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Há vinhas novas e o ano de 2018 representa-se em quatro vinhos / Herdade Aldeia de Cima

As castas portuguesas são, para Luísa Amorim, ponto assente face à viticultura e o novo quarteto vínico é prova disso. Falamos da sua propriedade situada na Serra do Mendro, em pleno Alentejo, agora, com cerca de 20 hectares e onde o valor da terra é preservado em benefício da natureza.


O enólogo Jorge Alves, Joaquim Faia, viticultor, Nelson Coelho, sales manager, o enólogo António Cavalheiro, os proprietários Luís Amorim e Francisco Rêgo, José Falé, coordenador do projecto, e Gonçalo Ramos, responsável pela área florestal da Herdade Aldeia de Cima


Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Aragonês, Baga, Tinta Grossa, Trincadeira. Alvarinho, Antão Vaz, Arinto, Perrum e Roupeiro. Eis a lista, respectivamente, das castas tintas e brancas nacionais – à excepção da primeira variedade de uva tinta que, apesar do nome, existe há mais de um século em terras alentejanas – eleitas para integrar as quatro vinhas da Herdade Aldeia de Cima. Cada uma foi escolhida em função dos solos desta propriedade de 2400 hectares situada em plena Serra do Mendro e pertencente à freguesia de Santana, no concelho de Portel, no âmbito do projecto vitivinícola de Luísa Amorim.

4 vinhas, 11 castas, 20 hectares


Façamos o roteiro. Comecemos pelo miradouro da Herdade da Aldeia de Cima de onde se avista o icónico vinhedo formado por patamares semelhantes aos socalcos tradicionais da Região Demarcada do Douro, a Vinha dos Alfaiates. Este ocupa 12 hectares divididos por 12 parcelas preenchidas pelo encepamento das variedades de uva tinta Alicante Bouschet, Trincadeira, Alfrocheiro, Aragonês e Baga, a par com a casta branca típica do Alentejo, a Antão Vaz, plantadas em cotas que variam entre os 300 e os 400 metros de altitude. 

Ali ao lado fica a estrada que demarca a fronteira entre os distritos de Évora e Beja, ou seja, entre o Alto e o Baixo Alentejo. Essa mesma via atravessa esta herdade imensa em que coabitam o montado, o olival, a vinha, as pequenas hortas e as demais dádivas da natureza, entre vales e planaltos que caracterizam a Serra do Mendro, resultando num ecossistema singular, cada vez mais, pelo vagar do Homem. Some-se a influência atlântica e a do lago do Alqueva fenómenos que, em conjunto, determinam as amplitudes térmicas diárias registadas na herdade, as quais variam os 20° C. 


António Cavalheiro e Jorge Alves “levantam do véu” da colheita de 2019


São precisamente essas noites “frescas” que Luísa Amorim e as equipas de viticultura e de enologia querem para os cerca de 20 hectares da Herdade da Aldeia de Cima. Assim como são de desejar os dias quentes na devida altura do ano neste lugar sereno, onde as vinhas são plantadas em zonas sem sobro, com o objectivo de respeitar o valor da terra e de todo o seu ecossistema.

Além da Vinha dos Alfaiates e da Vinha da Família – situada junto à adega e com, apenas, mil metros quadrados ocupados por quase todas as variedades de uva da lista acima referida (a Baga e a Alvarinho não constam aqui) – contabilize-se outras duas: a Vinha da Aldeya e a Vinha de Sant’Anna, cada uma com cerca de quatro hectares. A primeira das últimas é composta pelas castas tintas Aragonês e Trincadeiras e as brancas Alvarinho e Arinto. Além destas duas, a Vinha de Sant’Anna é constituída por Perrum e Roupeiro, nas brancas, e Tinta Grossa. 


Terroir alentejano é património no copo


A apresentação da colheita de 2018 dos vinhos desta propriedade alentejana cuja imagem dos rótulos, da autoria do Studio Eduardo Aires, foi distinguida com “Ouro”, na categoria “Packaging de Bebidas Alcoólicas”, dos European Design Awards


O terroir é elemento de peso. As castas portuguesas também. E o valor da terra é preservado em cada garrafa. Junte-se as características e faça-se o vinho sob a supervisão de Jorge Alves, o braço direito de Luísa Amorim no que à enologia diz respeito, e António Cavalheiro, o enólogo residente.

Sigamos para as boas novas vínicas desta propriedade alentejana, com os dois brancos: Herdade Aldeia de Cima Reserva branco 2018 (€15,20), feito a partir das castas Arinto, Alvarinho e Antão Vaz, denota mineralidade e frescura, uma acidez equilibrada e um final de boca prolongado; e Alyantiju branco 2018 (€37) – referência utilizada no topo de gama deste portefólio –, feito a partir das variedades de uva Antão Vaz e Alvarinho, as quais conferem frescura e elegância a este vinho graças, também, ao trabalho efectuado na adega que, deste modo, revela ter capacidade de resposta face à exigência dos enófilos no que toca aos vinhos brancos.

A dupla que se segue é formada, por sua vez, pelo Herdade Aldeia de Cima Reserva tinto 2018 (€15,20), com Trincadeira, Alfrocheiro, Alicante Bouschet e Aragonês que resultam num vinho com notas de especiarias, no nariz, frescura e elegância, na boca; Alyantiju tinto 2018 (€59), vinho de topo, é dotado de aromas de frutos silvestres e cacau, revela uma enorme elegância e uma estrutura singular associada à casta com que é feito, a Alicante Bouschet.

As castas destes quatro vinhos – disponíveis no mercado e na loja online já este mês de Junho de 2020 – são provenientes de produtores de uva da Vidigueira, região do Alentejo com o terroir semelhante ao da Herdade Aldeia de Cima. “Temos equipas próprias que fazem a vindima [manual] nos produtores de uva da Vidigueira”, informa António Cavalheiro. 


Luísa Amorim e Jorge Alves falam sobre a importância dos vinhos para o futuro


A colheita da uva na vila vizinha vai permanecer quando as quatro vinhas desta propriedade estiverem no ponto, mas Luísa Amorim afirma “não vamos ‘largar’ completamente os lavradores da Vidigueira”, até porque “não podemos romper com o estilo”, justifica, evidenciando a importância das “vinhas mais velhas” pertencentes a esses mesmos produtores de uva e de quem estão já a estagiar as castas da colheita de 2019. 

Assim, teremos o Arinto e o Antão Vaz vinificadas, em separado, em cubas de betão em formato de túlipas para o Herdade Aldeia de Cima Reserva branco de 2019. As mesmas variedades de uva estagiam em balseiros de carvalho a juntar, depois, à Antão Vaz que estagia, a solo, também em balseiros de carvalho, “trio” este que será para o topo de gama do portefólio vínica da Herdade Aldeia de Cima. Já o Aragonês da colheita de 2019 que está a estagiar em balseiros de carvalho servirá para o Herdade Aldeia de Cima Reserva tinto. O Alfrocheito e o Alicante Bouschet, a estagiar separadamente nas ânforas, “são para fazer ensaios”, revela-nos Jorge Alves.

Brindemos!

+ Herdade Aldeia de Cima

© Fotografia: João Pedro Rato


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