Fundação & Cappella Cupertino de Miranda

Porque o que hoje vemos e ouvimos tem um passado. Porque o que foi criado lá atrás tem, ainda, o seu merecido espaço e é fundamental para o hoje e amanhã, viajámos até Vila Nova de Famalicão para vos dar uma breve abordagem a uma Fundação ímpar e nos perdermos em conversa com o seu Diretor Artístico da Cappella. Falamos da Fundação Cupertino de Miranda e Cappella Musical Cupertino de Miranda.

Arthur Cupertino de Miranda, fundador do Banco Português do Atlântico – BPA, em 1942, e uma das figuras mais importantes da história da Banca Portuguesa, cria com sua mulher – Elzira Celeste Maya de Sá Cupertino de Miranda – nos anos 1960/70 a Fundação Cupertino de Miranda (FCM). Um sonho, uma vontade de dar a Vila Nova de Famalicão novos horizontes, novos estares no mapa nacional. Nas palavras do seu fundador, “Templo de Arte, de Cultura e de Bondade, seja, na minha terra Natal: Louvor ao Trabalho, Honra ao Saber, Hino ao Amor, Testemunho do devotamento a este Povo. Arthur Cupertino de Miranda, 1970.


© Henrique Toscano

Senhora de um edifício traçado a régua e esquadro pelo Arq.º João Abreu Castelo Branco (acompanhado e completado pelo Arq.º Luís Praça), a Fundação vive e é um dos edifícios mais emblemáticos da cidade, caracterizado pelo seu revestimento azulejar, da autoria de Charters de Almeida, e pela estrutura helicoidal da torre de 34m de altura. Num mesmo espaço convivem: um Museu de Arte Moderna e Contemporânea, detentor de um acervo ímpar do Surrealismo Português; um Auditório; uma Biblioteca onde pode mergulhar na obra de Camilo Castelo Branco de forma única, onde se pode perder em obras inéditas, entre tantas outras surpresas; e outros espaços mais, essenciais à vivência de uma Fundação. Não nos alongando mais em arquiteturas, artes e afins que dariam todo um novo artigo, passemos à conversa com Marlene Oliveira, que nos dá uma introdução à FCM, e com Luís Toscano, Director Artístico da Cappella Musical Cupertino de Miranda (CMCM) que nos fala do grupo e do Festival que deu mote a este encontro.

Arthur Cupertino de Miranda. Uma das figuras mais importantes da história da Banca portuguesa. Como resumiria hoje a Fundação o homem que a criou?
Marlene Oliveira (MO): Um visionário. Acima de tudo um visionário muito à frente do seu tempo. Criou a Fundação Cupertino de Miranda a pensar numa instituição que representasse a sua família – daí não carregar o seu nome, Arthur – e com o intuito de divulgar a cultura, a arte, a educação, permitindo ao povo famalicense o acesso gratuito a todas estas valências. Com a Fundação quis, também, dar visibilidade a Famalicão criando um edifício emblemático que se destacava positivamente, embora fosse polémico por ocupar o espaço da feira e na altura – anos 1960/70 – retirar o espaço que era ponto de encontro semanal das gentes da cidade foi complicado de aceitar. Voltando ao positivo, é um edifício moderno, contrastante com a envolvente mais tradicional, apelativo às artes e aos valores defendidos pela Fundação, como se vê retratado nos painéis azulejares de Charters Almeida.


© Henrique Toscano

A Fundação visa o fomento da cultura, educação e um papel social activo. Nos dias de hoje, como vemos a FCM atuar nestes campos?
MO: Na cultura, o Museu tem um papel fundamental e acaba por ser igualmente educativo – permite que as escolas venham e tenham acesso gratuito ao mesmo. No caso dos grupos escolares, depois de visitarem o Museu têm uma actividade relacionada com o mesmo, o que permite ensinar algo mais sobre o que viram. Isto para escolas dentro e fora da cidade e para alunos infantil, juvenil e sénior.
Na educação e cultura, poderíamos referir Camilo Castelo Branco e o acervo Surrealista, e.g.?
MO: Sim. O Centro de Estudos Camilianos começou na FCM. Temos cá primeiras edições, edições que o próprio Centro de Estudos, na sua Sede, ao lado da casa do autor não tem. Acabamos por ser um núcleo complementar da Sede.
No Surrealismo, temos os dois principais acervos de dois incontornáveis surrealistas – Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas. Temos toda, ou quase toda, a biblioteca pessoal de Cesariny e de Cruzeiro Seixas. Temos o arquivo pessoal dos artistas, o que nos diferencia de outros acervos, incluindo correspondência, fotografias, recortes, anotações, documentos pessoais, entre outros. No caso de Cesariny, falecido em 2006, parte do seu acervo veio em vida e outra após a sua morte, bens que ele legou à FCM. De Cruzeiro Seixas temos grande parte da biblioteca pessoal. Outra parte acompanha-o, mas já está prometido que mais virá para a Fundação.
Por fim, no social, estamos associados ao Projecto Homem, em Braga, que trabalha com a dependência (alcoolismo e toxicodependência). Apoiámos a sua construção e ajudamos financeiramente a causa. Premiamos, também, os melhores alunos da Universidade Católica, um prémio monetário que ajuda finalistas a continuarem a sua formação académica. Além da Católica premiamos o melhor aluno na ESEIG – Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão, no curso de Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação.


© Henrique Toscano

Num edifício indubitavelmente Moderno, com um Museu dedicado à Arte Moderna e Contemporânea com especial enfoque para o Surrealismo, como entra o projeto que aqui nos traz, da CMCM e sua música dos séculos XVI e XVII? E, mesmo antes, como entra a música na FCM?
MO: Estamos ligados à música há muito tempo. Tudo começou com a Orquestra do Norte tendo a FCM integrado o grupo de fundadores da mesma. Realizámos protocolos com a Associação Norte Cultural e até 2004 houve a realização de vários concertos com a Orquestra do Norte em diversas localidades. Também o Jazz teve o seu espaço com a realização de Ciclos de Jazz. O último marcado seria com o Sassetti. Temos, igualmente, uma ligação muito próxima com a ARTAVE – Escola Profissional Artística – que colabora connosco nos ciclos de música e poesia onde recebemos diversas personalidades do panorama cultural, vindo eles ler poemas eleitos por eles mesmos.
Luís Toscano (LT): Agarrando nesse cruzamento de estilos, que referes, na música isso não é tão estranho. Vários dos principais músicos, de música antiga, são, também, dos principais músicos contemporâneos de estreias. Por aí, essa ligação é natural. Depois, a dado momento, historicamente, quando o movimento da música antiga começou a surgir ainda no século XIX, e com grande força no inicio do século XX, era visto como um movimento à frente do seu tempo, pois iam buscar música lá atrás porque estavam – e agora sendo muito simplista – um bocadinho fartos do que se fazia. É claro que se fazia música de tempos anteriores. Todavia, não havia a noção definida de ir fazer o que eles faziam e tentar fazer da maneira que faziam, tentando não aproveitar, mas recuperar o métodos, nesse sentido era algo totalmente avant-garde; era um trabalho muito experimental. Modernos no seu tempo.

Se procurarmos onde é que a música portuguesa é conhecida e forte no campo erudito, não haverá dúvidas: é por Duarte Lobo e Manuel Cardoso. São os nomes que imediatamente vêm à cabeça de qualquer músico, no mundo, em coros. São os séculos XVI e XVII.

Como, quando e por que nasce a Cappella Musical Cupertino de Miranda?
LT: Em 2004 terminou a relação da FCM com a Orquestra do Norte e houve uma pausa de cinco anos para se pensar no que se poderia fazer de mais concreto, na música, na FCM. Assim, em 2009, nasce a CMCM.
MO: E esse nascer da CMCM está diretamente relacionado com a mudança da Administração e Gestão da FCM, uma nova visão e abordagem à Fundação e seus caminhos a seguir.
LT: Consequentemente, uma nova linha de intervenção musical.
MO: Sim, e há que referir a sensibilidade do Dr. Pedro Álvares Ribeiro – Presidente da FCM – para esta temática. Foi um dos motores para o criar de um grupo específico. E tudo se baseia no criar de algo que daria visibilidade à Fundação. Em vez de apoiar outros grupos passávamos a ter o nosso próprio grupo, que carregaria o nosso nome. É a melhor forma de chegar fora de portas. E agora uma confissão, na CMCM os músicos são carinhosamente chamados de Cupertinos.


© Henrique Toscano

Então como chega o Cupertino Luís Toscano à CMCM e a seu Director Artístico? Não resisti à designação.
LT: (Risos) Quando fui convidado a integrar como cantor a CMCM, se não me falha a memória em setembro de 2009, o Director era José Carlos Veloso – hoje, professor na ARTAVE de coro e piano – e, na altura, o grupo funcionava noutros moldes: não era um grupo totalmente fixo no número de elementos, nem era exclusivamente direcionado para Polifonia Portuguesa dos séculos XVI e XVII. Era para música coral portuguesa, tanto que nos primeiros concertos o reportório ia desde Pedro de Cristo, Duarte Lobo… até Manuel Faria. Era Música Coral Portuguesa à cappella. Tanto a nível de formação, como de especialização de ensemble vocal, havia uma disparidade muito grande entre elementos e chegou-se ao momento em que não funcionava da maneira que os responsáveis da Fundação estavam à espera. Aí, partiu-se para outro modelo.
É aqui que entra o teu papel como Director Artístico, na mudança de modelo?
LT: Sim, aí fui convidado para assumir a Direção e tudo nasce de uma conversa com o Presidente da FCM. Primeiro, pareceu melhor à Administração, em termos estratégicos de grupo, apontar para uma especialização não só no País, mas também para uma época do reportório. Se procurarmos onde é que a música portuguesa é conhecida e forte no campo erudito, não haverá dúvidas: é por Duarte Lobo e Manuel Cardoso. São os nomes que imediatamente vêm à cabeça de qualquer músico, no mundo, em coros. São os séculos XVI e XVII.
Segundo, eu estava no grupo como cantor e tinha terminado o mestrado em Música Portuguesa Ibérica dos Séculos XVI e XVII. Foi-me feito o convite, ao que respondi que queria cantar e, no instante, saiu a contra-proposta de cantar e orientar o grupo. Depois foi-se definindo o modelo conforme os recursos, logística e, muito importante, a adequação do número de músicos não só ao orçamento, mas ao reportório – oito, número mínimo para fazer música Policoral. Na época dos séculos XVI e XVII era música a dois coros alternados, em diálogo constante, que requer normalmente 4+4 daí o oito ser o perfeito. Mais, a maioria do reportório é para quatro vozes, quatro partes, portanto temos dois em cada parte o que dá, também, para ter um concerto de aproximadamente uma hora mantendo a garra do princípio ao fim.


© Henrique Toscano

Falas de música dos séculos XVI e XVII sem atribuir as comuns designações de Renascimento e/ou Barroco. Alguma razão por detrás?
LT: Há um facilitismo e uma necessidade da sociedade ocidental em engavetar conceitos. A menos que haja ditaduras que digam que a partir de agora não se faz mais nada disto e só se fará daquilo, haverá sempre cruzamentos de estilos e, sem dúvida, esta altura é muito fértil nisso porque tudo acontecia ao mesmo tempo a nível social, artístico, religioso e politico. Digo assim para não engavetar. O nomes são chavões que utilizamos para remeter as pessoas para um determinado estilo, conceito, período, mas a partir daí tem de ser desmontado. São generalizações com tudo o que isso implica. Aqui, na música, não podemos entrar em conceitos estanques.
Mas, contudo, no Festival que aqui nos traz a Famalicão, há o Seminário “O Barroco e a Polifonia Portuguesa”. A arquitectura pede o nome.
LT: Nos seminários, quando falamos em Barroco é, precisamente, relativo aos edifícios que nos acolhem, à escultura, à arte envolvente.
E porquê estes palcos tão especiais para apresentar a música que trazem na voz?
LT: Porque eram os espaços construídos na altura em que esta musica era feita, espaços completamente adequados e a música completamente adequada a esses espaços. É isso que tentamos cruzar nestes Seminários e é por isso que em quase cem por cento dos casos só fazemos concertos nestes espaços, em Igrejas.


© Henrique Toscano

Imaginemos uma prova cega musical. Como seríamos nós capazes de dizer, só por ouvir um pouco e sem grande conhecimento: Isto que se ouve é Polifonia Portuguesa de Seiscentos? Qual é o elemento(s) que identifica esta sonoridade?
LT: Diz-me tu.
O “maestro” és tu. Não ousarei profanar a nossa Polifonia.
LT: Há um ponto fundamental dentro da música vocal: a primazia deve ser do texto. Na música destes períodos, nos bons compositores, tudo é feito sempre em função do texto, que tem de ser muito claro; toda a prosódia, caracterização de ambientes, ou seja, os métodos de composição à disposição tinham o sentido de fazer ressaltar a palavra. Depois, há um ponto que, talvez por oposição aos outros géneros de música vocal seja mais distintivo deste período, que são todas as vozes – sopranos, contraltos, tenores, baixos – responsáveis por transmitir o texto, por manter tanto a parte melódica como harmónica das obras.
Não há actores principais…
LT: Não. Não há actores principais, aqui. De referir que, nesta música, havia também participação de instrumentos. Um facto que durante anos foi uma questão musicológica, mas agora, inequivocamente, sabe-se que havia a participação e muitas vezes ad hoc de instrumentos. Dúvida que existiu porque não se encontrava referência explícita nas partituras da participação instrumental. Quem tocava era quem estava disponível ou surgia para colmatar cantores em falta. Em suma, todo o texto todo tinha de ser cantado. Esta era uma música funcional, uma música para uma celebração litúrgica, uma missa ou um ofício de vésperas.
São estes os dois pilares desta música, a primazia do texto literário, porque era música funcional, e por outro lado a igualdade das diferentes vozes. Isto costuma ser, também, ilustrado por contraste com a música do período seguinte, que assenta muito num baixo, aqui já há vislumbres disso, mas… isso é toda uma outra conversa. São pilares que não são exclusivos da música deste período em Portugal ou na Península Ibérica. Por toda a Europa estes eram os dois conceitos base. E, claro, que também esperamos que um público que não faz ideia do que vai encontrar se aperceba da riqueza musical e a consiga fruir, sem estar a decifrar estas características.

Ainda na primazia da palavra, a CMCM partilha sempre com o público o texto que está a cantar permitindo um seguir mais atento da palavra, a quem queira. Uma premissa?
LT: Sim, é uma das razões pelas quais, desde o primeiro concerto, disponibilizamos sempre os textos que estamos a cantar e as traduções para português, para o público poder seguir mais atentamente. Durante o Festival há, também, a tradução para inglês.


© Fundação Cupertino de Miranda, CMCM

Falas muito de liturgia. Nos séculos XVI e XVII estamos perante e sobretudo uma composição litúrgica ou também há espaço sentido para o profano?
LT: A música profana tem o seu espaço, sim, mas na CMCM fazemos e dedicamo-nos à vertente litúrgica/ sacra.

Há, neste período, uma riqueza maior que o destaque? Algo que nos faça sentir o que nos é cantado à flor da pele.
LT: Colocando-me na pele de ouvinte, é a sensação física. Esta música tem muitas camadas. Na superficial, uma pessoa vai a um concerto, nunca ouviu este tipo de música, e há a camada superficial do ser bonito. Porquê? Porque quem não souber os textos, não souber quando é que a musica foi feita, quem nada souber, entra – ou pode até nem entrar – na igreja e tem logo essa carga do espaço que nós usamos em nosso favor e em favor da música, contribuindo muito para a experiência do concerto. É bonito porque em termos acústicos há muitos fenómenos físicos que explicam exactamente aquilo a que somos sensíveis – a alternância entre consonâncias e dissonâncias, momentos de tensão e relaxe, vozes que não sabemos para onde vão e depois tudo encaixa, a harmonia, o ritmo, as notas finais, os próprios sons das vogais e consoantes que são cantados. Tudo isto pode, só como experiência primária, alterar fisicamente a nossa disposição física e emocional. Em contraponto, há o extremo de quem tudo sabe desta música; quem conhece a fundo os processos de composição. Aí, esta música dá um gozo imenso de ouvir mesmo a nível intelectual.

Na 6.ª edição do Festival Internacional de Polifonia Portuguesa, o enfoque está em Manuel Cardoso, assinalando os 450 anos do seu nascimento. Qual é o seu papel na música portuguesa?
LT: É o musico, deste período, com mais livros editados – cinco livros e na altura editar livros não era como agora. Quase sempre quando estes livros eram editados pressupunha-se já um reconhecimento indubitável e a consagração do músico, na altura; era alguém que dominava os processos de composição e que tinha, simultaneamente, alguma inovação, que sabia levar, por vezes, as regras da composição ao limite. Depois, era preciso ter mecenas e Cardoso teve-os. Era amigo de D. João, Duque de Bragança, que viria a ser D. João IV, detentor de uma das maiores bibliotecas musicais da Europa na altura. D. João IV tinha diplomatas e agentes um pouco por toda a Europa que lhe traziam as novidades do que se fazia nos principais centros culturais e ele próprio músico, melómano… Juntou-se o útil ao agradável, numa boa confluência.


© Fundação Cupertino de Miranda, CMCM

Há algum nome maior neste período específico, na música? Português ou não…
LT: Havia um que não era português, nem vivia em Portugal, nem trabalhou em Portugal: Giovanni Pierluigi da Palestrina. Era influência para toda a Europa, serviu de influência para Cardoso, para Duarte Lobo. Há, inclusive, várias missas, tanto de Cardoso como de Duarte Lobo – que serão os dois principais músicos, se tivermos de nomear dois compositores portugueses dessa altura – com base em composições de Palestrina. A título de curiosidade e muito levemente: No Concílio de Trento queriam purificar a música litúrgica, voltar quase ao Cantochão – que agora designamos por Gregoriano – porque a palavra estava a tornar-se imperceptível. Iam à musica pela música e não pela mensagem, e Palestrina – diz a lenda – compôs a Missa Papae Marcelli, em 1563, dando-a como um exemplo de como podiam usar o estilo de composição da sua época e ao mesmo tempo a palavra ser perceptível. As decisões foram favoráveis e pode-se continuar.
Palestrina e o seu trabalho serviram posteriormente de modelo a várias gerações, ao ponto de fazerem aquilo a que nós hoje chamaríamos de plagio, mas que na altura era uma homenagem – usavam secções inteiras ou melodias inteiras de outros compositores como preito.

Sempre em Igrejas, os concertos do Festival e não só?
LT: Em alguns espaços, como em Landim – nesta edição é só aqui que mudamos -, fazemos na Sala do Capítulo, mas não saímos do espaço concreto de igreja, mantemo-nos na sua envolvência porque tudo faz parte da experiência. Onde funciona acusticamente melhor é no Coro Alto – onde o coro cantaria na altura – foi para lá que a musica foi feita, todavia não é tão prático. A mudança para a Sala do Capítulo deve-se ao facto de notarmos que há espaços onde é muito diferente cantar no altar. Mas sim, sempre no ambiente de igreja, é uma música que foi feita para viver naquela arquitetura, naquele contexto.

No Festival Internacional da Polifonia Portuguesa têm sempre programada uma visita guiada à igreja, antes do concerto. Este Festival é também ele uma breve aula de história da arquitetura ou um ensinamento de como viver a música na arquitectura?
LT: Não separo a música da arquitetura, principalmente no Festival, em que temos essa visita guiada em todos os espaços. Não ponho isso como algo à parte ou um corolário. É uma oportunidade ímpar de ter uma experiencia de conjunto, de não só ir ver um concerto, não só visitar um espaço, mas de estar naquele espaço, ter uma visita guiada e conseguir ter uma experiência completa a nível musical e de vivência do espaço. Há a antecipação do concerto durante a visita e os ecos da visita durante o concerto. De acrescentar, ainda, que os livros – programas – têm sempre uma brevíssima nota histórica sobre as obras que vão ser cantadas no concerto.


© Fundação Cupertino de Miranda, CMCM

Que mais acrescentarias de especial à CMCM?
LT: O facto de sermos um grupo especializado neste reportório na parte de da interpretação e de muitas vezes cantarmos também a partir de originais, o que implica uma transcrição; (imaginemos a ler os Lusíadas no original; não é para todos). Também já apresentámos obras, em concerto, que foram transcritas por todos nós, sendo o resultado obras inéditas transcritas por todo o grupo em conjunto. Entramos por esse lado mais intelectual não ficando só no cantar. Mais recentemente comecei a dar aos nossos músicos algumas luzes sobre os processos de composição daquela época.
Nem me atrevo a perguntar sobre os métodos agora. Num outro dia, para uma outra conversa que, pelo que sei, é tema que nos prende.

Para quando um álbum da Cappella Musical Cupertino de Miranda? Já vai sendo tempo de termos esse luxo, de vos ouvirmos além dos concertos.
LT: A demora é uma questão muito simples: não temos pressa. Começámos em 2009 e tem sido tudo muito amadurecido, para perceber o que se queria do grupo, ver quais eram as possibilidades, evoluir de uma forma consistente. Não queríamos gravar só por gravar, só porque tem de ser. Até à data, o grupo ainda não estava no ponto para ter uma gravação que correspondesse ao nosso objectivo de figurar entre as edições de referência para este reportório, a nível internacional. Não queremos ser apenas consumo interno, não faz parte dos nossos objectivos enquanto grupo e Fundação. Fomos ouvindo opiniões de várias pessoas com experiência segura nesta área e mercado e… agora sim, está chegada a altura e vamos gravar em Setembro para editar no ano que vem. Muito provavelmente será só com obras de Manuel Cardoso. Temos uma base sólida e está criada a cultura de grupo. Será o primeiro de muitos, esperamos.


© Fundação Cupertino de Miranda, CMCM

A si, se já conhece este mundo da Polifonia Portuguesa o Festival já deve estar em destaque na sua agenda musical. Se ainda não mergulhou neste período da música portuguesa, dos séculos XVI e XVII abra horizontes e arrisque descobrir. Garantimos que não se vai arrepender. É música num nível superlativo, interpretada por músicos de excelência e referência. Quanto à Fundação, V. N. de Famalicão já está certamente, neste momento, na sua bucket list porque se admira Cesariny e Cruzeiro Seixas, se Camilo está na sua estante, este é um espaço a visitar.

Relembre o programa do VI Festival Internacional de Polifonia Portuguesa aqui. •

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© Fotografia de destaque: Henrique Toscano.

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