Produção, Criatividade, Palcos. Qual o futuro da cena musical? / Nuno Sarafa

Nuno Sarafa, baterista, da cidade Invicta que troca o Porto por Lisboa, para viver… Mas houve algo que ele não trocou junto com a mudança de cidade: a sua paixão pela percussão que o leva a ser nome merecidamente respeitado nas lides certeiras dos ritmos ditados por um afinadíssimo set de bateria.

TOMARA; Joana Espadinha; Suzie And The Boys; Mafalda Veiga (convidado); Flak (convidado); David Fonseca (convidado desde 2014); Juntos (Sérgio Godinho e Jorge Palma – convidado); X-Wife; White Haus; We Trust; Best Youth; Thunder & Co.; Mirror People; There Must Be A Place; The Weatherman; Paulo Praça; Fat Freddy; Papercutz… E não, não colocámos todos os nomes/ projectos com quem Nuno Sarafa, senhor de uma imparável bateria, colaborou, colabora, fez e faz parte integrante daquilo que tão bem chega até nós: música de referência.
Na escolha dos nomes que poderíamos ter nesta série de artigos (se fosse gostaríamos a lista não tinha fim, mesmo sendo só músicos a viver em Portugal) o Nuno Sarafa tornou-se impreterível, imprescindível… A redundância é-lhe natural por direito. A bateria está-lhe no sangue e a sua reflexão, sobre os últimos meses na cena musical, é esta que agora apresentamos.

Se te pedisse para escolheres uma nota musical ou frequência hertziana ou um valor em decibéis para resumir estes últimos 12 meses, qual seria e porquê?
(NS):
Uma daquelas frequências muito agudas, que são absolutamente insuportáveis. Julgo que, de certa forma, representa o que foi acontecendo nos últimos 12 meses. Irritante, alta pressão.

Houve tranquilidade e disponibilidade – física e mental – para pôr em prática o que anteriormente te era quase impossível, como tirar projectos da gaveta ou reorganizar-te?
(NS):
No início do confinamento, até me soube bem retirar-me e descansar, acho que também estava a precisar de desligar um pouco. Penso que toda a gente estava. Depois é que as coisas pioraram, a falta de acção pode ser tramada. Quanto a projectos na gaveta, é raro ter disso, normalmente estou sempre envolvido em alguma coisa e raramente deixo coisas por fazer. A verdade é que acabei por continuar a trabalhar durante todo o período de confinamento. Trabalhei em três discos diferentes, escrevi bastante e toquei guitarra para espairecer.

Como encaraste e encaras os concertos em streaming? São de alguma forma um motor para se manter uma certa actividade, te sentires activo?
(NS):
Não encaro, sou, à partida, contra. Um espectáculo envolve uma grande equipa e quando fazes um concerto a partir do teu sofá estás normalmente a excluir uma série de pessoas que vivem e se alimentam porque fazem este trabalho. Se for uma produção em condições, quer para quem faz, como para quem assiste, e que envolva todos os músicos, técnicos e demais equipa com trabalho remunerado, nada contra. Só que isso apenas acontece nos Pink Floyd da vida. A nossa realidade é bem diferente.

Estás a desenvolver músicas ou produções para a nova temporada pós-confinamento que se avizinha? Se sim, podes levantar a ponta do véu?
(NS):
Sim, fui desenvolvendo durante o período de confinamento, porque, como já disse, praticamente nunca parei de trabalhar, embora com as limitações que todos conhecemos. Gravei um bonito disco com a Joana Espadinha, que sai em setembro, mas que já tem um single a rodar: “Ninguém nos Vai Tirar o Sol”. Estive ainda a fazer uma residência artística no Alentejo que rendeu praticamente um álbum completo com os Suzie And The Boys. Os primeiros temas estão quase prontos para serem apresentados. E entretanto também há-de sair música nova de TOMARA, alter-ego de Filipe Monteiro, com o qual gravei um disco, na minha opinião, muito interessante e cheio de boas ideias.

Como se organiza uma agenda com tantas incertezas e reagendamentos constantes? É exequível programar ensaios, concertos e tours a curto e longo prazo?
(NS):
A longo prazo é impossível, mas quem trabalha nesta área sabe que isso já era mais ou menos normal. Claro que é difícil organizarmo-nos num momento de tanta incerteza, mas temos de lutar pelo nosso trabalho. Portanto, não parar, continuar a produzir, continuar a marcar concertos parece ser o único caminho possível. Quanto ao resto, não podemos fazer nada, apenas adaptarmo-nos e resolver um problema de cada vez.

Sentes que a paragem forçada da cena musical transformou o olhar do público e a mesma passou, finalmente, a ser mais olhada como profissão e não como hobby?
(NS):
Essa questão dava para estarmos aqui uma hora a falar… Este tempo mostrou as fragilidades das profissões relacionadas com a cultura e os espectáculos; muita gente que levou anos a especializar-se viu-se obrigada a mudar de área; muitos centros de acção cultural a desaparecerem; uma tremenda falta de respeito da parte de quem tutela o sector e a necessidade que as pessoas têm de consumir cultura. Mas, infelizmente, essas mesmas pessoas vão esquecer tudo em pouco tempo. Vão continuar a achar que a cultura é um hobby e não uma profissão. Quem trabalha nisto é que vai continuar a ter um balão cheio de quase nada nas mãos. Nada que me espante.

Produção. Criatividade. Palcos. Como é a tua rotina de músico e como vês o futuro do teu sector a partir destas três palavras?
(NS):
As minhas rotinas estão sempre dependentes do volume de trabalho. E eu adoro trabalhar. Por isso, na minha opinião, a produção de obras e a criatividade têm de continuar em força, nem que seja como acto de resistência ou, utilizando uma palavra que parece que só se descobriu agora: resiliência – que sempre existiu no sector cultural. E os palcos são a minha vida, um dos poucos sítios em que me sinto completo, onde me desamarro.

Quão desafiante se tornou este último ano no teu percurso enquanto músico? Como geriste a falta física dos teus pares, ao teu lado? O que mais mudou na tua perspectiva sobre o teu trabalho?
(NS):
Uma das piores coisas deste último ano foi mesmo a falta do contacto físico com os meus colegas/amigos de trabalho. Estivemos sempre em contacto, mas à distância. E não é, de todo, a mesma coisa. Isso pode criar ansiedade. E criou. Ganhei ainda mais cabelos brancos. A única coisa que mudou na minha perspectiva é que as dificuldades que nos impuseram tornaram-me mais forte e com ainda mais vontade de resistir, criar, trabalhar. Mesmo com tantas limitações, dificuldades e obstáculos, honestamente, se tivesse mais tempo, ainda fazia mais bandas, mais música. •

+ Nuno Sarafa
© Fotografia: Nuno Sarafa por Vera Marmelo.

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