Coimbra é saber e tradição, é fado de capas negras ao alto

Entre pela Porta Férrea da universidade. Mire a cidade no Pátio das Escolas e respire história numa das mais vetustas universidades do mundo. Contemple o património edificado da Alta, descubra o acervo do Laboratório Chimico e do Colégio de Jesus. E desça à em direcção à Sofia, rua de património edificado a conhecer. Muito há para explorar entre este conjunto histórico e cultural classificado, desde 2013, de Património da Humanidade pela UNESCO.


Paço de Alcáçova. Assim se chamava aquela que foi, em meados do século XII, o primeiro Paço Real do país. Aqui nasceram reis, príncipes e princesas. Posteriormente, passa a Paço das Escolas cuja entrada é feita pela Porta Férrea ali colocada no século XVII. Para lá desta, só os archeiros, com sala de armas próprias, impõem a ordem.

Estamos na Universidade de Coimbra. A sua criação vale pela pena do Rei D. Dinis que, em 1290, assina o “Scientiae Thesaurus Mirabilis”. Este é o nome do documento que deu origem ao Estudo Geral, a génese da fundação da mais antiga universidade do país. Fale-se, ainda, de D. João III, que ordenou, em 1537, a instalação definitiva da universidade na cidade do Mondego e dos estudantes. 


Contemple-se a Via Latina, varanda de colunatas erguidas ao cima da escadaria em pedra e rematada pelo frontão triangular, e a famosa torre. Esta é já do século XVIII. Dois dos seus sinos têm uma função peculiar: o cabrão, com o som grave, toca às 07h30, para anunciar o início do dia aos estudantes; a cabra toca às 18h00, sendo esta a hora de regresso a casa.


Entre. Visite-se a Sala dos Capelos ou Sala Grande dos Actos. Conhecida, ainda, por Sala do Trono, onde D. João I, Grão-Mestre da Ordem de Aviz, fora aclamado Rei de Portugal após a vitória na Batalha de Aljubarrota, conserva uma das três cadeiras do reinado – das restantes, um está na Real Capela de São Miguel e a outra na Sala do Senado.

Desde o tecto da autoria de Jacinto Pereira da Costa, uma verdadeira relíquia do século XVII, aos retratos dos reis portugueses – à excepção da dinastia filipina – colocados nas paredes, em redor, passando pelo singular painel azulejar, este espaço está reservado aos mais solenes actos académicos da universidade e do país. 


O lambrim de azulejos, datado de 1773 e produzidos na Fábrica do Rato, em Lisboa, da Sala dos Archeiros é outra preciosidade complementada pelas alabardas, designação dada ao conjunto de armas da Guarda Real dos Archeiros. Contemple-se dali a Sala Amarela. De paredes forradas a seda amarela – o mesmo tecido utilizado nas cadeiras expostas –, numa evocação à Faculdade de Medicina, este espaço antecede a Sala Azul, numa alusão à Faculdade de Ciências e Tecnologia.

Conheça a história da Sala do Exame Privado, cujas paredes, em redor, estão “vestidas” por enormes retratos de antigos reitores desta instituição de ensino, alguns dos quais Jesuítas – vestidos de hábitos negros – ou não estivesse a Universidade de Coimbra ligada, em tempos, ao Colégio da Companhia de Jesus. 


Siga para a Real Capela dedicada a São Miguel Arcanjo. Revestida de dois “tapetes” azulejares – um no altar-mor e outro na nave – dignos de uma morosa observação por parte de apreciadores de tão rigorosa arte, esta pequena igreja tem exposto o órgão barroco, um original do século XVIII constituído por mais de dois mil tubos e decorado, no fundo, por motivos chineses. Estes assemelham-se às robustas estantes forradas a folha de ouro da vizinha Biblioteca Joanina. 

Revestida de madeiras nobres – o mesmo material que fora utilizado na feitura das suas peças de mobiliário –, a outrora Casa da Livraria é um exemplar arquitectónico único e depósito de um incomensurável acervo de colecções datadas desde os séculos XVI ao XVIII. O seu patrono, D. João V, está representado num retrato, ao fundo da terceira e última sala desta majestosa biblioteca designada, mais tarde, de Joanina em sua honra. Fora do perímetro da Porta Férrea estão os edifícios projectados e construídos durante o Estado Novo. 


A Alta e a Rua da Sofia dos colégios


O circuito que prossegue até à Alta, ao antigo Colégio de Jesus que, a par com o Laboratório Chimico – mandado construir, no século XVIII, por Marquês de Pombal, onde fora o refeitório dos Jesuítas –, integram o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.

O segundo, recuperado no século XXI, tem no seu projecto de arquitectura a assinatura de João Mendes Ribeiro, Carlos Antunes e Desirée Pedro, trabalho que lhe valeu três distinções, das quais se destaca o Prémio Micheletti 2008, o mais importante galardão atribuído ao melhor museu europeu.


Espaço destinado a miúdos e graúdos, curiosos e futuros especialistas em matéria de Ciência e Tecnologia, o outrora Laboratório Chimico é uma verdadeira viagem no tempo. O Colégio de Jesus, inteiramente dedicado às disciplinas da Física e da Química, apresentam todo um espólio que retrata a evolução em ambas, ao longo dos séculos XVIII e XIX. Inclua-se os estudo dos animais de outros cantos do planeta Terra. São muitas mãos cheias de pesquisa e saber traduzidos pelo campo experimental.


Contígua é a Sé Nova de Coimbra. Construída à imagem da Igreja de Jesus, em Itália, é um precioso exemplar da Companhia de Jesus elevado a catedral de Coimbra, em 1772, após a expulsão dos Jesuítas do território português por Marquês de Pombal.

O mesmo há que dizer acerca do Museu Machado de Castro, constituído por um espólio notável de peças de escultura e artes decorativas, bem como de pintura. Some-se os vestígios de outras eras, em particular da Época dos Romanos. 


Desça-se até à Baixa da cidade pela Sé Velha, do século XI, a antiga catedral de Coimbra cuja escadaria é palco da Serenata Monumental. Passe pelo Arco da Almedina, a vetusta Porta Barbacã que, na Idade Média e em conjunto com a sua torre, constituíam o acesso intramuros da sua malha urbana.


A dois passos dali está a Igreja de Santa Cruz. Erigida entre os séculos XII e XIII, tem a primeira bandeira do Reino de Portugal hasteada no exterior. Panteão Nacional, desde 2003, nela estão sepultados o primeiro e segundo reis, D. Afonso Henriques e seu filho, D. Sancho I, com as respectivas mulheres, D. Mafalda e D. Dulce. Some-se à história deste exemplar religioso – submetido a grandes reformas no século XVI – o nome de Santo António, o padroeiro de Lisboa nascido em Coimbra, e à arquitectura o órgão ibérico do século XVIII, o altar-mor e o Cadeiral do Coro Alto, uma obra manuelina de referência.

Contorne o edifício da Câmara Municipal de Coimbra e dirija-se ao Centro de Artes Visuais, espaço que acolhe exposições de fotografia de múltiplos nomes reconhecidos no mundo de quem capta o momento certo através da lente da câmara fotográfica, entre outros suportes artísticos, como a imagem em movimento e a instalação. Inaugurado em 2003, está instalado numa parte do edifício do Colégio das Artes. Sob a tutela da Companhia de Jesus, a meio do século XVI, foi entregue ao Tribunal do Santos Ofício, daí o nome Pátio de Inquisição, atribuído a esta praceta, onde também está A Escola da Noite.

Sofia. Sinónimo de Sabedoria, tem na rua com o seu nome muitos dos colégios da cidade de Coimbra, datados do século XVI, projectados de acordo com o risco de Diogo Castilho e que, ainda hoje, são utilizados. Comecemos pelo Colégio de São Bernardo ou Colégio do Espírito Santo. Continuemos o roteiro pelo Colégio do Carmo e pelo Colégio de Nossa Senhora da Graça até ao Colégio de São Pedro dos Terceiros onde, desde a década de 1930, está parcialmente ocupado pela Casa de Saúde “Coimbra”. Terminemos no Colégio de São Tomás de Aquino que, nos anos 1930 passou a ser ocupado pelo Tribunal da Comarca de Coimbra. Ao fundo da Rua da Sofia, avista-se a Alta.


O convento dedicado a Rainha Santa Isabel e o jardim de amores de Pedro e Inês


Já do outro lado do Mondego, na margem esquerda do rio, está o histórico Convento de Santa Clara-a-Velha. Apesar do estado de degradação deste secular monumento, devido às frequentes inundações provocadas pelas águas do Mondego, é digno de visita pelas histórias contadas em torno deste testemunho dos tempos muito associado a D. Isabel de Aragão, celebrizada com o nome de Rainha Santa Isabel, mulher do Rei D. Dinis e padroeira da cidade de Coimbra. 

No início do século XIV, a Rainha D. Isabel refundou a casa monástica neste espaço religioso e, de novo, as freiras clarissas de Coimbra regressaram a este lugar que, hoje, mostra vestígios de diferentes estilos arquitectónicos, com destaque para a pequena mostra de painéis de azulejo mudejar a contemplar morosamente, para melhor compreender esta arte criada pelos muçulmanos. No Jardim do Paraíso, com o lago ao centro, é visível o aqueduto utilizado, nesses tempos idos, para abastecer o Paço da Rainha e as comunidades religiosas.


Imperdível é o Jardim da Quinta das Lágrimas. Membro da Small Luxury Hotels of the World, este hotel, instalado num palácio do século XVIII, conta uma das mais belas histórias de amor da nossa História, a de Pedro e Inês. (re)Descubra a Fonte dos Amores e a Fonte das Lágrimas. (re)Leia o poema escrito, em sua homenagem, por Luís Vaz de Camões. 

Contemple a figueira australiana que aqui está há dois séculos ou as secóias oferecidas pelo Duque de Wellington neste que é um verdadeiro museu botânico a céu aberto. Passeie pelo local onde decorre o Festival das Artes – este ano foi adiado – e que promete, todos os anos, uma semana inteiramente dedicada ao mais erudito e alternativo que há no universo artístico. Demore o tempo que for preciso entre perguntas e esclarecimentos a Cláudia do Vale, a responsável pelas visitas ao jardim, ao mesmo tempo que percorre o Jardim Medieval e o Jardim Romântico composto por árvores que nos levam a uma viagem pelo planeta. E deixe os miúdos expressarem as suas impressões, pois a guia presta-lhes uma especial atenção.


A decifrar sabores pela cidade


Faça uma pausa longa no Dux Taberna Urbana, na rua paralela à da Sofia, para almoçar. O prato forte são os petiscos. Gambas fritas com alho ou arçorda de camarão com coentros são para provar, bem como as chips de batata doce ou a terrina de pato com salada de rúcula, laranja e cebola roxa. Há, portanto, os petiscos do mar e os da terra, entre uma ampla selecção de sugestões de pratos à escolha. Vinho não falta! E cerveja também não. Harmonize-os com as carnes na grelha ou opte pelos risottos e termine com o pastel de Tentúgal ou o leite creme queimado.


A meio da tarde vá ao Café Santa Cruz – o célebre Café-Restaurante Santa Cruz inaugurado a 8 de Maio de 1923 – a ocupar, desde então, a antiga Igreja de São João de Santa Cruz, na Praça 8 de Maio é, desde sempre, palco de tertúlias e encontros de nomes sonantes da escrita e de outras artes. Reorganizado na década de 1980, continua a receber espectáculos intimistas de jazz em parceria com o Conservatório de Música de Coimbra. Outra das principais atracções são os crúzios. Inspirados nos doces conventuais, estes pastéis foram criados em Março de 2012 em homenagem à Ordem de Santa Cruz mais conhecida pelos Crúzios. Saboreie-os com tempo e acompanhados por um chá. 


Aos apreciadores de cocktails, mas também de vinho acompanhado de queijos vários, recomendamos Queijaria de Coimbra. Fica na Rua da Loja, a dois passos do Café Santa Cruz, e está instalado num edifício bicentenário. Aberta desde 10 de Junho de 2019, esta casa tem Telmo Almeida e Luís Martins como seus fundadores. Disponíveis estão os queijos mais conhecidos do país, como o da Beira Baixa de ovelha curado, o Queijo da Serra da Estrela ou o do Rabaçal de ovelha e cabra. Junte-se outros, como os de Itália e de França.

Depois é escolher quatro, seis ou oito para compor a tábua ou deixar-se ficar nas mãos de quem é entendido nesta matéria e no que à harmonização vínica diz respeito, sendo a garrafeira composta por cerca de 98 por cento de referências nacionais. Sem esquecer os cocktails, que também resultam no pairing, seja de queijos, seja de enchidos, que também os há para degustação. Por fim, escolha entre o andar térreo ou o primeiro piso, mais aconchegante e com uma decoração intimista.

O jantar pode ser… no Praxis. Aqui a comida rima com cerveja, por isso o ambiente descontraído é praxe. No final, solicite a Pedro Baptista, o co-proprietário, para visitar a fábrica que, do exterior e através das paredes envidraçadas do interior do restaurante, saltam à vista as cubas de inox em que ocorre a fermentação e a maturação da cerveja. Além do malte e do lúpulo, a sua composição inclui a água de Coimbra com um pH que ajuda a baixar a fermentação. 

Em matéria de restauração, muito ficou para ir, já que imperdíveis são outros sabores da cidade e dos arredores – como a chanfana, a perdiz fria à moda de Coimbra, o Leitão assado à moda da Bairrada, as arrufadas, os pastéis de Santa Clara, o pudim das Clarissas, o manjar branco, as cavacas altas de Coimbra, as nevadas de Penacova, os pastéis do Lorvão, os pastéis de Tentúgal, as queijadas de Tentúgal e as queijadas de Pereira, ou as talhadas de príncipe – e outras cozinhas a conhecer nesta Coimbra Património de Capa Traçada.


Viagem a convite do Turismo Centro de Portugal em parceria com a Sodicentro de Coimbra

+ Património da Humanidade Centro de Portugal

© Fotografia: João Pedro Rato


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