Registo Civil: The Twist Connection

Em pleno outono, eis que Coimbra – cidade berço de tantas e ilustres bandas nacionais (desnecessário será enumerar) – nos volta a brindar com um novo projeto sonoro que urge conhecer, ouvir e (re)ouvir bem alto – não vai conseguir ter o volume no mínimo -, sentir e viajar com o álbum de estreia e concertos ao vivo. Para quem gosta de música, eis os The Twist Connection.

Com “Stranded Downtown” na mão, editado a 28 de outubro, num aprimorado alinhamento de dez canções esgalhadas a preceito, o corpo vence a razão e acompanha inevitavelmente cada nota tocada com o álbum que segue em loop para aquecer o que o outono arrefece, sem pedir permissão. Aviso, é música que vicia o mais cauto dos ouvintes. Na guitarra com Samuel Silva (The Jack Shits, Los Saguaros, Sonic Reverends), no baixo com Sérgio Cardoso (Tédio Boys, É Mas Foice, WrayGunn) e na bateria, melhor dizendo, na proa a comandar este navio, Carlos Mendes – “Kaló” para os mais atentos – (Tédio Boys, WrayGunn, Bunnyranch, The Parkinsons), o trio faz a emoção suplantar a razão, deixa-nos encalacrados para montar dois dedos de conversa e dá-nos, também, uma ligeira tremedeira – para quem acompanha a música nacional, de perto, sabe que Sérgio e Kaló são nomes de proa. Posta a emoção em espera, decidimos proceder ao Registo Civil deste trio e eis o resultado após nobre conversa com comandante Kaló.

Porquê dar à luz nova banda e a quem atribuir a parentalidade deste novo projeto de Coimbra?
O parto dá-se pelo facto do Samuel ter ficado sem banda (tocava com os The Jack Shits) e pela contribuição do Diogo Augusto (que entretanto se ausentou para dar aulas). Assim, com o Samuel sem banda, eu a colaborar com os lisboetas The Dirty Coal Train, mas a querer começar algo de raiz… tudo se alinhou para dar nisto. Quem melhor que o Samuel, que está em Coimbra, para desafiar com um convite? E tudo nasceu assim, começámos a tocar, houve a possibilidade de começar também a gravar, mais a vontade de tocar ao vivo – que é muita da nossa parte -, tudo se ajeitou para que as coisas nascessem exactamente assim. Quanto à parentalidade, devemos atribuir a mim e ao Samuel Góis Silva, mais tarde ao Nakata que já não está no projeto. Depois, temos alguns padrinhos…
Calma com as bênçãos que não são para já. Ainda estamos no Registo Civil.
Claro, claro!

The Twist Connection. Justificai-me o nome para eu entender como conseguiram registar a criança.
Tenho medo, mas vou contar-te a verdade e só porque és da Académica (risos). Primeiro, pelo que representa a palavra. Vem de uma faixa que representa um movimento, uma década, uma corrente de dança associada a determinado tipo sonoro – estamos em 1959 com Hank Ballard (donos do nome da famosa faixa) – e pelo que se foi fazendo através do Twist enquanto dança e música. Depois, porque eu já tinha este nome na cabeça, desde 2001 antes de começar com os Bunnyranch, e da última vez que fui aos EUA – isto é a pior parte – numa digressão com dez datas e quatro dias para gravar…
(Silêncio prolongado…)
Sara, é a primeira vez que vou contar isto a um órgão de comunicação social. Nunca fiz isto, das tournées, profissionalmente e tinha tours muito extensas de dois ou três meses. Na 3.ª tournée fui detido porque o Governo Americano queria saber a razão de estar a ir aos EUA de seis em seis meses e não declarar nada. Felizmente, nada aconteceu e lá me libertaram. Voltei passado meio ano pelo mesmo aeroporto, o de New Jersey. Ninguém me perguntou nada, mas eu ía um pouco atrapalhado; estávamos já numa época com a existência do Myspace (na altura era o que se usava), tínhamos as datas da tournée todas lá e já era a minha 5.ª vez nos EUA. A dado momento, um funcionário da Alfândega em vez de me mandar para a sala de espera, para interrogatório, perguntou-me como é que se chamava a minha banda e o que é que eu estava ali a fazer. Respondi que se chamava Twist Connection. Ele fartou-se de procurar no Myspace e outras redes, e não encontrou nada. Acrescentei que ia lá só para ensaiar e gravar. E pronto, passei. Se tivesse dito Bunnyranch, o que ele faria, provavelmente, era dizer-me “o seu próximo voo para Portugal é daqui a x horas”. Por fim, temos esta conexão, tanto eu como o Samuel e agora com o Sérgio Cardoso, com o Rock’n’Roll e tudo o que o envolve e encaixava. The Twist Connection fazia e faz sentido. Pronto, tens um exclusivo. Agora, da próxima vez que for aos EUA não sei que nome é que vou dar…

Rock’nRoll, Groove, abanão de anca e lábios que inconscientemente se curvam em ‘cara de mau’.” Li isto sobre vós, algures. Reflexo de um mundo onde o género é uma e tanta coisa ou há um que seja mais definido neste filho?
Creio que é Rock’n’Roll por pudor e por respeito a tantas referências estéticas, e querendo que todas tenham espaço, em todas as décadas da música com as suas idiossincrasias, é mesmo por respeito. Estar a relacionar e a referir uma série de correntes, penso que poderia vir a ofender alguém, alguém mais sério que se relacione com alguma referência estética que enumere. O Rock’n’Roll é tão abrangente que nos permite defender desta forma, a dizer que somos influenciados pelo estilo, por elementos dos anos 1940, pelos inícios de 1950, pelo garage dos anos 1960 – nota que estou a falar por mim, certamente o Samuel acrescentaria algo – o fogo do Blues, do Rockabilly, do Punk Rock, do New Wave… Até ao novo século, ao novo milénio onde há uma série de intervenções que se dão às coisas e que não gosto muito de referenciar, mas sem dúvida que o ponto de partida do género estará elencado aí, num sistema em aberto.

Encontram-se no caminho que Elvis desenhou“, outra que me caiu no regaço sobre vós. Estamos agora a preencher o campo da Freguesia para a questão da naturalidade. Uma música de Elvis, ou de outro, para dar nome à Freguesia da criança?
Está-me a passar tanta coisa pela cabeça…
Podes criar uma União de Freguesias e dar várias músicas.
The Twist Connection from the “Poor Side of Town“… não. Estou a tentar encontrar algo que tivesse uma ligação directa. Já sei! “I live on a Battlefield”, esta consigo encaixar. É uma música do Nick Lowe e consigo imaginar “The Twist Connection, they live on a battlefield”. Pode ser, não achas?
Gosto.

Sei que há padrinhos. Tem de haver, mesmo sem as formalidades do baptismo. São quem nos ajuda a criar os filhos. Religiões e tradições à parte, quem são os vossos padrinhos?
Bom, esta é fácil responder: o Jorri Silva, o João Rui, o Paulo Silva, o Vítor Torpedo, o Sérgio Cardoso, os Birds are Indie que entram na música “I’m watching you” (cover do original de Jay Reatard), o Pedro Calhau que toca saxofone apesar da faixa não ter saído. Creio que são estes e espero não me estar a esquecer de ninguém.

(…). O Rock’n’Roll é tão abrangente que nos permite defender desta forma, a dizer que somos influenciados pelo estilo, por elementos dos anos 1940, pelos inícios de 1950, pelo garage dos anos 1960 – nota que estou a falar por mim, certamente o Samuel acrescentaria algo – o fogo do Blues, do Rockabilly, do Punk Rock, do New Wave (…).

Num nascer com maturidade de adulto, qual o estado civil – união de facto, comprometido, casado – deste filho para com o público. O que escrevo? Não admito o solteiro.
Podes escrever comprometidos. Estamos sempre comprometidos com o nosso público, sempre!
Porquê?
Porque não faria sentido se não houvesse este compromisso de fazer as coisas da melhor forma possível com quem está à nossa frente e com quem nos ouve; e porque, por mim, passava o resto dos meus dias, até não poder mais, a tocar ao vivo. Adoro estar em palco. Por vezes, chego a pensar que se tornou numa patologia. É um compromisso e acho que falo por todos. O meu compromisso é de estar bem antes, durante e depois dos concertos, para com o público. Creio que somos todos pessoas comprometidas.

No preencher do cartão, falta apenas o campo em que nos esticamos para ganhar uns centímetros extra. Claramente um filho com percentil elevado, este é um projeto feito com ambição de crescer, certo?
Certo. É mesmo isso. Estás a fazer-me lembrar alguém, que não vou identificar, mas que tem muita experiência nestas andanças da música. Ele consegue perceber se as bandas são algo de curto e temporário, ou se existe ali um projecto de carreira para durar. Se ele nos vir, queremos todos que veja algo para continuar, para crescer. The Twist Connection não é uma questão conceptual sobre algo que aconteceu assim e ia ser só assim, num momento/ álbum único, não. É para andar, podem surgir eventualidades como a qualquer banda, claro, mas o objectivo é para crescer muito.

Filho registado, vamos a uns extras.

Para vetustos músicos que há muito percorrem mundos sonoros e para quem a música é parte incessante de vós, Kandinsky faz sentido? “Empresta os ouvidos à música, abre os olhos para pintura, e pára de pensar! pergunta a ti mesmo se o trabalho que tiveste te permitiu caminhar sobre um mundo até então desconhecido. Se a resposta for sim, o que mais podes querer?“ Fazer música continua a valer a pena pelas viagens que nos dá?
Só pode valer a pena. Por vezes, o processo criativo pode ser doloroso, mas vale sempre a pena por isso, por esses caminhos do levar ao desconhecido a que te referes. Depois, tens o acto de criar versus o desconhecido e o conseguires dar a conhecer; tens o que se escreve, o que se quer e o que não se consegue fazer, o que está na nossa cabeça e é desconhecido aos outros, o que não conseguimos, mesmo que seja de uma forma imaterial em notas e grande parte das vezes, tornar conhecido. Isto acontece constantemente a quem está a fazer música e não estou, com estas palavras, a querer dizer que sejamos brilhantes ou coisa parecida, apenas tento transmitir que acontece. Algo tornar-se desconhecido, o facto de eu não conseguir passar uma ideia e nunca ficarmos a saber o que realmente poderíamos querer fazer de dado momento ou ideia, ou que um de nós está a fazer daquele momento. Não é fácil dizer.
Retomando Kandinsky e a música, isso é a única coisa que nos mantém nestes caminhos sonoros – o poder ir a sítios aonde não imaginávamos, reais ou não – que podem ser, como já disse, caminhos difíceis. Mas é para o desconhecido que queremos ir, sem nunca esquecer o conhecido. Há experiências que quero e espero repetir, claro. Até me fazes divagar, no pensamento, com Schopenhauer que punha a música no topo da pirâmide, como sendo a mais sublime das artes, o que nos leva para uma dimensão superior… Bem, é melhor parar por aqui. Sim, o desconhecido é tudo isto que aqui te falei, embora não ache que sejamos uma banda de percorrer dimensões ao vivo, há sempre algo desconhecido que pode acontecer e ser interessante quando se está a fazer algo, mesmo ao vivo…
Não foi uma pergunta fácil, minha senhora! Numa suma, a música é curativa (que o diga a Paula Nozzari – musicoterapeuta e baterista nos Parkinsons e a Jigsaw).

Estamos sempre comprometidos com o nosso público, sempre! (…). Porque não faria sentido se não houvesse este compromisso de fazer as coisas da melhor forma possível com quem está à nossa frente e com quem nos ouve; (…). O meu compromisso é de estar bem antes, durante e depois dos concertos, para com o público. (…).

“Stranded Downtown”. A forma como anunciam o nascimento da criança. Que há por detrás do título, filosofias, conceitos, linguística ou o mais puro dos acasos?
A tradução, que talvez não seja a mais correcta e nem sendo das minha preferidas, é: “Encalhado na Baixa”. Isto passa por se estar a fazer uma coisa, estares a gravar um disco, a criar uma música, a fazer algo que envolve sempre pessoas, que envolve agitação – e falo pela minha experiência – que envolve uma série de situações de energias, de libertação, de ir ao encontro do desconhecido, de viver de estar vivo. Apesar de viver na cidade que mais gosto na vida, que é Coimbra, sou daqui para o melhor e para o pior, muitas vezes há períodos na nossa vida em que nos sentimos encalhados nesse tal local, nesse tal espaço onde se deviam estar a passar coisas e não se está a passar rigorosamente nada.
Nota que isto não se trata de uma situação de aceitar, mas sim do ok, já estou farto e vamos para a frente, vamos sair desta situação; é do vamos desencalhar! Porém, para já, ainda estou a começar a soltar as amarras, a sair do cais.

E agora para divagar mesmo e terminar. Meter uma criança neste mundo. Agarrando na vossa música “Turn off the radio”, vós que têm todos um peculiar percurso na música, hoje que se produz música à velocidade da luz, no geral, dá-te vontade de desligar mais vezes o rádio?
Gosto muito de ouvir rádio, mas claro que sim, apetece-me desligar o mesmo, muitas vezes. Como em quase tudo, há os dois lados da moeda na produção veloz. Se calhar, se não se produzisse à velocidade da luz, nós não teríamos um disco e eu se calhar não tinha feito discos menos bons, ainda que com muita vontade e com pessoas com quem realmente gostei de trabalhar, apesar do resultado final ter sido desastroso.
Por exemplo, no ensino existe a democatrização e a massificação do mesmo, se calhar é isso, há uma massificação da produção de discos, de gravações e de os colocar nas rádios. Vou ouvindo várias rádios e há músicas que nos fazem querer desligar o rádio e que nos fazem perguntar “como é que isto está a passar na rádio?”, “será só porque é trendy?” Confesso que, às vezes, também me dá vontade de desligar o rádio para calar quem está a fazer a emissão com todo um pretensiosismo que precisa, claramente, de melhorar a retórica. Claro que também sei que há quem sinta o mesmo com a minha música, que a queira desligar quando a ouve; isto porque hoje em dia, na era digital, todos comentam e tudo se lê. Em comparação com o antes, não creio que haja mais vontade, creio é que há mais coisas a passar na rádio e que nos leva, por vezes, à dor de cotovelo… “porque é que este gajo passa e eu não?”

O álbum de estreia, “Stranded Downtown”, é obrigatório para quem tem no Rock’n’Roll um estilo eleito, quem tem na boa música nacional um estar. Os concertos são imperdíveis porque é lá que eles vivem maiores, é lá que a música lhes queima no corpo. Eis as próximas datas alinhadas:
11/11, Uncle Joe’s, Esmoriz.
12/11, Maiorais, Rio Maior.
13/11, Fnac, Coimbra.
18/11, Sé Lá Vie, Braga.
20/11, Fnac Santa Catarina, Porto.
25/11, Salão Brazil, Coimbra (Birds are Indie como convidados especiais).
26/11, Bafo de Baco, Faro.
27/11, Fnac, Guia.
01/12, Fnac, Gaia.
01/12, Fnac MarShopping, Leça.
16/12, Espaço Cultural Crú, Famalicão.
17/12, Carmo 81, Viseu.

A tomar nota, a ir, a ouvir: The Twist Connection. •

+ The Twist Connection
© Fotografia: Bruno Pires.

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