El Greco & Companhia

De Toledo a Madrid, fazendo transbordo em Florença, proponho-vos uma viagem pelos meandros da percepção, neste caso, a minha. Sim, é verdade: vou adoptar um estilo (escrevi “estrilo” por engano: será premonitório?) assumidamente confessional.

Enquanto o carro se ia aproximando da cidade de Toledo, num dia de intenso calor, o meu peito arquejava, a cabeça aumentava, os olhos abriam-se interiormente até serem as janelas em que me pendurava excitada: isto é El Greco, na totalidade e da cabeça aos pés, esta é a Toledo mágica dos quadros do El Greco que adoro! Toledo aparecia-me assim como a cidade que só existia porque El Greco ali tinha vivido, pese embora este artista não fosse espanhol, já que nasceu em Creta; Toledo pareceu-me ser assim porque El Greco a tinha pintado, e não porque o fosse antes de El Greco ter pintado, ou melhor, Toledo manteve-se assim, como El Greco pintou, para não trair jamais, nem o pintor, nem a sua pintura. A seguir, quando o carro parou e saí, já não me lembro muito bem dos diversos passos, mas sei que serpenteei mornamente pela cidade até chegar à Catedral: e na sacristia chorei. O Enterro do Conde de Orgaz, obra tutelar de El Greco, e apesar de reconhecer a sua complexidade interna, os anéis simbólicos, o equilíbrio compositivo, não me emocionou tanto quanto aquelas figuras-labaredas essencialmente isoladas que encontrei na sacristia da Catedral. Até então conhecia os quadros de El Greco através das reproduções em livros de diversa natureza. 

Continuei até Madrid. Há uma sensação por mim experimentada em Espanha enquanto conduzo, automaticamente instalada após transpor a fronteira com Portugal, que se repete: a paisagem parece-me muito mais extensa, o que me assevera que estamos num país inevitavelmente mais vasto, maior, sim, tudo é maior, ainda que a minha capacidade para alcançar o horizonte seja a mesma. O calor permanecia e o longe apresentava-se sempre fumegante. Madrid, cidade que me encanta. Museo Thyssen-Bornemisza: fui, de assalto, e sem contar, enfeitiçada por Maurice Denis, presa que permaneci na sua teia “quase” pontilhista manifesta em “La corona de margaritas”, um quadro realizado entre 1905-1906. Não, não, de Maurice Denis não havia notícia de que me poderia acontecer o que aconteceu, mas aconteceu: permanecer tempo não passível de ser quantificado a percorrer tactilmente a encantadora “La corona de margaritas”, até me fazer corpo com as duas figuras humanas, ou me parecer que também respondia à criança.

Não é que seja uma pessoa que viaje constantemente; asseguro-vos que conheço muito pouco do mundo “no terreno”, como se costuma dizer. Tive a sorte de ter feito, até agora, uma ou outra viagem e comparo a minha experiência de aventureira no espaço-global com as “Escadas da Biblioteca Medicea Laurenziana”, em Florença e resultado da criatividade de Miguel Ângelo, e que servem de pórtico visual a este texto. Para tal, tenho de explicar-vos que o meu professor de História da Arte Moderna nos transmitiu uma sensação muito vívida do efeito provocado por tais escadas quando utilizadas, de tal forma que, passados 9 anos, quando as subi e desci na realidade fiquei estarrecida: senti na pele uma ideia que me fora gravada oralmente. Porque estas escadas estão construídas “ao contrário”, ou seja, a quem desce parece-lhe que sobe, e ao subir na verdade podíamos estar a descer. Assumindo as ”escadas”, na nossa cultura, um simbolismo tão forte, já que funcionam como elemento de ligação, passagem e transferência, o facto de Miguel Ângelo baralhar subida e descida, associando-as intrinsecamente, proporciona uma conclusão que considero muito sugestiva e esperançosa. 

Já num outro momento da minha passagem por Florença, atravessei a Praça Della Signoria e fiz uma rotação completa com o corpo para me deter na escultura de Cellini que representa “Perseu segurando a cabeça de Medusa”: fiquei siderada. E resolvi prestar a minha solidariedade para com Medusa e eis que me aproximei e simulei tocar-lhe, esticando o braço. Neste momento, agora, confesso-vos: teria sido Perseu e Medusa? Vamos pensar que sim, eu também. Naquele momento em que simulei o toque, um polícia aproximou-se com grande preocupação para avisar-me que não podia tocar na escultura; eu estava tão absorta, e feliz, mas ainda o sosseguei, a sorrir muito, que não estava a tocar, não, era apenas uma brincadeira, uma transferência energética (isto não lhe disse, claro). E juro-vos: o meu indicador ficou a 1 cm da escultura, mas não toquei. 

Confessei-me, com El Greco & Companhia; na verdade, fazer uma viagem, para mim, continua a ser uma ocasião muito emocionante.

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