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2011 – 2021 ou a primeira década Mirabilis da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo

Iniciar, há dez anos, um projecto com um vinho branco, no Douro era, no mínimo, arrojado. O desafio tornou-se maior com a procura das vinhas plantadas em solos de granito e a selecção criteriosa da matéria-prima. Seguiu-se o tinto produzido através de um rigoroso processo de enologia. Tudo em nome de uma referência vínica que se quer por mais dez anos.


O ano de 2011 regista a primeira colheita Mirabilis, referência vínica da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, propriedade vinhateira, de 120 hectares, da família Amorim em Covas do Douro, situada na sub-região do Cima Corgo. Para contar a história sobre este vinho, é preciso recuar a 2007 e 2009, aquando da ida de Luísa Amorim, representante do negócio do vinho, e Ana Mota, responsável pela equipa de viticultura, desde 2001, e Jorge Alves, com a tarefa de supervisionar os passos dados em função da enologia, à mais emblemática feira internacional do sector do vinho e a uma das ilustres regiões vitivinícolas mundiais. 


“Estas viagens valeram muito a pena, porque o Douro estava muito fechado”, explica a nossa anfitriã da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo. Ao contrário do que seria de esperar, a maioria das provas abrange referências vínicas brancas. “Provamos vinhos brancos fabulosos que despertaram curiosidade à equipa”. Dois anos mais tarde, em 2009, o destino é a mui afamada região francesa da Borgonha. “Saímos de lá com imenso know-how”, porque “se há pessoas no mundo que percebem de barricas são os franceses”


No regresso a Portugal trouxeram a mudança na bagagem e a vontade de produzir vinho branco a partir de uvas do Douro. Sem castas brancas plantadas nos 85 hectares de vinha plantada em terraços desta propriedade duriense, recorreram a produtores da região, daí que “o Mirabilis nunca tenha tido uma filosofia de terroir e foi difícil explicar isso às pessoas”, esclarece Luísa Amorim. 


A procura por vinhas de altitude e em solo de granito, e “com pedigree, levam Ana Mota a palmilhar o Douro até encontrar três parcelas de vinhas velhas com castas autóctones na zona de Sabrosa e Alijó. O trabalho cirúrgico supervisionado por Ana Mota centra-se na selecção de vinhas e de videiras. “É um trabalho de filigrana”, compara a responsável da área da viticultura da Quinta de Nossa Senhora do Carmo. A escolha recai nas variedades Viosinho e Gouveio, às quais se juntam uvas de vinhas velhas. Os agricultores, que “já sabem o que vão produzir e o que nós queremos” recebem assistência técnica ao longo do ano.

Do ano de 2011 surge no mercado, mais tarde, o Mirabilis tinto feito a partir de castas tintas colhidas na vinha da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo. A Tinta Amarela é a casta eleita a par com vinhas velhas existentes no vale da propriedade da família Amorim. 

A selecção dos lotes das barricas é outro dos requisitos a ter em conta na feitura do Mirabilis. A intervenção feita no processo de vinificação é, segundo Jorge Alvez, enólogo da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, “cada vez menor”, com o intuito de não desvirtuar as características das castas nem a influência das oscilações climáticas registadas em cada ano. Na verdade, as oscilações registadas com base nas provas das colheitas de 2011 a 2019, do Mirabilis branco, e de 2011, 2013, 2017 e 2019, do Mirabilis tinto, comprovam a inexistência de “fórmulas” na adega, permitindo que a influência do clima nas castas e aos atributos destas se expressem em cada colheita, ou seja, “para deixar o vinho falar por si”.


Ana Mota evidencia, por sua vez, a sintonia presente entre o trabalho de viticultura e o de enologia. Sempre com uma perspectiva de futuro, seja com base nas provas feitas fora de portas e com vinhos de outras regiões do mundo – as quais continuam a realizar, no sentido de aprofundar conhecimento –, seja na imperativa acção de deixar o vinho evoluir em garrafa. Este é outro dos padrões associados à mudança, que Luísa Amorim frisa, sobretudo em relação ao que vindo a acontecer mercado vitivinícola, com ênfase na “questão de haver mais brancos do que há dez anos”.


E porque o vinho é uma das melhores companhias que se pode ter durante a refeição, acresce a necessidade do vinho acompanhar as mudanças a acontecer na alimentação e, por conseguinte, no próprio restaurante desta propriedade duriense. 

Membro da Relais & Châteaux, desde o passado mês de Abril de 2021, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo tem, agora, o seu Terraçu’s Winery Restaurant. A alteração do nome está associada aos terraços ou socalcos típicos da paisagem vinhateira do Douro e, particularmente, à vinha centenária de sete hectares da quinta. A sala de jantar, instalada na casa oitocentista, património edificado que, desde 2005, “acolhe” a Winery House da propriedade, e destinado aos prazeres epicuristas é, também, o primeiro restaurante slow food da mais antiga região demarcada do mundo. 


Na cozinha está o jovem chef duriense André Carvalho, autor da carta representativa da viagem gastronómica pela região, em resposta às exigências da Relais & Châteaux. Truta fumada e malguinha de alho francês são algumas das sugestões para as entradas, seguidas do polvo cozinhado a baixa temperatura, da galinha do mato ou do lombo de vitela de pasto transmontano, entre os demais pratos da lista elaborada a par com Jorge Alves, para deixar a comida “rimar” com os vinhos. É de acrescentar o pudim Abade de Priscos alinhado com outras propostas tentadoras. Além dos menus de degustação – um de três e outro de cinco momentos – e das respectivas harmonizações – constituídas por quatro e seis vinhos – sugeridas pelo enólogo.


De salientar, ainda, o trabalho minucioso de André Carvalho e da sua equipa de cozinha no que à técnica e à estética diz respeito, para desfrutar, se assim preferir e a partir de sexta-feira, dia 30 de Abril, sob a ramada de videiras, no exterior, com vista para o pomar e os magnificentes terraços cravejados de vinha, onde pode degustar sossegadamente um copo de vinho, já agora, de Mirabilis branco ou tinto da colheita de 2019, que já se encontram disponíveis no mercado.

Brindemos!

+ Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo

© Fotografia: João Pedro Rato

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