Senhoras e Senhores, Meninos e Meninas… Artemisia Gentileschi

“Auto-retrato como Alegoria da Pintura”, um óleo sobre tela construído entre os anos 1636-39 pela importante pintora do Barroco de seu nome Artemisia Gentileschi, é a proposta de vertigem do olhar que agora vos faço.

Artemisia Gentileschi nasceu em Roma em 1593 e viveria até ao ano de 1656, “vendo” a sua obra resgatada e reflectida em diversas circunstâncias no século XX, particularmente num ambiente feminista que reclama os lugares devidos às mulheres que criaram ao longo da História, mas não obtiveram a justa cátedra nos corredores da memória colectiva. Podemos mesmo afirmar que Artemisia Gentileschi, ou simplesmente Artemisia, está para o Feminismo como o tenebrista Caravaggio o está para um universo Gay. Poderá fazer-nos pensar, de repente, que se trata de duas figuras que pintaram irrepreensivelmente em claro-escuro, portanto, dando corpo e visibilidade especial ao drama. 

Não gostaria, todavia, aqui, de desenvolver a ligação de Artemisia ao Feminismo contemporâneo, e respectivas polémicas associadas, nomeadamente a violação de que foi alvo no século XVII e que costuma ofuscar a intensidade do olhar que devemos à sua obra (nem, correlativamente, deixar subentendido que Caravaggio era gay…). Gostaria, antes, de destacar a inteligente proposta contida em “Auto-retrato como Alegoria da Pintura”. Porque é preciso repeti-lo até à exaustão: a um/a artista se deve, em primeiro lugar, antes de mais, sobretudo, sempre, dirigir um olhar perscrutante e atento à obra, um olhar que continue a reverberar o seu esforço, a sua entrega, a sua potência criativa. Nas palavras de Etty Hillesum: “Em tempos difíceis, por vezes as pessoas têm o costume de, com um gesto desprezível, deitar fora as conquistas espirituais de artistas das chamadas épocas fáceis (ser artista em si mesmo já é bastante difícil, não é), com o acrescento: ‘Para que é que isso nos serve?’ Talvez seja compreensível, mas é tacanho. E infinitamente empobrecedor.”

Portanto, a maior homenagem que podemos fazer a um/a artista é precisamente falarmos da obra, já que é nesta que tanto ele/a continua a interpelar-nos, e a interceder por nós, como é nela que nos podemos reinventar. “Auto-retrato como Alegoria da Pintura” não é um genérico “Auto-retrato”, mas antes um auto-retrato “como Alegoria da Pintura”: e esta é uma proposta muito inteligente de Artemisia. Para a compreendermos será necessário recuperar a lenda da criação da Pintura, contada por Plínio, e que se associa a um exercício de recordação, e amor: uma jovem mulher, filha de um ceramista reconhecido, está a despedir-se do amado, que no dia seguinte partirá para a guerra; triste pela inevitável separação, projecta numa parede, através de um foco de luz, o rosto do amado e procede à sua fixação através do contorno, para que possa fazer-lhe companhia na ausência. Nestes termos, poderíamos encarar a pintura, toda a pintura desde o princípio dos tempos, como um caso, e bastante sério, de amor; e até poderíamos ir mais longe, na medida em que a pintura é útero do existente, com o tão bem afirma John Berger – “A pintura é, mais directamente do que qualquer outra arte, uma afirmação do existente, do mundo físico em que foi lançada a humanidade”, e encarar a nossa existência de humanos como amor: seja na realidade imediata em que nos movemos, seja na necessidade acoplada, e contínua, de projectarmos também, todo/as e qualquer um/a de nós em concreto, na parede as imagens de tudo quanto nos separámos, seja temporária ou derradeiramente, perspective-se um (re)encontro, ou não. 

Nesta medida, tal como Malraux defendia o museu imaginário, eu defendo agora Artemisia como “Alegoria da Pintura” e, através dela, proponho que vós, eu, nós, possamos seguir mentalmente a mão da pintora, fechar os olhos, e desenhar na nossa memória os contornos de tudo quanto não queremos esquecer, tudo quanto recordamos fervorosamente, tudo quanto vamos certamente reencontrar, ou encontrar porque inventámos pictoricamente. Artemisia fê-lo e, ao fazê-lo, demonstra-nos que é possível, sim.

Imagem de entrada: Autorretrato como Alegoria da Pintura, entre 1638 e 1639. Óleo sobre tela, 98,6 × 75,2 cm.

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