Quando a terra é feita de corpo e alma para o vinho / Quinta de Sant’Ana

Na região de Lisboa há um vinhedo com vista para a Tapada Nacional de Mafra, uma adega e uma capela centenárias, um projecto de turismo criado para enófilos, e não só, onde os anfitriões Ann e James mostram quão importante é saber receber.

A torre sineira da capela da propriedade de Ann e James Frost / © Fotografia: Ricardo Bernardo

Depois de percorrermos a sinuosa estrada em direcção a Gradil, chegamos à frondosa Quinta de Sant’Ana , logo pela manhã do dia do Solstício de Verão, James Frost,co-proprietário, recebe-nos com um sorriso neste lugar poético, em Mafra, muito procurado por quem sonha em casar-se num lugar romântico como este. Segundo o anfitrião, os irlandeses são, de longe, os que elegem esta propriedade para celebrar os laços do matrimónio, bem como os brasileiros e os belgas… e, ao que parece, pela sua beleza e tranquilidade, e pela decoração romântica que preenche cada recanto.

O team corporative é outra das apostas dos donos da quinta. No programa constam os workshops de pão e os de azulejos, os quais “são cozidos à noite e entregues no hotel, no dia seguinte”, bem como o jogo de blind blend. Aqui, o desafio consiste em fazer um vinho durante 30 minutos, seguindo-se a criação do rótulo e a apresentação da ‘obra-prima em estado líquido’ ao grupo e aos conhecedores de mui ancestral matéria e prática em terras portuguesas ou não falássemos nós sobre um lugar da história onde vitivinicultura é uma das actividades em destaque.

Às voltas com o tempo

Vista para a Casa do Caseiro, a mais antiga da quinta

Fundada em 1630, a Quinta de Sant’Ana, desde cedo, começou por ter vinha e testemunhar a produção de vinho, ter jardins e recantos românticos, pomar, prados e um bosque que, desde tempos idos, faz fronteira com a outrora Tapada Real de Mafra, o coutada de caça do Rei. E uma capela barroca com uma torre sineira, datada de 1633, dedicada à avó de Jesus Cristo, Sant’Ana onde, todas as terceiras Quarta-feiras de cada mês acolhe a Missa da paróquia, pelas 19 horas.

Com o passar dos séculos, em 1969, passou para as mãos do Barão Gustav von Fürstenberg que, em 1974, regressou para a Alemanha com a família. Entretanto, houve quem mantivesse esta propriedade rústica gasta pelo tempo e, em 1992, James Frost, britânico e membro do exército da Rainha, e sua mulher, Ann Frost – filha do Barão Gustav von Fürstenberg – transformaram-na em sua casa. Feitas as contas, James e Ann Frost estão, em Portugal, há 25 anos e o que mais impressiona o nosso anfitrião é “a hospitalidade das pessoas deste lugar!” Quando aqui chegou pela primeira vez, deixou-se conquistar pelo cenário bucólico. “Para mim era um sonho!”

Romântico confesso, James Frost logo se adaptou ao dia-a-dia do campo ou não fossem os seus pais agricultores, paixão que herdou ou não passasse horas a fio na pequena horta da propriedade, que nos mostra com grande orgulho e que quer aumentar. Porém, tornava-se imperativo saber falar Português, dificuldade que foi ultrapassando com as aulas nocturnas. A mesma exigência impunha-se à produção vinícola, instrução ditada pelos locais.

Para que o processo de reabilitação da quinta se tornasse um êxito, a aprendizagem teria de ser contínua pelo que, depois de 1993, ano em que Ann e James Frost casaram, dá-se o primeiro passo no turismo complementado com bed & breakfast.

No que à vinha diz respeito, houve as que foram arrancadas para, nos anos 1990’ – e já com António Maçanita, o enólogo da casa desde então – se fazerem as transplantações e enxertias, e plantar-se “vinha a sério”. Com o passar dos anos, o que antes cabia em três mil hectares, agora cabe em 10 hectares e meio, incremento visível no processo de produção adaptado aos tempos. Segundo James Frost, a qualidade e a produção biológica são, cada vez mais, a grande vantagem: “Estamos no terceiro ano de conversão das vinhas.” Portanto, para o final do ano já terão a certificação adequada e quanto a resultado, o nosso anfitrião revela grande satisfação.

A Baco o que é de Baco

O vinhedo e, mais acima, o bosque, que faz fronteira com a Tapada Nacional de Mafra

De frente para o vinhedo, onde as castas brancas se encontram em solos mais fundos e as tintas mais acima. Como exemplo, James Frost indica o lugar onde está o Sauvgnon Blanc – “em baixo, porque é mais fresco nos vales, que guardam muita humidade” – e a Touriga Nacional, que está em cima, “mesmo em cima, virada para Nascente, onde estão também a [casta branca] Alvarinho e a [tinta] Pinot Noir”.

A Quinta de Sant’Ana produz 12 referências vínicas, sendo esta o Quinta de Sant’Ana Fernão Pires 2016

Faça-se a apresentação das boas novas. O início é dado com o Quinta de Sant’Ana branco 2016, o monocasta feito a partir de Fernão Pires desde 2009, casta essa que é proveniente de dois talhões localizados em duas zonas distintas da vinha. “Vinificamos em separado e o lote é feito antes de engarrafar”. Um clássico, ao qual se seguiu o Quinta de Sant’Ana Riesling 2015, vinho que António Maçanita faz questão de engarrafar cedo. “E tudo acontece na garrafa”, onde “melhora bastante”, garante James Frost, motivo pelo qual a colheita de 2016 ja estagia na adega.

Porque o Verão está em alta, é tempo do Quinta de Sant’Ana rosé 2016 que, na composição, estão inscritas as castas Touriga Nacional, Aragonez, Merlot e Pinot Noir.

A centenária adega foi erigida de modo a manter as temperaturas frescas exigível durante o repouso do vinho

Já na antiga adega da quinta, virada a Norte e com terra do lado oposto, para ajudar a manter a temperatura fresca, os originais lagares de pedra estão em uso constante na época das vindimas. Há balseiros forrados em inox e muitas das barricas acolhem vinho em estágio e oito tonéis em desuso. “Aqui estão os melhores tintos de 2016”, diz James Frost, indicando as respectivas barricas, mote para reiniciar a prova com Quinta de Sant’Ana tinto 2016 que na composição possui as castas Touriga Nacional, Aragonez, e Merlot, e o supremo Quinta de Sant’Ana Merlot 2012, com potencial de guarda. “Foi a primeira vez que fizemos um monocasta Merlot”, ao que se seguiu outro monovarietal, o Quinta de Sant’Ana Touriga Nacional 2012 que regista, assim, a segunda colheita desta versão.

No fim, chega a vez de Quinta de Sant’Ana Reserva tinto 2013 com Touriga Nacional, Merlot e Aragonez, um trio de castas composto pelas melhores colheitas do ano, mas “nunca tentamos copiar o ano anterior, procuramos fazer sempre o melhor”, reforça o nosso anfitrião.

Antes de ir para a mesa, convém fechar a lista de boas novas, com o primeiro espumante feito a partir da casta Touriga Nacional, acerca do qual está a ser feito o degorgement, mas o estágio tem vindo a ser feito muito lentamente, mas que “ainda não há previsão de quando irá sair”, e a estreia na versão colheita tardia. Já lá iremos.

Vinho, turismo & companhia

Esmiucemos. O vinhedo da frondosa Quinta de Sant’Ana, onde há uma forte influência do Atlântico, o clima é agraciado pela frescura mesmo em dias de grande calor na capital portuguesa – bom, nem sempre – tem, na lista de castas brancas, Fernão Pires, Verdelho, Arinto, Alvarinho, Reisling e Sauvigon Blanc e, nas tintas, Touriga Nacional, Aragonez, Merlot e Pinot Noir. E há que provar as uvas cada casta depois de transformadas em estado líquido, claro!

O enoturismo é, por conseguinte, uma das apostas da Quinta de Sant’Ana. A prova inclui visita guiada à vinha e à capela, durante a qual é contada a história sobre a propriedade e servidos aperitivos, se possível, com marcação prévia, à qual é possível juntar um repasto acompanhado com os vinhos da propriedade a servir numa mesa decorada com muito bom gosto.

Na área de turismo, conta-se a recém-construída Casa do Marreco, a Casa dos Limões erigida no lugar dos estábulos dos cavalos, a Casa do Caseiro, a mais antiga da quinta, e a Casa Adega onde, em tempos idos, funcionava uma destilaria. Todas estão desenhadas bem ao estilo rústico e romântico, em consonância com a Quinta de Sant’Ana e prontas a arrendar por uma semana. Na lista das boas novas somam-se quatro quartos independentes com uma decoração contemporânea e muito aconchegantes, para quem procura a tranquilidade do campo, ideal para um piquenique, que pode ser preparado a pedido pelo chef em permanência.

De volta à mesa decorada a preceito, com Ann e James Frost, o último brinde é feito com Late Harvest Riesling 2015, engarrafado em Agosto de 2016 e dominado por uma doçura contrabalança por uma acidez, ambas q.b, com o propósito de terminar a refeição e, ao mesmo tempo, assinalar o primeiro dia de Verão de 2017 à sombra num dia soalheiro ou não fossem os bons momentos aqui motivos de celebração na companhia de Baco.

A propósito, aguardamos pelo espumante? Boa viagem! •

+ Quinta de Sant’Ana
© Fotografia: João Pedro Rato
Legenda da foto de entrada: O casal James e Ann Frost, proprietários da Quinta de Sant’Ana / © Ricardo Bernardo

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