Da história se faz o vinho / Quinta da Alorna

O legado de Baco soma três séculos numa propriedade cultivada no coração do país, bem próxima de Santarém onde, hoje, a criteriosa seleção das castas tintas e brancas dão mote a boas estórias para contar.

O jardim que preguiça até quase ao infinito

À chegada, as boas vindas são dadas à entrada da Quinta da Alorna, em Almeirim, Ribatejo, com o ombu, um gigantesco arbusto originário das Pampas, na América do Sul, que veio para Portugal há cerca de dois séculos e meio – talvez juntamente com um outro existente no jardim do palácio da Quinta das Águias, na Junqueira, em Lisboa. Eis o mote para a suma da história que dita o início da propriedade entregue a D. Pedro de Almeida Portugal, o primeiro marquês de Alorna e vice-rei da Índia que, em meados do século XVIII, mandou erigir o palácio herdado, mais tarde, pelo seu filho, D. João de Almeida, casado com D. Leonor Távora, que apostou, por sua vez, na produção de azeite e na criação dos pomares, do bosque, dos jardins ao estilo francês e da vinha, dando início à história do vinho com a chancela da quinta.

A alameda do palácio da família Lopo de Carvalho

Cerca de duas décadas depois, a propriedade ganha vida nova com o regresso dos anfitriões a casa, sobretudo com a entrada em cena D. Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, a quarta marquesa de Alorna, uma mulher de uma cultura inigualável, graças ao tempo dedicado à leitura durante a clausura no convento de Chelas, em Lisboa, onde aprendeu a falar cinco línguas, tendo sido a primeira escritora pré-romântica no país. Em 1779, D. Leonor de Almeida casou com Carlos Augusto d’Oeynhausen, viajou pela Europa, onde manteve ligações estreitas com as cortes pelas quais passava, com particular ênfase na influência exercida junto da rainha no que toca à criação das primeiras escolas femininas em Portugal. Porém, em 1839, a quarta marquesa de Alorna morre e a quinta é adquirida por José Dias Leite Sampaio, visconde da Junqueira, que apostou na produção de azeite e vinho e na pecuária. Porém, em 1915, nasce a Sociedade Agrícola da Alorna, Lda cujas cotas são, mais tarde, adquiridas por um dos sócios, Manuel Caroça, sendo o seu genro, Fausto Lopo de Carvalho, o homem que se encarrega da gestão da propriedade em Almeirim. Assim, a empresa familiar está nas mãos da família Lopo de Carvalho há cinco gerações.

A floresta, a agricultura, os cavalos e a vinha

Sofia Canelas Pinto, uma das responsáveis pelo centro equestre da propriedade

Vamos a números. Ao todo são 2800 hectares, dos quais 500 são de área agrícola, pautada pela diversidade de plantio nas planícies ribatejanas; 220 são de vinha, sendo o vinho “o único produto que temos com marca própria”; e 1500 hectares são de floresta – estes representam “duas vezes Monsanto”, afirma Pedro Lufinha, diretor geral executivo da Quinta da Alorna e o nosso cicerone – demarcada por pinheiros, eucaliptos, sobreiros, entre outras árvores que datam da época em que D. João, filho do primeiro marquês de Alorna, mandou plantar.

E porque estamos no Ribatejo, há sempre o pretexto para falar de cavalos cujos treinos e o cuidado diário são da responsabilidade de Sofia e Filipe Canelas Pinto, campeão nacional de dressage. Falamos do centro equestre da propriedade, um dos poucos com quatro estrelas em Portugal e um dos embaixadores perfeito  além fronteiras no que toca aos vinhos Quinta da Alorna, assunto que nos conduz ao Jardim das Castas, apresentado como “uma espécie de laboratório” a céu aberto, segundo Pedro Lufinha, no qual são feitos ensaios a 27 castas diferentes – oito brancas (Arinto, Chardonnay, Fernão Pires, Verdelho, Marsane, Alvarinho, Viognier e Sauvignon Blanc) e nove tintas (Touriga Nacional, Tinta Roriz, Cbernet Sauvignon, Syrah, Castelão, Trincadeira, Tinta Miúda, Alicante Bouschet e Touriga Franca). Conclusão: Apesar de terem sido plantadas no mesmo solo e permanecerem expostas à mesma temperatura, as castas mantém as suas diferenças, “a sua génese”, reforça o nosso cicerone.

O testemunho de Baco desde 1723

A área mais antiga da adega

O investimento nos vinhos premium é forte, razão pela qual “vamos fazer uma micro-adega para fazer um vinho ‘super premium’, branco e tinto”, informa Pedro Lufinha. No fundo, “a nossa grande aposta é que todos eles [os vinhos] sejam um best by, ou seja, que tenham “qualidade superior para aquele preço”.

Quinta da Alorna rosé 2014 para dar início à visita

A ida à adega –, antecedida por um brinde de boas vindas com Quinta da Alorna rosé 2014, tendo a Touriga Nacional como casta utilizada a cem por cento – toma conta do dia a dia de quem tem, neste espaço, uma tarefa específica, ou não fosse a produção de vinho uma arte minuciosa e a atividade principal da Quinta da Alorna, onde o processo de fabrico de brancos (as uvas das castas brancas vão diretamente para a prensa, a fim de separar a película do mosto, sendo este transferido para a cuba, onde fica a fermentar), tintos (as uvas das castas tintas entram, inteiras, nas cubas, para fermentarem e o líquido passa várias vezes pela manta formada pelas graínhas e a película) e rosés (feito de uvas tintas, colocadas na cuba por quatro a seis horas para extrair cor e parte do mosto é, ao fim desse período de tempo, retirado da cuba para uma outra, onde faz a fermentação sem película, ou seja, da mesma forma que os brancos) respeita a regra. É de salientar que todas as explicações partiram das palavras de Pedro Lufinha, que explica o legado de Baco da Quinta da Alorna com precisão, para que dúvidas deixem de existir.

No jardim frontal, que será submetido a uma mui merecida remodelação com termino em todo o seu esplender para finais do primeiro trimestre de 2016, a escadaria convida a entrar no palácio da família Lopo de Carvalho, na fachada da qual permanece o brasão de D Pedro de Almeida Portugal. Na sala de visitas, com acesso a um belíssimo jardim ao estilo inglês, onde o relvado preguiça até quase ao infinito, é feita a prova dos vinhos Quinta da Alorna, momento que contou com a presença de Martta Reis Simões, enóloga da casa desde 2003 e que passou a assinar todo o legado de Baco originário dos 220 hectares de vinha em 2010 tendo, um ano depois, recebido o prémio “Enólogo do Ano Vinhos do Tejo 2011” pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo. (clique nas setas em baixo para continuar a ler)

anterior1 de 2próximo