, erguida sobre um bunker da II Grande Guerra e onde existem 16 estúdios de gravação para músicos, entre outros espaços destinados a profissionais das artes e rubricados por artistas de rua. Dentro deste Quarteirão da Criação salientamos ainda o Jardin des Expéditions, um espaço público repleto de árvores provenientes dos quatro cantos do mundo, inspirado nas viagens feitas no tempo das expedições pelo mundo e instalado no interior de uma antiga fábrica, da qual sobrevive apenas o esqueleto, e o Hangar à Bananes, na ponta mais oriental da ilha,um antigo hangar onde eram armazenadas as bananas provenientes das colónias ultramarinas de França de então e onde, hoje, fica a HAB Galerie, um espaço ligado às artes.

A irreverente “The zebra crossing, regulations and the general directions”, de Angela Bulloch

Voltemos ao projeto Estuaire, do qual destacamos “The zebra crossing, regulations and the general directions”, da artista plástica canadiana Angela Bulloch. Inspirada nas passadeiras de peões britânicas, assim como os candeeiros que compõem o cenário, esta zebra desafia os limites, ao atravessar a estrada e ao entrar no edifício da frente, o Manny Building, na rue La-Noue-Bras-de-Fer, sem que barreiras houvesse que a impedissem de entrar, enquanto que do mesmo prédio se ouvem ruídos e música, uma enigmática instalação de Rolf Julius.

A gigantesca “Mètre à tuban”, da francesa Lilian Bourgeat

Do outro lado da estrada, a “Mètre à tuban”, uma fita métrica colossal da francesa Lilian Bourgeat que podemos ver no jardim de uma imobiliária.

“Les anneaux” luminosos vistos do outro lado do Loire

Desta gigante exposição ao ar livre fazem ainda parte a instalação do francês François Morellet, “De temps en temps”, na rua paralela à Galeria das Máquinas, a qual deu uma nova imagem ao edifício de uma companhia de seguros e, como o nome indica, muda de cor consoante o estado do tempo; e “Les anneaux”, 18 anéis luminosos de Daniel Buren e do arquiteto Patrick Bouchain, instalados ao longo do muro do Cais da Antilhas, os quais, à noite, são tomados pelo vermelho, o azul e o verde, as cores que dão cor ao rio.

Jules Vernes e os navios do Loire

Fachada do Museu Jules Vernes cujas traseiras estão de olhos postos no rio

Na margem direita do rio, no alto da colina de Sainte-Anne, fica o Museu de Jules Verne. Uma pequena casa com os olhos postos no Loire, uma casa que acolhe peças de mobiliário do célebre escritor francês, os seus manuscritos e livros, e as cartas, guardados em expositores envidraçados, e poemas inéditos minuciosamente escritos à mão.

Verdadeiras relíquias que deliciam os apreciadores de boas leituras associadas ao fantástico universo marinho criado pelo autor de livros, como os consagrados “Vinte mil léguas submarinas” e “Volta ao mundo em 80 dias”. Afinal, Jules Verne foi um navegador, um amante dos mares, influenciado pelas incursões de barcos e navios que atracavam em Nantes, outrora uma importante cidade de comércio ultramarino e mui dedicada à indústria naval, da qual restam esqueletos que, no presente, servem de teto à Galeria das Máquinas e ao Jardin des Expéditions, por exemplo, tendo feito a primeira viagem em 1867, com destino à América.

E pelo mar percorreu o mundo, assim como por terra, entregando-se a aventuras que serviram de inspiração para as suas próprias histórias contadas em livros e retratadas em desenhos, também estes expostos nesta mostra permanente da vida e da obra do escritor e criador de criaturas marinhas fantásticas e do emblemático Capitão Nemo, o protagonista de “Vinte mil léguas submarinas”, estando ambos imortalizados nas estátuas erguidas, em 2005, no miradouro localizado na mesma rue de l’Hermitage, a mesma do Museu Jules Veres. Um lugar poético onde, outrora, o escritor observava a azáfama protagonizava pelas embarcações que povoavam o Loire.

Mas há mais sobre Nantes para contar. •

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© Fotografia: João Pedro Rato

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