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“II” dedos de conversa com Mancines

Raquel Ralha (Wraygunn, Belle Chase Hotel, Azembla’s Quartet, The Twist Connection) e Toni Fortuna (d3ö, Tédio Boys, M’as Foice), junto com Pedro Renato (Belle Chase Hotel, Azembla’s Quartet) e Gonçalo Rui (produtor musical e guitarrista) continuam a ser um superlativo quarteto que, inegavelmente, ajuda a fazer de Coimbra um dos solos musicais mais fertéis do panorama nacional. A proposta que vos trazemos é uma segunda viagem cinemática – q.b. de sedutora – a que este quarteto dá o nome “II”. Falamos de  Mancines e do seu segundo álbum, editado a 24 de abril de 2020.

Na sua estreia, em 2015, com “Eden’s Inferno”, os Mancines conduziram-nos às profundezas de um inferno idílico, pleno de sombras e tentações. Passados cinco anos, dão-nos 11 temas novos (mais um de bónus) que nos levam num passeio colectivo, mais luminoso e desafiador. Em “II” apresentam-se sem medo de explorar novas sonoridades e, nunca como antes, tão seguros das suas referências. Um quarteto que se tornou mais que obrigatório na cena musical portuguesa, não só pela qualidade dos talentos que se juntaram, mas pela música viciante que nos dão. 

São 12 canções que neste “II” contam com músicas de Pedro Renato e letras de Raquel Ralha e Toni Fortuna, a que se juntam as dos comparsas JP Simões ou Samuel Úria (este último em “O Poço” que marca a estreia da banda a hipnotizar-nos na língua portuguesa). Mas há mais. Há ainda o revisitar do compositor Nino Rota e até dos Heróis do Mar, com uma versão sublime de “Fado”. Foi este segundo, este “II”, que nos levou a uma segunda conversa com Mancines, aqui tão belissimamente representados por Toni Fortuna (TF) e Pedro Renato (PR). 
Sem mais demoras… Mancines!

Em 2015, levaram-nos às profundezas de Hades, conduzidos por um Caronte – “Eden’s Inferno” – absolutamente irrepreensível no ritmo e harmonias dos seus remos. Agora, apresentam-nos “II”.
Por detrás do nome do álbum a simplicidade de ser o vosso segundo ou temos algo mais, indecifrável ao olho nu e leigo?

TF: É realmente simples, não tem nenhum código indecifrável, mas é como se de uma nova linhagem, nova geração, novo membro da e na mesma família se tratasse e por isso tem “o nome do pai, mas é o filho”.

 “II”… “Is this a go” para o porto onde nos querem atracar numa estética musical que já vos associamos? A viagem continua pelo mesmo rio (embora o rio não corra sempre da mesma maneira) ou estamos num afluente novo para agitar as águas?
TF: A viagem continua e prossegue por água, mas apesar da família se deslocar em conjunto a paisagem vai mudando, e sentimos que estamos cada vez mais a ganhar a identidade e não só uma escolha estética.

Se no vosso trabalho anterior vos colocámos num universo dos fabulosos idos anos 50/60, agora temos de actualizar a barra cronológica? Embora tendo sempre em mente que a música é intemporal e atravessa tempos.
TF: Acho que mais do que uma época, eu diria mesmo um ou vários filmes, e bandas sonoras respectivas, os clássicos são sempre bem-vindos, mas podem estar alternados com alguns mais contemporâneos.

No superlativo “inferno cinematográfico” entregavam-nos o italiano e não só, mas a língua de Camões não estava presente. Agora, a história mudou. Samuel Úria para agigantar, mais ainda, a vossa música. Porquê este exímio letrista para este álbum e porquê abraçar, agora, a língua portuguesa?
TF:
Falámos várias vezes em “se cantamos em várias línguas, porque não também o Português?” Mas na verdade nem eu nem a Raquel sentimos grande à vontade para escrever em Português, e ao decidirmos que o queríamos fazer neste disco, eu contactei o Samuel (por ter alguma proximidade com ele, e por gostar bastante dos textos que ele escreve em Português) e ele aceitou, e fomos fazendo “o sapato para o meu pé” (como ele me disse na altura). Ficámos todos muito contentes com o resultado.

E continuando em português, Heróis do Mar. O que há em “Fado” que se tornou obrigatória a visita neste “II”?
PR: A escolha de Fado não era obrigatória. O importante era ter, pelo menos, dois temas cantados em português neste disco. Havia duas formas, que eram as mais óbvias, de uma banda como Mancines o conseguirem, uma vez que estávamos a sair da nossa zona de conforto para um território inexplorado e que, facilmente, poderia vir a ser hostil. Uma das formas foi convidar um letrista/compositor que está habituado a fazê-lo e bem, como o Samuel Úria e a outra era através duma versão dum tema cantado em Português. Já que estávamos a hastear a bandeira Portuguesa, que melhor forma de o fazer se não com uma versão de uma música chamada “Fado”?! E claro, embora não seja o maior fã de Heróis do Mar, sempre adorei essa canção!

Ainda em nomes que tornam o vosso trabalho ainda mais rico, JP Simões. Inevitável convidado “repetente”? Não fazia sentido ele não marcar, de novo, presença num trabalho vosso?
PR: Sim, tens razão. Seria de esperar que não voltássemos a repetir esse convite, mas, na verdade, as coisas aconteceram de uma outra forma no que diz respeito à “Spirit of the Blues”. Essa música é bem antiga; creio mesmo que foi das primeiras músicas que fizemos com Belle Chase Hotel, mas que por alguma razão nunca a tínhamos gravado! Apenas achei que estava na hora de o fazer e que fazia todo o sentido no alinhamento deste novo disco. Portanto, na prática nós não convidámos o JP para escrever essa letra para este disco; apenas lhe pedimos autorização para usarmos a letra original dele, cantada na voz da Raquel. E que melhor pretexto para reunir velhos amigos do que a gravação e edição de um disco?!
E quem sou eu para contestar com tal forma de ter o JP, de novo (e sempre), neste (e num futuro) disco… Venham mais músicas perdidas do vosso baú!

Músicos da Lusa Atenas, com editora Conimbricense – Lux Records –, que ensaiam, “criam” e produzem em Coimbra.

Coimbra está-vos no ADN. Coimbra é o “estúdio” onde nascem, a cada novo álbum, novas viagens cinematográficas. Citando quem esta semana nos deixou “Ofereceram-me uma mansão em Hollywood, mas disse ‘não obrigado’, prefiro viver em Itália”, E. Morricone.
Se vos oferecessem uma mansão além fronteiras, lá longe, responderiam “preferimos viver em Portugal” ou até se aventuravam?
TF:
Apesar de “sermos” de Coimbra, não creio que a cidade em si seja o motor, mas sim as pessoas, as que ainda estão na cidade, as que saíram, as que voltam e saem, e essas pessoas têm gostos, cultura, informação que se completam e com as quais se identificam. A aventura além fronteiras parece-me um desafio que os Mancines aceitariam com alegria, porquê recusar uma mansão quando podemos ter várias?
Senhor Fortuna, não poderia concordar mais, mesmo só tocando eu campainha de porta.

A vossa cidade-mãe tem “Good Seed” que dá boas colheitas musicais? Só estou a garantir o teu sentido filosófico da resposta anterior, o qual subscrevo. 
TF:
Como disse anteriormente, a cidade é só um sítio onde nos encontramos, essa ou uma outra ou outras, mas as sementes somos nós que as albergamos, nutrimos e plantamos.

De que “Poço” bebem, regularmente, para tanta inspiração resultar novamente numa viagem, igualmente singular, de doze canções? Quem vos continua a inspirar ou vos inspira de novo?
PR:
No que me diz respeito, bebi durante tanto tempo, tão sofregamente e de tantos poços diferentes, que hoje em dia quase sou abstêmio nesse sentido. Ouço muito pouca música, e menos ainda música nova! Acho que este disco é, em parte, reflexo disso; pois é muito mais livre e solto de referências. O Tom Zé dizia algo que me costumava intrigar há 20 anos ou coisa do género; “Eu não ouço música para manter o meu processo de criação puro!“. Enquanto criador e consumidor ávido de música, nessa altura, não conseguia entender como é que um músico genial como ele não ouvia música. Mas o facto é que hoje em dia o entendo perfeitamente!

“A música precisa de espaço para respirar”, novamente Morricone. Curiosidade natural de leigos, como fazem vocês a vossa música respirar a cada nova canção? Que respirar é este?
PR:
Ainda bem que falas nisso. Num espaço de precisamente um ano perdemos, quanto a mim, as duas figuras mais importantes da música do século XX que nos restavam: Ennio Morricone (6 de Julho de 2020) e João Gilberto (6 de Julho de 2019). E digo isto porque, também, João Gilberto falava disso regularmente, mas de uma forma ainda mais radical (como tudo na vida dele!) recordando sempre às pessoas que “Less is More!“. Mas voltando à questão, como em tudo na vida precisas de pontos baixos para melhor saborear os momentos altos. Precisas de momentos amenos nas músicas para melhor conseguires fazer crescer, por exemplo, num refrão!(Sem montanhas não tens vales, e vice-versa; É um pouco o velho yin-yang)!… Dito isto, gerir esses silêncios é o derradeiro desafio de um compositor. Levou-me muitos anos a aprender que compor não é só construir e adicionar, mas sim, e também, saber desconstruir e saber tirar o excesso; conseguir distinguir em que ponto é que deixas de estar a servir a música e começas apenas a abusar dela apenas porque podes e consegues! (Mas isso é apenas a minha experiência; Não necessariamente a dos outros!).
Que resposta, Pedro. Assim aprendemos a importância do respirar, na música.

A vossa música faz de vós (e de nós) “Better M[e]m” e better women? A música é uma boa vacina/antídoto para tempos mais atribulados?
TF: Gosto de acreditar que todos dias temos oportunidade de sermos, de fazermos de nós, melhores mulheres e homens. A música é, e será sempre, uma boa companhia, uma inspiração, uma bela forma de comunicar, nos bons e maus momentos, uma banda sonora para a “nossa” vida.

Como não há duas sem três, mesmo no mundo bandas sonoras, estou crente, combinamos conversa para daqui a uns tempos?
TF:
Certamente que sim, fica desde já combinada uma futura conversa para um futuro próximo.
Óptimo. É que, na verdade, estamos a ficar mal “mal habituados” com conversas assim…

Com edição da Lux Records, “II” é a prova de que 2020 – com tudo o que estamos a atravessar – não conseguiu calar a edição de música de excelência e que há bandas sonoras para tornar tudo melhor.
Um álbum obrigatório, para ouvir e re-ouvir. •

+ Mancines
© Fotografia: Bruno Pires.

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