No palco da alta gastronomia / Rota das Estrelas

Aos que conhecem e a quem tão pouco sabe sobre este roteiro de sabores, eis a súmula de um evento que, ao longo de um ano, reúne cozinheiros de restaurantes com e sem estrelas Michelin, d’aquém e d’além fronteiras desde 2010.

Joachim Koerper, o reconhecido chef alemão responsável pela cozinha do Eleven (1 estrela Michelin), em Lisboa, e José Avillez, o chef português que viu o seu Belcanto, no lisboeta Chiado, renovar a distinção com duas estrelas Michelin pelo Guia Michelin Espanha e Portugal 2016, foram os protagonistas da primeira edição da Rota das Estrelas, ao lado do anfitrião, o chef Benoît Sinthon, a qual aconteceu a 22 e 23 de abril, no I Gallo d’Oro (1 estrela Michelin), no The Cliff Bay, na ilha da Madeira.

Desde então, o festival gastronómico tem percorrido o país com cozinheiros portugueses e demais nacionalidades, entre os quais encontramos nomes incontornáveis do universo da gastronomia, de dentro e fora de portas, sempre com o intuito de dar primazia aos produto locais e nacionais e, deste modo, desafiar o palato a curiosos de todo o mundo que queiram experienciar um repasto idealizado por chefs e elaborado entre amigos e conhecidos, ávidos de conhecimento e de partilha, em restaurantes com estrelas Michelin que participam no evento, que também recebe chefes recomendados por quem foi convidado no ano anterior.

Para o efeito, deixamos uma súmula de como surgiu e porquê, numa entrevista a António Trindade, presidente e CEO do grupo Porto Bay, e um dos mentores da Rota das Estrelas – a par com Bernardo Trindade, o secretário de Estado que, em 2010, deixou este desafio – e a Benoît Sinthon, o chef do Il Gallo d’Oro, o chef anfitrião da primeira etapa de cada edição, uma vez que ambos são os principais impulsionadores deste evento português.

“O denominador comum é pertencerem ao restrito círculo da excelência, reconhecido pelo Guia Michelin.” Benoît Sinthon

Antes de entrarmos na cozinha da Rota das Estrelas pedia que nos explicassem o conceito deste festival de alta gastronomia de cunho nacional, com a ilha da Madeira na casa partida.
António Trindade (A.T.):
O então secretário de Estado, também meu filho, Bernardo Trindade, tinha feito o desafio ao setor de afirmar a gastronomia portuguesa como produto turístico. A Rota das Estrelas foi a resposta que nos fazia sentido. A ideia consolidou-se também junto de parceiros e, assim, montou-se a primeira edição da Rota das Estrelas. O conceito era simples e bastante autónomo, logo a adesão dos vários hotéis e restaurantes com estrela Michelin foi natural. Havia vontade de partilhar experiências. Havia vontade de os chefes se conhecerem entre si. Havia vontade de evidenciar a alta gastronomia.
Benoît Sinthon (B.S.): Cada encontro traz chefes convidados internacionais. O denominador comum é pertencerem ao restrito círculo da excelência, reconhecido pelo Guia Michelin. O chefe anfitrião recebe pelo menos outros dois com estrela Michelin, para a preparação, em equipa, de um menu de degustação com alguns dos pratos distinguidos no famoso guia, indo ainda ao encontro da riqueza de paladares e produtos de cada região.

O desafio apresentado aos chefs dos restaurantes portugueses distinguidos com a estrela Michelin resultou numa festa que se repete há sete anos. Recordam-se de quem marcou presença e como foi a primeira edição, com lugar reservado no Il Gallo d’Oro?
A.T.: Sim, lembro-me bem dos chefes [Joachim] Koerper e [José] Avillez na primeira edição. Tivemos casa cheia e foi um momento importante para a afirmação do restaurante, não só junto dos nossos hóspedes, como também junto da comunidade local.
B. S.: Recordo-me perfeitamente! Convidei o meu grande amigo Joachim Koerper e José Avillez. Duas pessoas que ainda hoje fazem muito pela gastronomia em Portugal e não só. O restaurante Il Gallo D’ Oro estava cheio nos dois jantares e até tivemos de fazer um almoço extra para tentar satisfazer todas as reservas.

“Foi nosso objetivo, desde início, dar a este evento uma projecção nacional e internacional sustentada na afirmação dos vários restaurantes.” António Trindade

Da casa partida para o continente foi um passo à boa mesa portuguesa. Como decorreu este processo que requer a adesão e a criatividade dos chefes e demais cozinheiros?
A.T.: Não foi um passo. Foi nosso objetivo, desde início, dar a este evento uma projecção nacional e internacional sustentada na afirmação dos vários restaurantes. O sucesso de um evento como este depende muito da adesão corporativa de uma classe que pretende transmitir e ganhar conhecimento assente na troca de experiências. Como tal, não é uma organização de gente de fora do “métier”, mas um evento criado pelos próprios. Cada um dos chefes será anfitrião no seu devido tempo.
B. S.: Todos os chefes aceitaram muito bem o desafio. Foram convidando amigos e chefes de vários países e o evento começou a ganhar, de ano para ano, mais dimensão e credibilidade.

O convite a chefs oriundos de restaurantes com estrelados fora de portas aconteceu, pela partilha de experiências e pela vontade de somar conhecimentos. Quando e porque razões surgiu esta ideia?
A. T.: Logo no segundo ano e muito devido às relações pessoais que vários chefes com estrela, em Portugal, tinham no exterior. Foi o primeiro passo para a adesão tão espontânea a um evento com o este. Não nos podemos esquecer que os nossos chefes participam em variados eventos fora de portas ganhando, como tal, contatos que permitem esta aproximação.
B. S.: A gastronomia está sempre a evoluir e temos de estar atentos a todas as técnicas e a todos os paladares. Por isso, juntos ganhamos saber, partilha, conhecimentos, técnicas e conhecemos produtos novos. Portugal é um país com produtos de grande qualidade e diversidade. Temos o mar e a serra, daí a nossa motivação em mostrar e divulgar aos chefes europeus, que nós convidamos, a riqueza da gastronomia de Portugal.

De Norte a Sul do país, com a Madeira na proa, já são muitos os chefes que recebem o desafio de mostrarem o que valem. Como encaram esta abertura?
A. T.: Como mais uma oportunidade, esta sim, muito especial de mostrar a qualidade de um produto turístico que é a gastronomia em termos diferenciados. Ao mesmo tempo potenciador de um ganho na área da formação e da pesquisa gastronómica muito pouco provável fora deste ambiente que caracteriza o evento.
B. S.: Portugal está na moda. Cada vez mais turistas visitam este lindíssimo país e os chefes também estão atentos, e ficam sempre muitos fascinados com o nosso país. O desafio é sempre muito interessante – ir ao mercado, descobrir produtos novos e de seguida cozinhar com eles. Todos os chefes acham fabuloso este desafio.

“Sim, achamos que este evento tem credibilidade para crescer em Espanha, uma vez que o país vizinho tem outros produtos fabulosos e chefes de grande qualidade e criatividade.” Benoît Sinthon

Na edição de 2015, a rota dos sabores à mesa foi desviada, pela primeira vez, para a vizinha Espanha, com a Corunha na mira de gourmets e gourmands. É o início de uma nova etapa e um dos (novos) objetivos da Rota das Estrelas?
A. T.: Foi o inicio de uma nova etapa e um dos objetivos pretendidos desde a segunda edição da rota das estrelas. Temos de assumir que o que une Espanha e Portugal, também nesta área, é muito mais do que o que nos afasta. A afirmação da nossa capacidade ibérica só trará benefícios adicionais na nossa apresentação ao mundo, rompendo barreiras que até agora inibiam a apresentação de uma oferta complementar mas coerente.
B. S.: Sim, achamos que este evento tem credibilidade para crescer em Espanha, uma vez que o país vizinho tem outros produtos fabulosos e chefes de grande qualidade e criatividade. Juntos vamos destacar os produtos ibéricos.

“Julgo que a gastronomia portuguesa tem suficiente qualidade e atributos para se diferenciar pela positiva num ambiente tão culto gastronomicamente (…)” António Trindade

À semelhança dos Descobrimentos Portugueses de outrora, até onde gostariam de levar a gastronomia portuguesa?
A. T.: Com toda a humildade e consciência das nossas limitações, mas também com o desejo de levar o mais longe possível uma realidade que, efetivamente, nos diferencia. Levar a gastronomia portuguesa a zonas que ainda que distantes fisicamente podem estar muito próximas da nossa identidade histórica. Refiro-me aqui a esse mundo enorme que é o Brasil. Mas também na própria Europa, tal como se assistem a expressões de afirmação de excelência – casos como a Finlândia, a Dinamarca e mesmo a Espanha. Julgo que a gastronomia portuguesa tem suficiente qualidade e atributos para se diferenciar pela positiva num ambiente tão culto gastronomicamente e com tantas exigências como o é a Europa.
B. S.: Até ao palco da alta gastronomia mundial.

Antes de terminar fica a sugestão de leitura do que irá acontecer na primeira etapa da Rota das Estrelas de 2016 agendada entre os dias 19 e 23 de fevereiro, na Madeira.

+ Rota das Estrelas
© Fotografia: Henrique Seruca
Legenda da foto de entrada: O chef Benoît Sinthon e António Trindade, presidente e CEO do grupo Porto Bay

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