ENTREVISTAS, MUSIC 0

Na Guerrilha com Luca Argel

Músico, compositor e poeta. Carioca que “troca” o seu Brasil por (o agora também seu) Portugal. Músico encartado na sua casa-mãe, tem na algibeira um mestrado em Literatura pela Universidade do Porto. Criativo que conta com vários trabalhos editados, na música e na poesia. Um poeta que musicou poesia de Fernando Pessoa. Um músico com samba a correr-lhe nas veias que lhe enchem a alma que nos traz, neste 2021, o género Samba Opera no seu surpreendente e excepcional “Samba de Guerrilha”. Um trabalho obrigatório a ser editado neste atípico fevereiro de 2021 e a desculpa mais que perfeita para guerrilhar umas palavras com Luca Argel.

Há muito que a vontade de um bate-papo com Luca pairava na nossa atmosfera Mutante. Respirávamos a sua música, sem reclamações sabendo que ele não era como os tipos que tendem para o silêncio porque o Luca tem na sua bandeira que à música nunca faltará a voz, não temos dúvidas. Esperámos na conversa de fila, atrás do R2-D2, do Pai Natal e até do Freddy Mercury enquanto ele visitava o inferno. Porém, já não podíamos procrastinar mais. Esta Ópera tornou o bate-papo inadiável e impreterível.

Sem mais rodeios, desvendemos quem é Luca Argel (LA): o criativo e o seu novo trabalho de originais.

Dizia Pessoa “Viver não é necessário. Necessário é criar.” Acreditando que criar sempre foi, para ti, um acto do mais que necessário, vital: Quem nasce primeiro, o poeta ou o músico?
Melhor, o que surge primeiro no gesto criativo, a poesia ou a música?

LA: Do ponto de vista do interesse, talvez a música, porque tenho lembranças de músicas que eu já curtia no infantário antes de ser alfabetizado. Mas do ponto de vista da criação, provavelmente a poesia, porque fui primeiro alfabetizado nas palavras do que na música. Acho que já criava com palavras antes de saber criar melodias e ritmos… Mas isso são impressões que me vêm da arqueologia das minhas primeiras memórias, e a memória pode enganar. Muito mais tarde, quando tomei consciência de que eu era um “criador”, já as criações transitavam livremente entre a música e as palavras, e diferenciá-las sempre foi uma coisa que fiz a posteriori, apresentando-me ora mais de um lado, ora mais do outro, conforme a conveniência da situação!

Na música…

Sendo Carioca de gema, há no Rio de Janeiro algo tão especial que pode influenciar de tal forma a música que é difícil encontrar paralelo? Há na metrópole algum código genético ao qual não dá para escapar?
LA: Sim! Mas não mais que o Porto, Lisboa ou São Paulo, ou qualquer outra cidade. Os lugares onde crescemos ou onde fazemos vida já depois de crescidos ficam gravados em nós de alguma forma, moldam os nossos gestos e a nossa maneira de ver o mundo. Em qualquer lugar que eu vá, vou enxergá-lo e decodificá-lo sempre em relação ao lugar de onde vim. Precisamos de um ponto de referência, sempre. O meu, por sorte ou azar, calhou de ser o Rio de Janeiro. E como é este o meu ponto de referência primeiro, custou muito conseguir perceber o que de tão especial ele tem, porque pra mim ele sempre foi o normal, o ordinário, e não o extraordinário. O que mais me ajudou a perceber isto foi ter saído do Rio, vê-lo de fora, em perspectiva. E com isto perceber também o que dele existia em mim, sem que eu me desse conta. Agora, o que exatamente é isto? Estou ainda descobrindo. Mas acho que passa muito por uma certa atitude diante das adversidades, de como contornar a falta de condições para se fazer algo, e fazê-lo mesmo assim, de uma forma inusitada, surpreendente, e geralmente bem humorada. O não se levar nada demasiado a sério, no que isso tem de bom e de ruim. São pistas.

Li algures no mundo cibernético que naquilo a que chamaríamos de referências surgem nomes como Chico Buarque, Beatles, Caetano ou Gilberto Gil. Em que medida estes e/ ou outros influencia(ra)m o teu lado criativo, os teus caminhos artísticos?   
LA: Estes nomes em particular acho que influenciam toda a gente! A mim, entre esses quatro, tenho mais presente o Caetano. Deixando de parte a sua genialidade como poeta e compositor, me identifico muito com a multiplicidade de interesses dele, de ir fundo em suas propostas e pesquisas estéticas. Ao contrário, por exemplo, do Chico, sinto que Caetano costuma estar mais inclinado em pensar sua obra musical numa escala maior que a canção. Ele projeta os conceitos por trás dos álbuns, e pensa o próprio álbum como algo mais que um apanhado de canções. Eu me revejo muito nesta atitude.
Arriscaria dizer que é ver a música como um projecto conceptual maior que a própria canção.

(…) foi no meu percurso acadêmico que aprendi a extrair melhor o que cada leitura tem a oferecer em matéria de ideias e inspiração para criar.

Na Poesia e continuando no universo daquilo que nos molda e nos guia…

Na Universidade do Porto concluis o Mestrado em Literatura. Qual a importância do teu percurso académico para a construção da identidade de música/poeta?
LA: Não acho que a universidade seja um espaço de passagem incontornável para quem trabalha com arte, mas no meu caso teve uma importância muito grande. Tanto a minha licenciatura em música, no Brasil, quanto o meu mestrado em literatura, em Portugal, valeram não tanto pelo que me ensinaram como criador, mas muitíssimo pelo que me ensinaram enquanto leitor e ouvinte. A sala de aula foi um espaço fundamental para que eu começasse a construir o meu repertório de referências, que por sua vez é fundamental para que eu crie. Se não estou lendo nada, dificilmente consigo escrever… E foi no meu percurso acadêmico que aprendi a extrair melhor o que cada leitura tem a oferecer em matéria de ideias e inspiração para criar.
Ferramentas do nosso caminho para então conseguirmos construir-nos.

Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar”, Carlos Drummond de Andrade. Nenhum poeta é igual ao outro. Se na música tens nomes que consegues lançar como referências, na poesia, que nomes me darias e em que medida eles são incontornáveis para ti e para o teu eu criativo?
LA: Alguns muito importantes: Em primeiro lugar, Manuel Bandeira. É para mim o “patriarca” maior do estilo poético que persigo, na nossa língua. Mas também tenho muitas referências mais recentes. No Brasil, poetas como o Carlito Azevedo, a Marília Garcia e a Angélica Freitas são faróis. Em Portugal, o José Miguel Silva, a Golgona Anghel, o Manuel António Pina. E também alguns nomes estrangeiros são muito importantes. A elegância de Konstantinos Kaváfis, a simplicidade profunda da Wislawa Szymborska, a ternura devastadora de Zbigniew Herbert. São meus professores de todas as horas.

Para finalizar os ingredientes que criam a receita Luca Argel O Criativo Imparável…

A família pode acabar por ter um papel preponderante na decisão de se ir pelo caminho da criação artística, seja por rebeldia, seja por ela existir e ser alimentada no núcleo familiar. No teu caso, a família é incontornável para hoje estarmos aqui a falar do teu trabalho?
LA: Sim, pelo apoio incondicional que sempre me deram nas minhas decisões.

As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem.”, Chico Buarque. Atravessemos o imenso Atlântico para atracar em Portugal, a tua grande mudança.

Como vem parar este Carioca, há 10 anos, a terras lusas? Sonho antigo, afazeres académicos que acima referimos, coisas do destino?
LA: Os afazeres acadêmicos foram a justificativa oficial. Mas além deles existia uma vontade grande de sair do ninho, sair de casa, expandir o horizonte, correr atrás da minha independência. E também a vontade de me reconectar com meus sonhos de compositor e performer, que andavam um pouco adormecidos neste período. Portugal foi uma circunstância feliz, porque já tinha um grande amigo que vivia aqui, e que me influenciou muito na escolha, e porque meu espaço primordial de trabalho é a língua portuguesa. Que havia eu de fazer longe dela?
Lucro nosso, Luca. Ter-te aqui a produzir música que vicia e palavras que prendem.

O vaso dá uma forma ao vazio e a música ao silêncio.”, Georges Braques. Mergulhemos nos teus trabalhos discográficos.
Os teus álbuns começaram a dar forma ao silêncio em 2014 com “Livro de Reclamações”.  Em 2016, o silêncio vem à tona com “Tipos que Tendem para o Silêncio”. Logo no ano seguinte, em 2017, hasteamos a “Bandeira”. Em 2018, um livro-disco surpreendente onde musicas Fernando Pessoa, com Ana Deus – “Ruído Vário”. Em 2019, alinhamo-nos para uma “Conversa de Fila” e em 2020 dizes “Fui ao Inferno e Lembrei-me de Ti”. Por fim, este 2021 deixas-nos prisioneiros de “Samba de Guerrilha”.

Primeiro, falemos do estilo: o Samba.

Menino quando morre vira anjo; Mulher vira uma flor no céu; Malandro quando morre vira samba.” Chico Buarque.
O que mudou – para os mais leigos – no samba nas últimas décadas? O Samba soube reinventar-se sem perder a identidade? E que me dizes a esta afirmação de Buarque?

LA: Tirando a parte da mulher virar flor, que é uma metáfora duvidosa, concordo com o Chico. O samba desde que surgiu esteve sempre a se reinventar, e continua a fazê-lo até hoje, sim, a ponto de ser capaz de assumir diversas identidades ao mesmo tempo. Para os mais tradicionalistas, ainda há quem o conserve nos moldes clássicos; e para os que, como eu, gostam de deixá-lo contaminar-se por sonoridades diferentes, ele também tem se mostrado terreno ainda fértil para novas experiências. Então o samba mudou sim, mas continua o mesmo!

“[O Samba] Pode ser uma ótima arma nas mãos de quem souber ouvi-lo e cantá-lo. Quem faz a disputa não é ele, somos nós mesmos, é a nossa intenção.

Como definirias o Samba de hoje, do século XXI, que, creio, trazes na tua musicalidade e como vês a sua existência em Portugal?
LA: O samba do século XXI é uma fonte de sabedoria ancestral sobre quem somos, de onde viemos e como chegamos até aqui, para os brasileiros. Em Portugal ele ocupa um espaço diferente. Por um lado, por mais que o Brasil seja um país próximo (alguns dirão “irmão”), ele é um ritmo estrangeiro, exótico, com o qual a generalidade dos portugueses terá uma relação afetiva muito diferente do que os brasileiros têm, e muito ligada a estereótipos superficiais (o carnaval, a mulata, a festa, e pouco mais). Por outro lado, esse lugar de estrangeiro confere a ele uma “aura” especial — não é algo que se dê de barato, que se encontre em qualquer esquina. E isso nos dá a nós, músicos, uma margem maior para fazer dele o que quisermos, subvertê-lo, recortá-lo, transformá-lo, sem sentirmos tanta resistência, ou estranhamento do público. Minha abordagem pessoal é tentar tirá-lo do lugar do estereótipo e da música feita de imigrantes para imigrantes, no imaginário dos portugueses. Porque ele tem potencial para ser muito mais.
O Samba é, sem dúvida, muito mais e tão rico. Basta não ficar preso e abrir os horizontes do nosso ouvido, da nossa pele.

Luca és Samba e que ritmos mais?
LA: Depende do dia. Hoje acordei querendo ouvir Brega. Ontem foi Grunge. Anteontem foi Mozart. Amanhã não sei!

Uma pergunta talvez ambiciosa. Como apresentarias, de disco para disco, a tua evolução discográfica, para quem possa não conhecer o teu trabalho? De 2014 até hoje… É uma pergunta que desafia a capacidade de síntese literária.
LA: Disco zero: Livro de Reclamações — um disco que nunca se decidiu se é um disco ou um livro. Disco um: Tipos que tendem para o silêncio — um disco que não tem palavras, porque eu ainda não as conseguia tirar dos livros e meter nas canções. Disco dois: Bandeira — o disco onde enfim me assumi como um cantautor, e assumi o samba como a minha linguagem mais presente. Disco três: Conversa de Fila — uma continuação natural do Bandeira, mais carregado no bom humor. Disco quatro: Samba de Guerrilha — uma tentativa de definir o que é para mim o samba e o que ele pode vir a ser.

Histórias que intercalam músicas. Personagens vários. Canções que interligadas contam uma história. Uma narrativa consistente. Narrativa que foca o homem, seus conflitos. Um trabalho a várias mãos e vozes.
Samba Opera, um braço da Rock Opera popularizada por Peter Townshend (The Who) com “Tommy” (1969). Um conceito obrigatório que muitos conhecem, provavelmente, sem saber.

“Samba de Guerrilha” é Samba Opera de Luca Argel. “Samba de Guerrilha” é uma aula indispensável.
Na narrativa “conhecemos histórias e personagens do combate ao racismo, à escravidão e às desigualdades.” Na música “um samba que está permanentemente a testar os limites das suas possibilidade musicais, um samba reinventado, electrificado, nascido a um oceano de distancia da tradição.”

Este poderoso trabalho é história política centenária do Samba ou é um conjunto de episódios da história do Brasil, com música, que juntos formam a narrativa “Samba de Guerrilha”? É possível separar o samba destes episódios da história ou são indissociáveis?
LA: São completamente indissociáveis. O samba sentiu as consequências de cada um desses episódios históricos. O seu próprio nascimento foi condicionado pela história, pelas escolhas políticas de governantes brasileiros e portugueses ao longo de séculos.
E aqui temos pano para mangas para uma outra conversa… Creio que um dia nos sentamos, de novo, para um bate-papo sobre história do samba.

… as histórias que o samba conta abrem frestas no pensamento, fendas nos muros… lutar nota a nota até virar o jogo”. A música, o Samba aqui falado com sua Poesia, foi é e será sempre uma das armas contra qualquer forma e cor de ditadura e de opressão?
LA: Ao invés de dizer que ele “é” eu prefiro dizer que ele “pode ser”. Pode ser, porque no passado já foi, por necessidade, como estratégia de sobrevivência, até. Mas não é algo automático, não acho que o samba hoje seja necessariamente sinônimo de resistência. Mas pode ser. Pode ser uma ótima arma nas mãos de quem souber ouvi-lo e cantá-lo. Quem faz a disputa não é ele, somos nós mesmos, é a nossa intenção.
A resposta exactamente como eu esperava que fosse.

Cinco anos de investigação e maturação até chegarmos aqui, a esta obra, que nos prende da música à palavra, da história ao ritmo. Idealizar e concretizar este trabalho, hoje, era mais urgente que nunca para que a história não seja esquecida e repetida? Era a hora certa?
LA: Infelizmente, de 2016 pra cá, qualquer hora seria a “hora certa”. Têm sido anos de um retrocesso civilizacional brutal. Que bom seria se esse meu projeto tivesse envelhecido, ficado datado. E que bom será quando ficar. É estranho dizer isso, mas o objetivo final do “Samba de Guerrilha” é a sua própria obsolescência. Porque enquanto houver racismo e desigualdade, ele continuará fazendo sentido.

Não podemos ficar “durumindo” e a “cangoma” jamais pode parar, certo?
LA: Jamais!

Um trabalho de versões implica a escolha das mesmas. No processo e critério de escolha dos Sambas aqui presentes: Como se consegue na vastidão musical politica do Samba chegar a estes específicos? Dura escolha ou natural para quem conheça bem a história do Samba, do Brasil?
LA: São sempre duríssimas as escolhas! Até porque eu não tinha à minha disposição todo o repertório que poderia querer usar. Houve duas músicas, por exemplo, que não pude incluir no álbum porque não consegui autorização do compositor. Mas os critérios eram, basicamente, dois: primeiro, tinham que fazer sentido dentro da narrativa. Há muitos sambas de cunho político que, por mais que eu ame, não ajudariam tanto a contar a história. E segundo, tinham que despertar a minha imaginação para um novo arranjo. Há sambas que eu considero tão perfeitos no registo original que não me atreveria a reinterpretar. Alguns do Candeia, por exemplo. Já outros, como o “Almirante Negro”, sempre me despertaram uma certa vontade de experimentar, de imprimir neles a minha leitura.

É estranho dizer isso, mas o objetivo final do “Samba de Guerrilha” é a sua própria obsolescência. (…) enquanto houver racismo e desigualdade, ele continuará fazendo sentido.

Em todos os teus trabalhos há sempre uma clara preocupação com a edição gráfica, com o envelope que envolve a tua música.
Com este trabalho anuncias ir ainda mais longe. Não nos vais dar um comum CD, um livro-audio ou um renascido Vinil, mas sim um Jornal Ilustrado com todos os textos publicados na integra e com todas as canções. Uma edição que reúne música, narração, ilustração e poesia.

Arrisco perguntar se a escolha do formato pode ser lida como uma alusão à liberdade de imprensa e à união das artes para um bem maior: a história de um povo que é “do tamanho do seu sonho” de liberdade, da tolerância, da representatividade…
Porquê este formato ambicioso? Inovação apenas ou também mensagem?

LA: Sim, sempre tive essa preocupação porque hoje em dia, onde o consumo de música acontece maioritariamente via streaming, a edição física de um álbum passou a ocupar outro lugar. Para que haja interesse em comprá-la, é preciso que ela seja muito mais que um invólucro. Há quem lamente isto, esta redução do CD ou vinil a uma condição quase que de “souvenir” para o público em geral… Mas podemos pensar também que as edições físicas, aposentadas da tarefa de suporte principal da música, ganharam total liberdade para se apresentarem em formatos inusitados — e inclusive de prescindir da mídia CD/vinil, se for o caso. E é o caso deste jornal. Confesso que não me ocorreu a alusão à liberdade de imprensa, mas acho que é uma leitura brilhante. Vou passar a usá-la também como justificação desta escolha!

Para terminar, Fernando Pessoa dizia que faltava cumprir-se Portugal. O que falta ao Brasil do teu samba e ao teu samba?
LA: Ao Brasil, pelo contrário, falta descumprir-se. Tomando emprestado o pensamento do professor Luiz Antonio Simas, o problema do Brasil não é que ele deu errado, é que ele deu certo. Para um país cujo plano era ser um empreendimento colonial de espoliação de recursos naturais, de genocídio dos povos nativos, de exploração da força de trabalho de muitos em benefício de uns poucos, o Brasil cumpriu-se, e cumpriu-se bem até demais. Agora nos cabe descumpri-lo e contrariá-lo tanto quanto pudermos. Já ao meu samba o que falta nesse momento é só poder voltar aos palcos, mais não peço.



“Samba de Guerrilha” é o quarto álbum de Luca Argel a ser editado no próximo dia 17 de fevereiro. Dele, já pode ouvir os dois singles:
“Almirante Negro” – “A escravidão foi abolida no Brasil em 1888. Ainda assim, 22 anos depois, marinheiros negros empregados na marinha brasileira ainda eram tratados como dantes: soldos miseráveis, comida má, e indisciplina punida com chibatadas nas costas. Um dia, esses homens resolveram dar um basta. Baseado na história da Revolta da Chibata, e na canção ‘O Mestre-Sala dos Mares’, escrita 50 anos depois por João Bosco e Aldir Blanc, em homenagem aos marinheiros negros amotinados — canção que viria a ser censurada pela ditadura militar — este video mistura fatos com fantasia, esta regravação e seu clipe celebram a bravura daqueles marinheiros.


“Pesadelo” – “Cansados de tentar driblar a perseguição da censura às suas letras de músicas, usando códigos e senhas para disfarçar mensagens, os parceiros Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós resolvem abrir o jogo e escrever uma canção que revelasse abertamente tudo o que pensavam sobre o regime autoritário que viviam no Brasil da década de 70. Por uma distração dos censores, a música surpreendentemente acaba sendo aprovada e gravada — mas assim que o deslize é percebido, volta a ser proibida. Esse curto período de tempo foi o suficiente para que ‘Pesadelo’ atravessasse o Brasil e chegasse aos ouvidos dos guerrilheiros que lutavam no norte do país, contra o regime, por uma revolução socialista. Transformou-se no hino da Guerrilha do Araguaia.”

Todavia, a audição completa deste “Samba de Guerrilha” é necessária e inevitável para se entender não só o género Samba Opera, mas toda a narrativa que Luca Argel nos apresenta com, e.g., a narração na voz de Telma Tvon, entre outros convidados especiais, que tornam este projecto tão singular.

A ter de ouvir, com toda a atenção. Um Jornal Ilustrado a ler, sem hesitação. •

+ Luca Argel
+ Luca Argel – Bandcamp
© Fotografia: Kristallenia Batziou.

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