Uma conversa: Susana Paiva com Maria Krejci

O “Lugar de mim” de Susana Paiva e do qual a Mutante é media partner, continua a preencher o universo Mutante com novidades. Hoje, é dia de vos darmos a conhecer uma conversa entre amigas: Susana Paiva e Maria Krejci.

Inaugurado a 22 de mais deste ano, na Casa da Escrita, em Coimbra, “Lugar de mim” é um projeto expositivo contempla a realização de uma exposição autobiográfica da fotógrafa Susana Paiva, com produção da Mercearia de Arte, e estará patente até dia 15 de junho, bem como a criação de um conjunto de objetos editoriais que serão apresentados, debatidos e comunicados ao longo da vigência do projeto da EIF. Susana Paiva (n. 1970) trabalha, desde 1989, como fotógrafa de teatro e de imprensa, optando, mais tarde, enveredar pela fotografia de autor. Em Portugal trabalhou para várias publicações, entre as quais Dna, Egoísta, Vogue, Notícias Magazine, Magazine Artes, Forum Estudante, Forum Ambiente e Descobrir. É coordenadora da plataforma The Portfolio Project e editora da coleção Reflex-Reflections on Photography. Desde 2006, o seu trabalho tem sido representado pela Anzenberger Agency e está presente em várias publicações editadas por reconhecidas editoras e é a alma do “Lugar de mim.”

Do encontro das duas amigas resultou a conversa que aqui vos apresentamos com Maria Krejci a perguntar e Susana Paiva a responder, sem medos.

Sei que preparas esta exposição há cerca de um ano e que a consideras um espaço/tempo privilegiado de reflexão em torno da tua construção enquanto fotógrafa. Porquê a escolha deste preciso momento para tal “balanço”?
Susana Paiva (SP): Este projecto nasce de um convite do Pedro Beja Alves que corporiza, através da “Mercearia de Arte Alves & Silvestre”, a produção deste evento que é coincidente com o meu 45º aniversário, constituindo-se assim como uma dupla celebração onde se englobam 25 anos de práctica e resistência neste difícil território da criação fotográfica.

É então uma exposição autobiográfica, comemorativa do teu 45º aniversário…
SP: Na verdade esse é apenas o ponto de partida para o projecto, o seu pretexto ou talvez – melhor – o seu subtexto. Basicamente, há muito tempo que desejava habitar, com imagens e palavras – minhas e de outros criadores, a que poeticamente chamo cúmplices – este magnífico espaço da Casa da Escrita, um lugar pleno de possibilidades onde creio que, certamente, conviverão bem todas as linguagens que possam contribuir para as múltiplas possibilidades da escrita e onde a fotografia poderá cumprir um papel, no mínimo, interessante.

Proporcionar à fotografia um papel central e centrado na linguagem, tão longe das abordagens mais habituais, não se revelará uma experiência incompreendida?
Confesso que muito embora tenha consciência da visão reduzida e redutora do grande público, em torno da possibilidades da fotografia, penso que vale sempre a pena correr o risco de expandir os universos de comunicação em torno desta disciplina. O mundo está cheio de pessoas que confundem as possibilidades da Fotografia com a sua própria práctica fotográfica. Obviamente que essa visão é redutora e absolutamente desajustada e, quiçá, até injusta com as potencialidades comunicacionais e criativas da fotografia. É sempre um risco considerarmo-nos como modelo, convictos de que abarcamos, num certo grau de perfeição, toda e qualquer área de saber.

Talvez não seja simples, para a maior parte dos visitantes, reconhecer a dimensão fotográfica deste teu projecto a apresentar na Casa de Escrita, em Coimbra…
A proposta não é evidente e não pretende enfatizar as possibilidades ilustrativas da imagem pelo que admito que o público mais distraído possa não encontrar, ou mesmo não se interessar por todas as dimensões exploratórias da exposição. Na verdade a exposição foi concebida como um mecanismo impossibilitante de uma leitura global, pelo menos devidamente aprofundada. É uma exposição exigente, que propõe ao público uma permanente dimensão de jogo, exigindo-lhe um certo esforço e um grau de cumplicidade pouco habitual. Além do mais, tendo a exposição sendo concebida como uma proposta site specific, as infra-estruturas, luminosidade e equipamento da Casa cumprem um papel fundamental no discurso artístico. De qualquer forma existem muitas dimensões distintas nesta proposta, algumas das quais mais tradicionais do que as outras. A mostra reúne documentação diversa – desde correspondência a livros e recortes de jornal – mas também contempla uma pequena exposição fotográfica e diversas instalações, três das quais multimédia.

Ao optares por dotar o livro de um papel especial neste projecto acabas por contribuir para uma maior diluição das fronteiras de visibilidade, dos limites, da tua intervenção artística. Não receias que essa dimensão se desvaneça na actual dinâmica da Casa?
Pensar a exposição como não intrusiva foi simultaneamente requisito – contingência-, e opção. A Casa da Escrita não é, por natureza e definição, uma estrutura expositiva, pelo que não se encontra dotada dos materiais e suportes ideias para quem deseja realizar uma exposição mais convencional. Por outro lado agradava-me esta ideia de co-habitação pacífica, não interferente com a aparente lógica de funcionamento da estrutura. Numa altura em que a maioria do público não dedica o tempo necessário para a leitura, fruição e interpretação de uma obra, tendo no entanto a pretensão de o fazer, dá-me um certo prazer conceber um “objecto impossível” de ser plenamente fruído e interpretado. É um género de manifesto contra a leveza – leviandade, mesmo – com que se passa pelas obras de criação artística sem verdadeiramente nos implicarmos na sua leitura e co-construção.

Enfatizas muito a dimensão de jogo nas tuas propostas artísticas, bem como a rede de cumplicidades que gostas de tecer com outros criadores e público. Qual o papel reservado aos outros na tua criação artística?
Decidi ser fotógrafa por reconhecer que esta linguagem me permitiria estabelecer elos com os outros, de forma mais aprofundada do que havia conseguido fazer através de ensaios com outras linguagens. Considero-me uma comunicadora e não me consigo perspectivar sem interlocutores com os quais possa construir e partilhar as minhas ideias, expressas maioritariamente sob a forma de imagens. Quando penso no papel que reservo aos outros nesta minha equação da criação penso sempre na experiência que gostaria de proporcionar a todos com os quais articulo. Em última instância penso no que gostaria que me oferecessem, tanto enquanto criadora como enquanto espectadora, e tento construir dispositivos e enquadramentos que tornem isso possível e partilha-los com quem me desejar acompanhar. Gosto de ser estimulada, desafiada e projecto esse desejo naqueles que convoco – criadores e público – para comigo construírem os objectos e projectos que imagino e desejo criar.

Esta exposição reúne muito outros criadores e projecta diversas dinâmicas sobre as quais gostaria que falasses um pouco.
Esta exposição, este projecto expositivo, é pensado como uma grande convocatória de criadores, e imaginadores, a quem reconheço valor artístico e que gostaria que pudessem ter um espaço de visibilidade, digna, para o seu trabalho. Poder usufruir de uma oportunidade destas e não a repartir com tanta gente com valor, e por vezes tão poucas oportunidades de publicamente o revelar, pareceu-me egoísta e despropositado.

E como realizaste tu essa convocatória de artistas?
O projecto começou a ganhar forma em Abril 2014 e desde então que tenho desenvolvido um conjunto de actividades e projectos artísticos que fiz desaguar neste “Lugar de mim”. É um lugar onde os afectos, construídos e cultivados ao longo da vida, se traduzem em pequenas missivas artísticas, criadas em enquadramentos distintos mas tendo sempre a função primordial de questionamento em torno das urgências de cada um de nós. Este lugar da afectividade, ou melhor – esta afectividade como lugar – interessa-me particularmente, sobretudo num tempo em que são cada vez mais raros os seres que optam pelo culto da sensibilidade, pela desejo de escuta, por se virarem para o exterior deixando-se impressionar pelo mundo e pelos outros. Vivemos num sistema que não premeia a sensibilidade, que esquece o papel fundamental da imaginação como fonte de reinvenção e ferramenta de construção de novos mundos e eu gostaria que esta exposição reequacionasse essa possibilidade e se transformasse num corpo de possibilidades para alem do visível.

Quantas pessoas se encontram envolvidas neste projecto?
Habitarão esse “Lugar de mim” cerca de 100 criadores, isso se contabilizarmos apenas os que têm intervenções directas e/ou presenciais. Na verdade deverá haver pelo menos duas centenas de nomes invocados e convocados para este rio que desagua na Casa da Escrita, em Coimbra.

Falas da Casa da Escrita como “Foz” de um rio de criadores…
Penso nisso mais com uma “Foz” de ideias e pequenas utopias, elaboradas e comunicadas a várias vozes. Interessa-me muito a polifonia e esta dimensão coral da criação. O projecto possui muitas dimensões e envolve não apenas trabalhos visíveis na exposição mas também um conjunto de actividades, a que chamamos “Habitar o mesmo corpo”, onde diversos convidados têm carta branca para abordarem qualquer temática em torno da criação. Alem desse espaço existem ainda momentos como o “evento Pop-Up” dos dias 30 e 31 de Maio onde haverá apresentações performativas, lançamentos de livros e instalações efémeras de outros projectos artísticos. Eu e o Pedro Beja Alves tentámos uma convergência de esforços a fim de imprimir uma certa dinâmica a esta exposição, semelhante a outros eventos em que já havíamos trabalhado juntos, na Mercearia de Arte.

Nos últimos anos tens desenvolvido o projecto da “Escola Informal de Fotografia” que, em grande medida, tem bebido da tua experiência enquanto criadora. De que forma esse trabalho ajudou a modelar a proposta que agora apresentas?
A EIF tem sido a minha maior aventura, profissional e pessoal, desde que nasceu, em 2012, na cidade de Coimbra, e como não poderia deixar de ser, como com todas as coisas que realmente nos interessam, essa experiência de trabalho tem impregnado todas as minhas criações desde então. De facto a EIF, não apenas simbolicamente mas também de forma efectiva, acaba por ser fonte de projectos e ideias a partilhar neste corpo dinâmico, por nós criado para a Casa da Escrita, já que o grupo de trabalho deste ano partilhará materiais processuais, acessórios ao desenvolvimento dos seus projectos fotográficos, em torno da obra “Diálogos com a cidade” de João Paulo Cruz, já na sessão de dia 28 de Maio.

Como sintetizarias este teu projecto a fim de o comunicar em 5 minutos?
Começaria por dizer que é um lugar onde me projecto e reflicto, convocando os outros para que, com as suas vozes, me falem do que construímos juntos e do que desejaríamos edificar no futuro. Que é um projecto metáfora, onde nem tudo é o que aparenta pois essa é a verdadeira essência da fotografia – a da aparição, da sombra e da fantasia. Diria ainda que o conjunto de materiais e dispositivos disponíveis reforçam questões em torno da liberdade, responsabilidade, imaginação e privacidade, conceitos que me fascinam e sempre estão presentes no meu trabalho. E concluiria que sem a devida dose de ilusão, inerente a esta minha função, nada teria o mesmo interesse e graça, pois seria indubitavelmente mais triste e pobre.

Não se esqueça que este fim-de-semana vai ser em cheio, na Casa de Escrita neste universo de Susana Paiva por isso… apareça! Relembre o programa aqui. •

+ Exposição “Lugar de mim”, na Mutante
+ Susana Paiva
+ Casa da Escrita
@ Fotografia: Susana Paiva.

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