A natureza desenhada em nome do vinho / Herdade dos Grous

No coração do Alentejo, guarda-se a alma da mãe de tudo o que existe no mundo que, com a ajuda do Homem, reserva espaço para a plantação de videiras de onde é colhido o fruto para o legado de Baco. O ponto de partida para a aposta de um enoturismo de mão cheia em Albernôa, no concelho de Beja.

Os animais são criados ao ar livre

Onde, outrora, o terreno árido e uma barragem dominavam a planície de 730 hectares quase sem casas, hoje há um alojamento de turismo rural composto por 24 unidades, um olival com mais de 100 hectares, prado para alimentar o gado criado ao ar livre e uma coudelaria com cavalos.

O lago é o lugar perfeito para a observação de aves, em particular da espécie que dá origem ao nomeado herdade

Ao longe, rodeado pelo casario branco inspirado na arquitectura típica alentejana, está a infinity pool para um lago para passeios de canoa e com vista para uma paisagem natural que é habitat a diferentes espécies de aves, sobretudo dos grous – o ponto de partida para o birdwatching. Há ainda muitos caminhos destinados a passeios pedestres ou de bicicleta, e vinha que pode dar lugar a roteiros feitos a pé, de trator ou a cavalo, ou a piqueniques.

A infinity pool, um verdadeiro terraço para contemplar a natureza da herdade

A mudança deve-se à família Pohl – detentora do Vila Vita Park Resort & Spa, em Porches, nas terras algarvias – que, nos anos 1990’, criou um pequeno paraíso, aproveitando os recursos naturais já existentes.

Entretanto, a propriedade tem prosperado. Feitas as contas à totalidade de terreno, aquela ultrapassa, hoje, a barreira dos mil hectares. Dentro deste resultado constam 93 hectares de vinha, dos quais 73 estão ocupados por vinhas velhas e 20 – localizados à entrada da herdade – foram plantadas em 2017. O objectivo é chegar aos cem, segundo palavras de Ricardo Silva, o nosso cicerone e enólogo residente, tarefa que divide com Mafalda Vasques, na adega desta imensa propriedade alentejana localizada a cerca de duas dezenas de quilómetros da cidade de Beja.

O ponto de partida para a enogastronomia

A estruturação do projecto ligado à vinha e à produção de vinho está, desde 2004, nas mãos de Luís Duarte, reconhecido enólogo português e administrador geral do departamento agrícola da Herdade dos Grous, que “idealizou as castas, as posições de cada uma e a plantação das vinhas”, explica o enólogo residente.

De acordo com o estipulado pelo enólogo consultor, 58 hectares de vinha são de castas tintas e 15 estão reservados para as brancas. Na primeira lista constam as portuguesas Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Miúda – “para dar um perfil mais fresco e elegante aos vinhos”, nas palavras de Ricardo Silva – e Aragonês, bem como as internacionais Syrah, Alicante Bouschet, Trincadeira e Cabernet Sauvignon. Nos brancos dominam as portuguesas Antão Vaz, Arinto, Gouveio, Alvarinho, assim com a Petit Verdot. Entre 2004 e 2005, juntaram-se outras castas oriundas d’além fronteiras a este quinteto: Semillon, Viognier e Vermentino, “que contribui com a acidez, q.b. ao Antão Vaz e ao Gouveio”, exemplifica o nosso cicerone.

Apesar da viticultura sustentável ser um objectivo para implementar no futuro, os herbicidas foram postos de parte desde há muito tempo. O propósito é, de acordo com Ricardo Silva, “sermos o mais sustentáveis possíveis, porque o tratamento só é usado em último caso”.

Do lado dos vinhos, é de salientar que todas as referências são Herdade dos Grous. Nos registos há dois brancos, um dos quais Reserva, e quatro feitos a partir de castas tintas – Herdade dos Grous tinto, Herdade dos Grous 23 Barricas, Herdade dos Grous Reserva e Herdade dos Grous Moon Harvested. Este último “é um 100 por cento Alicante Bouschet” e chama-se Moon Harvested, porque “tem uma maior influência a lua no transporte da seiva da planta” (videira) que, por sua vez, surte influencia na capacidade de envelhecimento do vinho. Há ainda o Late Harvest Grous, a colheita tardia feita a partir da casta Petit Maseng.

Na adega, construída em 2005, predominam as linhas direitas e um estilo industrial subtil destinado a acolher o material necessário e indispensável para a recepção, a fermentação, a vinificação e o estágio do vinho. Cerca de 13 anos depois, o edifício continua actual, uma vez que toda a produção vínica está consolidada, graças ao equipamento apetrechado com a tecnologia exigida nos dias de hoje.

Depois da zona dos trabalhos de fundo, há o corredor que divide o laboratório dao espaço destinado à linha de engarrafamento e rotulagem, outro dos investimentos que é visto como uma mais-valia neste universo. Segue-se a cave com 500 barricas. “Todos os anos são compradas cerca de 50 barricas novas”, adianta Ricardo Silva.

Neste momento, a marca Herdade dos Grous está à venda em 27 mercados diferentes, desde a Europa – o mais importante e encabeçado pela Alemanha, a Bélgica, a Suíça, a Polónia e, claro, Portugal – a Macau, passando pelo Brasil e por Angola, entre outros países espalhados pelo mundo. Mesmo assim, 60 por cento da produção é vendida dentro de portas; 40 por cento vai para exportação.

Terminada a visita, o passo seguinte é dado em direcção ao Wine Bar, para uma das cinco provas vínicas à disposição. De portas abertas desde 2005, tem vindo a acompanhar o crescimento da Herdade dos Grous a par com o restaurante de cozinha típica alentejana.

O vinho da casa e a carne DOP

Sem mais delongas, até porque os horários foram definidos para respeitar, sentemo-nos à mesa do Restaurante Herdade dos Grous, acolhedor e de decoração rústica, para dar início ao jantar vínico. No couvert predominam as iguarias da região: azeitonas, queijo de ovelha em azeite, pão alentejano, para além das manteigas.

A companhia báquica do jantar vínico

Enquanto se aguarda pelos pratos, dá-se início à harmonização com Herdade dos Grous Reserva branco 2016, seguido do Herdade dos Grous 23 Barricas tinto 2015, o best-seller desta propriedade vitivinícola elaborado a partir das castas Syrah e Touriga Nacional, desta vez para acompanhar com um petisco regional: a tiborna. Nem mais, nem menos do que pedaços de pão que vão ao forno regados com azeite e  – como ditam as tendências saudáveis da actualidade – temperados com flor de sal. Um regalo para a alma e o estômago, acalentados também pela lareira acessa, que tão bem sabe nos dias e nas noites frias de Inverno.

Os queijos do Alentejo são um dos produtos mais badalados da carta

Seguem-se as entradas cujo prato forte são os produtos regionais alentejanos.

Costela de novilho acompanhada de legumes

Herdade dos Grous Moon Harvested 2015 foi o terceiro vinho do desfile – e o segundo tinto –, uma boa surpresa para o nariz e a boca, e também para a comida confeccionada pelo chefe Rui Prado, muito focada nos pratos de carne ou não fosse a produção de carne alentejana – vitela, porco preto e borrego criados ao ar livre, para além do gado caprino – outra das apostas da Herdade dos Grous. Para acompanhar e alegar cada prato, o cozinheiro que define a ementa selecciona os legumes frescos da horta da propriedade. De todos “o best-seller é a costela de novilho, uma carne inédita da nossa produção”, afirma.

Segundo Rui Prado, “a cozinha tem vindo a evoluir com o tempo”. A carta muda entre três a quatro vezes por ano, afinam-se pratos de acordo com o que cada estação oferece e desenham-se os menus vínicos.

Magret de pato com puré de grão e tâmaras

Só para acicatar o apetite, deixamos o alinhamento do novo menu vínico: creme de feijão com abóbora; garoupa com caldo de ervilhas, magret de pato com puré de grão e tâmaras, e bavaroise de chocolate com sorvete de limão. Preparados?

As sobremesas conventuais perduram na lista dos chamados ex-líbris, como a sericaia, o toucinho do céu e o pudim de amêndoa, mel e Vinho do Porto, para fazerem-se acompanhar com a colheita tardia da Herdade dos Grous subemtida a dois anos de estágio em barrica. O remate perfeito para uma refeição sob o silêncio e a tranquilidade do Alentejo, para admirar a cada hora que passa, bem como à noite, num dos espaçosos quartos da herdade, onde reina o conforto e a comodidade.

A reserva da visita e das provas convém que seja feita por marcação através do 284 960 000 ou do 927 984 872. Já o horário é das 9 às 18 horas, no Inverno, e até às 00 horas, durante o Verão. Quanto ao restaurante, ao longo do mês de Fevereiro está de portas abertas apenas à sexta-feira e ao sábado, das 19.30 às 21.30 horas. O horário habitual é de segunda-feira a domingo, das 12.30 às 14.30 horas e das 19-30 às 21.30 horas, com recomendação de reserva para o jantar através do número de telefone fixo acima referido ou de info@herdade-dos-grous.com.

Agradecemos à Hyundai o apoio na realização da viagem com o Hyundai i30SW

É ir, experimentar e harmonizar em grande. Bom apetite! •

+ Herdade dos Grous
© Fotografia: João Pedro Rato

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