Ser Humano ou Pior que Isso (?)

Patente no Museu Municipal de Coimbra/ Galeria de Exposições Temporárias, o título da exposição de pintura de Nuno Fonseca não coloca a interrogação, mas indaga. Até ao dia 14 de Maio deixe-se, portanto, interpelar.

Abre a exposição Ser Humano ou Pior que Isso um acrílico e carvão sobre pano: “A rapariga que queria ter braços.” Detenho-me. Do lado esquerdo, em ângulo recto: “Fico aqui plantada.” Acode-me uma impressão indelével: apesar de, aqui, a figura humana ser minúscula, em face das dimensões da placa de mdf, é nela que o olhar se sintetiza. Entretanto, entro na sala ampla e fico absorta.

Numa espécie de percepção em zénite, algo se forma absolutamente: de todos os lados, são as figuras a estabelecer o punctum; dir-se-ia que cada uma delas traz consigo um arco e uma flecha… pum! Acertam em cheio. Deste modo, será de considerar seriamente o testamento de Nuno Fonseca, e que pode ler-se na folha de sala: “Sou um apaixonado pela figuração.” O que agora interessará será determo-nos no modo dessa figuração, sendo que já se anunciou ser ela a ferida das obras. A ferida é o corpo humano: estabelece-se um contraste infinito entre ele e tudo quanto o cerca. Tal contraste, tanto se relaciona com o tratamento propriamente plástico, como se imiscui nas brechas sensitivas. Assim, de um lado o desenho/esquisso, do outro a tinta/empastelamento; de um lado, uma imponderabilidade, do outro, uma factualidade imponente.

Com efeito, e na vertigem da percepção que atrás se enunciou, todos os corpos humanos, que, em cada uma das superfícies pictóricas, e em todas de uma vez só, amiúde assumem posições contorcionadas, e de relativo solipsismo – parecem rechaçar-nos, solicitam uma espécie de diálogo, se com eles mantivermos uma atenção, diria, desinteressada. O segredo será reparar neles com a devida fugacidade; e aí, nessa relação desinteressada, somos como que apanhadas pela sua irresistível trama. Ou seja, o que num relance foi certeza alucinada, depois, no trabalho atento do olhar é acaso, é incerteza, é tacteio, é possibilidade. Aparentemente, existe um contraste primordial: os corpos humanos são transparentes, e discretos, mas toda a matéria que os envolve é densa e gritante. Seguindo-o, poderíamos eventualmente chegar a uma dicotomia simbólica simples: o corpo humano, e a humanidade por inerência, é pontículo num mundo de vastidão, e voluptuosidade, assinaláveis. Dicotomia sujeito-objecto, sendo que, pela densidade do segundo, aquele se evaporaria.

O pintor parece aqui apresentar o corpo enquanto horizonte, e a humanidade como um processo aberto. É, aliás, comovente, a sinceridade desamparada com que Nuno Fonseca o/a planifica. E lembro-me: cada um/a de nós foi esperado/a na Terra (Walter Benjamin). E ainda, seguindo Emmanuel Levinas: o ser humano é por excelência criatura, chega sempre tarde ao Mundo, que já está criado antes de si. Tantas vezes se pode eventualmente esquecer a nossa, intrínseca, mortalidade. Sim, é certo que o ser humano também espessa o mundo, (re)fractando-o, mas… existe uma fragilidade inerente à (sua) condição, de ser humano, uma vulnerabilidade bela. É nelas que toca este pintor e é delas que se evade o punctum irresistível. No resto, que é propriamente a carne da pintura, instala-se o studium.

Para ver, então, no Museu Municipal de Coimbra/ Galeria de Exposições Temporárias, em Coimbra, concretamente na Rua Ferreira Borges, 85. De 3ª a 6ª Feira das 10H00 às 18H00, Sábados e Domingos das 10H00 às 13H00 e das 14H00 às 18H00. Encerra à 2ª Feira e aos Feriados. Até dia 14 de Maio!

© Fotografia: Cortesia de Nuno Fonseca

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