Périplo pelos vinhos da Ribera del Guadiana / Espanha

A VII edição da gala da Asociación Española de Periodistas y Escritores del Vino, que premeia os melhores vinhos e espirituosos do país vizinho e este ano se realizou a 18 de março, em Mérida, foi o pretexto para conhecer o vinho produzido na Ribera del Guadiana, a denominação de origem dos vinhos da região da Extremadura.

O encontro entre vários membros da Asociación Española de Periodistas y Escritores del Vino (AEPEV), como o presidente José Luis Murcia García e o presidente honorário, Maria Isabel Mijares, jornalistas, enólogos da região e amantes do legado de Baco proporcionado pela Câmara de Mérida, serviu de mote para provar alguns dos que são considerados como os melhores vinhos da Extremadura, no país vizinho e, ao mesmo tempo debater diversas questões relacionadas com esta bebida e a gastronomia no ano em que Mérida é a Capital Iberoamericana da Cultura Gastronómica, tendo como embaixadores a enóloga Maria Isabel Mijares e o escritor Jesús Sánchez Adalid.

Alguns dos néctares provados e acompanhados de tapas e petiscos característicos da Extremadura foram: Habla de ti, feito a partir da casta Sauvignon Blanc colhida em 2014, e Habla del silêncio, um blend composto por Syrah, Cabernet Sauvignon e Tempranillo, ambos das Bodegas Habla; Verdejo Ruiz Torres, um branco jovem de 2015; Los Balancines Huno 2013 (feito com 50 por cento Garnacha Tintorera, 20 por cento Cabernet Sauvignon, 20 por cento Tempranillo e 10 por cento Syrah); e Alunado Chardonnay 2014, de Pago los Balancines ou o Chacona Oro, feito a partir da casta Merlot, de Bodegas Bonifacio Fernandez Galan (Bodegas La Pelina).

Ribera del Guadiana, Tierra de Barros

Quando pensamos em vinhos de Espanha, talvez nos lembremos apenas dos tintos de Rioja, dos espumantes de Cava ou dos fortificados de Jerez mas, nos últimos anos, surgiram diversos estilos de vinhos de diferentes regiões, fruto de novos investimentos, de novas ideias e de novos enólogos. Uma dessas regiões é a Extremadura distinguida como Denominação de Origem Ribera del Guadiana desde 1999, que admite vinhos tintos, brancos, rosés e DO Cava (vinho espumante em Espanha). De ressalvar que no caso do DO Cava, na Extremadura, este só pode ser produzido em Badajoz, mais concretamente, em Almendralejo.

A Ribera del Guadiana engloba uma enorme extensão de terra de grande tradição vitivinícola que remonta à época dos Romanos, dividida em seis subzonas: Cañamero e Montanchez, na província de Cáceres e Tierra de Barros, Matanegra, Ribera Alta e Ribera Baja, na província de Badajoz.

Além da história e da gastronomia a estada na região proporcionou conhecer duas vinícolas próximas de Mérida, localizadas na sub-zona de Tierra de Barros – Palacio Quemado e Viña Santa Marina – e o Museu das Ciências do Vinho, em Almendralejo.

Palacio Quemado

O Palacio Quemado, propriedade da família Alvear, que possui extensas vinhas situadas próximo de Córdoba, na Andaluzia, é a nossa primeira paragem. Com uma área de cerca de 4000 hectares, 100 dos quais plantados com diversas variedades, entre as quais Tempranillo, Cabernet Sauvignon, Garnacha, Syrah, Merlot e algumas castas portuguesas comuns no vizinho Alentejo, como a Touriga Nacional e a Trincadeira. Aqui o clima é bastante quente, continental, com algumas influências dos ventos oceânicos e muitas horas de sol por dia. Na agricultura foi eliminado o uso de herbicidas, sendo as videiras tratadas com enxofre, pequenas doses de cobre e plantas naturais.

Aqui, tivemos oportunidade de provar seis tintos:
O monocasta Palácio Quemado crianza 2013, Ribera del Guadiana 100% Tempranillo (a variedade de uva mais representativa de Espanha). Oriundo de vinhas mais velhas plantadas em solos calcários, este vinho estagiou nove meses em barricas novas de carvalho americano e outro tanto em barricas de carvalho francês;
O Palácio Quemado Reserva 2011, com 70% Tempranillo e 30% Cabernet Sauvignon, feito a partir de uvas das melhores parcelas de Tempranillo e Cabernet Sauvignon – tem 36 meses de estágio complementados entre barricas novas e barricas de segundo ano, de carvalho americano e francês.
Dois vinhos com aromas familiares alentejanos, o La Zarcita 2014, Denominación Origen Ribera del Guadiana, e o Los Acilates, Vino de la Tierra de Extremadura, blends que juntam, entre outras, as castas portuguesas. O La Zarcita 2014 é oriundo da parcela Zarzita, de solos calcários trabalhados de forma orgânica, sem recurso a herbicidas, tendo estagiado oito meses em barricas de carvalho francês de 500 litros novas e de segundo ano. O Los Acilates, proveniente da parcela Acilates, com encostas voltadas a norte e terrenos calcários com uma camada argilosa em profundidade, estagiou por 12 meses em pequenas barricas de carvalho francês e, pelo menos, um ano em garrafa.
Provámos, ainda, as versões de teste do La Zarcita e do Los Acilates da colheita de 2015.

No final harmonizamos estes seis vinhos com um típico cozido da Extremadura, prato em relação ao qual todos estiveram à altura, tendo sobressaído, porém, a grande frescura do Palácio Quemado Crianza 2013 e do Palácio Quemado Reserva 2011.

Se quer conhecer a adega é possível marcar uma visita guiada e fazer uma degustação com vinhos, apesar do acesso não ser muito fácil, pois é feito através de uma estrada de campo bastante longa e sinuosa, mas vale a pena a visita.

Verão (de 1 de maio a 30 setembro): De segunda a sexta, das 10:00 às 15:00; sábado, domingos e feriados sempre com marcação prévia.
Inverno (de 1 de outubro a 30 de abril): De segunda a sexta, 10:00 às 18:00; sábado, domingos e feriados sempre com marcação prévia.

www.alvear.es

Bodegas Viña Santa Marina

A Viña Santa Marina, a nove quilómetros de Mérida, está implantada em plena Sierra de Lamoneda e os seus antepassados fundadores são, também eles, da família Alvear. A adega assemelha-se a um típico “cortijo extremeño” com o conjunto edificado bem integrado na paisagem. Em redor estão plantados cerca de 60 hectares de vinha divididos por parcelas segundo o tipo de solo, onde predomina o calcário com alguma estrutura arenoargilosa.

Aqui, as principais variedades são o Petit Verdot, o Cabernet Sauvignon, o Cabernet Franc, Syrah, além do Merlot e do Viognier — em pequena escala –, para marcar diferenças. Quanto ao clima, este é tipicamente mediterrânico, com invernos frios e verões longos e quentes.

Dos vinhos provados destacamos o Gladiator Reserva 2012, feito a partir de Syrah, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot, com estágio de 12 meses em barricas de carvalho francês e americano. Um tinto com grande caráter e expressão, e premiado com 91 pontos por Robert Parker, da The Wine Advocate.
Os outros dois foram o Miraculus Tinto Gran Reserva cuja composição leva Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Cabernet Franc e Petit Verdot, com estágio de 16 meses em barricas de carvalho francês e outros 16 em garrafa. Este vinho também foi galardoado com 91 pontos por Robert Parker; e e o Torremayor Reserva, um 100% tempranillo com estágio de 14 a 16 meses em barricas de carvalho francês complementado com mais de um ano em garrafa.

Às visitas guiadas é possível adicionar a degustação de vinhos havendo, para grupos, a opção de visita guiada com prova e almoço ou jantar.

www.vsantamarina.com

Almendralejo – Museo de las Ciencias del Vino

Almendralejo é o centro da Tierra de Barros e sede do conselho regulador da Denominação de Origem Ribera del Guadiana. Além da produção de vinhos DO Tierra de Barros, Almendralejo é a única cidade da Extremadura onde se pode elaborar Cava existindo, atualmente, quatro produtores inscritos na D.O. Cava. São eles Bodegas Vía de la Plata, Bodegas Inviosa – Lar de Barros, Bodegas Romale e Bodegas Marcelino Díaz.

O Museo de las Ciencias del Vino, em Almendralejo, é um ponto obrigatório na Ruta del Vino da Ribera del Guadiana. Trata-se de um espaço construído numa antiga fábrica de álcool onde o visitante pode conhecer a história do vinho, desde a arqueología ao campo, da adega às ciências, viajando num mundo de sensações, aromas, cores e sabores, para descobrir a cultura do legado de Baco, assim como participar em atividades lúdicas e educativas. A entrada é gratuita.

+ Museo de las Ciencias del Vino

A cidade “romana” de Mérida

Não podíamos deixar para trás Mérida, a cidade “romana” distinguida como Património da Humanidade pela UNESCO, em 1986, sem conhecer o testemunho do seu passado marcado pela presença dos romanos e visitar o Teatro, o Anfiteatro e o Museu Nacional de Arte Romana.

O Anfiteatro foi o centro de lazer, diversão e entretenimento rebelde em Augusta Emerita, a vila romana da grande Hispania, hoje cidade de Mérida. Os espetadores, que poderiam chegar aos dez mil assistiam, aqui, a colossais lutas de feras, combates entre gladiadores, recriações bélicas e execuções de escravos.

Seguindo o itinerário da visita, chegamos ao monumental teatro romano onde se destacam as colunas de mármore, os lintéis e as esculturas. Este teatro continua em funcionamento e, durante os meses de julho e agosto, acolhe o Festival Internacional de Teatro Clássico.

Ao lado das ruínas está o Museu Nacional de Arte Romana, edifício projetado pelo arquiteto Rafael Moneo onde poderá conhecer todos os aspetos da vida social dos habitantes de então e dos artefactos de uma cidade do Império Romano.

VII edição da gala da Asociación Española de Periodistas y Escritores del Vino

O périplo pela Extremadura terminou com a entrega de prémios da VII edição da gala da Asociación Española de Periodistas y Escritores del Vino e um almoço convívio com diversos produtores a marcarem presença.

Distinguido com o Prémio FIJEV, o Pago del Vicario Petit Verdot 2014, Pago del Vicario Denominação de Origem da Zona Vino de la Tierra Castilla, foi o vinho que arrecadou mais votos de entre todos os vencedores.

Esta foi a primeira e muito rápida visita à Extremadura, mas regressamos com a certeza de que é uma região a descobrir. Se ainda tem dúvidas lembre-se que este ano Mérida é a Capital Iberoamericana da Cultura Gastronómica, um bom pretexto para voltar. •

Extremadura Turismo

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