Fernando Pessoa, pela primeira vez em ópera

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos

A Inestética companhia teatral (sobre a qual já por aqui falámos, a respeito de outros projetos) estreia no próximo dia 02 de novembro, no Palácio do Sobralinho, em Vila Franca de Xira, uma adaptação inédita para ópera de um poema tão conhecido de todos – “Tabacaria” de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa – para barítono, soprano e ensemble.

A estranheza da existência e a incompreensão do real são os temas centrais desta abordagem contemporânea a um dos mais belos poemas de sempre“, escrito no ido ano de 1928 e publicado em Julho de 1933 na revista Presença. Considerado um dos poemas mais importantes do século XX por inúmeros escritores e ensaístas literários, foi escrito na designada fase Pessimista de Álvaro de Campos e consiste num dos textos mais significativos e representativos da sua obra poética. Uma visão niilista ou uma “espécie de epopeia do fracasso absoluto”, como designou o pessoano Robert Bréchon, “Tabacaria” coloca em permanente diálogo duas dimensões opostas, que serviram de inspiração para a estruturação da obra musical e das suas texturas sonoras: “a solidão interior do protagonista, lugar de pensamento, introspecção e devaneio, e a intrusão do universo exterior, observado através de uma janela para o mundo, aqui representado pela presença da voz feminina.”

Ópera de câmara de Luís Soldado em colaboração com a Casa Fernando Pessoa, conta com a encenação de Alexandre Lyra Leite, a direcção musical de Rui Pinheiro e a interpretação de Rui Baeta (barítono), Inês Simões (soprano), Daniela Pinheiro (flauta), Catherine Stockwell (fagote), Magda Pinto (viola) e Sofia Azevedo (violoncelo). É a terceira produção da Inestética companhia teatral no domínio da ópera contemporânea, da autoria da dupla Luís Soldado / Alexandre Lyra Leite, que já apresentaram “Serei Eu Fugindo?” (2013), com libreto de Rui Zink, e “O Corvo” (2015), de Edgar de Allan Poe, editado em CD.

Por ser ser um espectáculo verdadeiramente inédito, por ser um poema de um poeta maior, abra a sua agenda de novembro e entre o dia 02 de novembro e o dia 19 de novembro, de quinta a sábado pelas 21h30 e ao domingo pelas 18h00, reserve uma data para ir até ao Palácio do Sobralinho, em Vila Franca de Xira para ver e ouvir “Tabacaria” de Álvaro de Campos, em Ópera de Câmara.
A não perder. •

Inestética
© Imagem: “Tabacaria” Presença, imagem editada.

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