Produção, Criatividade, Palcos. Qual o futuro da cena musical? / Ricardo Jerónimo

Ricardo Jerónimo é-lhe certamente um nome bem familiar pelos incontestáveis independentes e reconhecidos Birds are Indie. Pássaros estes que o levaram a deixar a sua Arquitectura arrumada nas prateleiras e a trocar a régua e o esquadro pelas cordas de uma guitarra.

Há uns dez anos e troca o passo, a vida profissional de Ricardo Jerónimo deu um twistn’shout inusitado e a bem de todos os que gostam de uma indie pop – consolidada, tocada com a energia certeira e que fica retida no ouvido -, decidiu abraçar com a sua Joana Corker a música, deixando assim para trás a sua área de formação, a Arquitectura. Os dois criaram os Birds are Indie, a que se juntou, quase instantaneamente, o comparsa Henrique Toscano, amigo de longa data.
Com uma mão cheia de LP’s na algibeira – (um vinil acabado de sair dos Birds que traremos à conversa, aqui, brevemente) – mais umas primeiras incursões musicais gravadas e sempre junto com os seus parceiros de crime, Ricardo Jerónimo já marcou o seu espaço na cena musical onde, agora, na sua ligação oficial com a Blue House (BH) vai um pouco mais além de tocar, fazendo o agenciamento de bandas para a BH, trabalho que lhe dá um gozo enorme e lhe assenta como uma luva; ou não tivesse ele o dom da palavra para cativar o público, nos seus próprios concertos, e levar as bandas da BH a bons palcos e bom público. Do confinamento, acena-nos com novas experiências e aventuras sonoras. É com o Bird Jerónimo que hoje viajamos na memória recente de um músico confinado.

Se te pedisse para escolheres uma nota musical ou frequência hertziana ou um valor em decibéis para resumir estes últimos 12 meses, qual seria e porquê?
(RJ):
Eu sei lá, eheheh… De frequências percebo pouco… Decibéis gosto deles altos, mas tenho de ser consciente dos seus limites… Notas musicais não as sei escrever, só as tenho nos dedos e nos ouvidos. Posso ir ali pôr um disco e ficar a pensar um bocado nisso?…

Houve tranquilidade e disponibilidade – física e mental – para pôr em prática o que anteriormente te era quase impossível, como tirar projectos da gaveta ou reorganizar-te?
(RJ):
Disponibilidade de tempo até houve, mas a tranquilidade emocional (ou a falta dela) traz consigo grande relatividade à noção de tempo. Mediante a perspectiva de longos dias, semanas, meses com pouco para fazer (fez-me lembrar a infância, quando os três meses das férias de Verão pareciam nunca mais acabar), arranjei três estratégias que se foram complementando: 1) Fazer coisas em casa, muito práticas, como arrumar, reorganizar, limpar, que estavam há imenso tempo para ser feitas mas que ficavam sempre para depois; 2) Experimentar algumas ideias novas que tinha na cabeça, fora da esfera dos Birds Are Indie ou da Blue House, mas relacionadas com música, como compor/gravar um disco a solo e começar a fazer experiências com música para bandas sonoras, spots, teatro… 3) Aproveitar os tempos longos e apreciar manhãs na varanda a ler um livro ou o jornal, ver filmes, séries e documentários que se estavam a acumular, aprender a gostar de podcasts, ouvir discos com calma, caprichar na culinária do dia-a-dia, passear pelas ruas do meu bairro. Tudo coisas que a vida “normal” prejudica ou, pelo menos, leva para segundo plano, não me permitindo vivê-las de forma plena. 

Como encaraste e encaras os concertos em streaming? São de alguma forma um motor para se manter uma certa actividade, te sentires activo?
(RJ):
Encarei-os como algo válido para quem assim o queira, mas que a mim me diz pouco ou nada. Eu até gosto bastante de ver bandas a fazer sessões de música ao vivo, intercaladas com entrevistas, como fazem a rádio americana KEXP, o canal de televisão francês ARTE ou, em Portugal, o Eléctrico, o No Ar, ou a Porta 253. Mas um concerto, para mim, não é uma mera experiência musical e visual. O lado físico é muito importante. Sentir literalmente no corpo os graves do baixo, da bateria ou dos sintetizadores, e nos ouvidos a estridência das guitarras. Ver à minha frente o suor a cair da cara do vocalista. Estar rodeado de amigos a presenciar algo em conjunto, em comunidade, seja numa sala à qual vou regularmente, seja numa cidade ou país onde nunca tinha ido. Trocar palavras directamente com os músicos, os agentes, quem está na mesa de merchandise, os técnicos. Um stream, para mim, nem sequer é um paliativo para a falta de concertos, é um “produto” à parte. Legítimo e, eventualmente, complementar à experiência ao vivo, que é onde a vida realmente acontece.

Estás a desenvolver músicas/produções para a nova temporada pós-confinamento que se avizinha? Se sim, podes levantar a ponta do véu?
(RJ):
A nível pessoal, sim, como indiquei atrás, fiz um disco a solo, que estou ainda para decidir como/quando mostrar. Também já contribuí com faixas sonoras para pequenos vídeos promocionais. E actualmente estou a trabalhar na direção musical de uma peça de teatro da companhia Trincheira, que irá estrear em setembro. Vamos ver como consigo equilibrar isto com a esperada retoma dos concertos e das digressões, nos quais eu tenho trabalhado como músico e como agente.

Como se organiza uma agenda com tantas incertezas e reagendamentos constantes? É exequível programar ensaios, concertos e tours a curto e longo prazo?
(RJ):
Nesta fase estamos um pouco como estávamos em maio/junho de 2020. Ou se está a responder a convites e/ou reagendamentos para daí a poucas semanas, como se está a programar coisas para daqui a mais de 12 meses. A diferença em relação a há um ano é que agora estamos todos mais “escaldados” com os recentes avanços e recuos, pelo que por vezes o entusiasmo do regresso é suplantado pela cautela.

Sentes que a paragem forçada da cena musical transformou o olhar do público e a mesma passou, finalmente, a ser mais olhada como profissão e não como hobby?
(RJ):
Por acaso até acho que sim. Mesmo que pouco, penso que a realidade dos profissionais que trabalham na área da cultura/música ficou mais exposta e clara para muita gente que, em diversas iniciativas, se mostrou mais consciente e até solidária. Desde as pequenas coisas, como perceber que o preço de um bilhete é dividido por muita gente e não apenas “a banda”, ou que se calhar mais vale beber menos um gin e gastar esse dinheiro a comprar um disco ou t-shirt na mesa do merchandise. Mas também em ações como as promovidas pela União Audiovisual. E notei da parte do público a valorização do trabalho do músico (e de quem o rodeia), coisa que até podia antes estar subjacente, mas que agora é mais evidente. Mesmo ao nível do poder local ou de estruturas apoiadas/financiadas, percebeu-se a intenção de dar dinâmicas de (re)arranque a esta área. É sobre o que cabe ao Governo e à Assembleia da República, e que é mais profundo e de longo prazo, que continuo mais pessimista…

Produção. Criatividade. Palcos. Como é a tua rotina de músico e como vês o futuro do teu sector a partir destas três palavras?
(RJ):
A minha rotina não é muito fixa, pelo menos não durante muitos dias seguidos. Esse é um modelo de vida profissional que sempre achei que era o mais indicado para mim, apesar de poder ter também lados negativos, como a insegurança ou a incerteza. Não sou daqueles músicos que compõem ou gravam ou ensaiam todos os dias, por exemplo. A esse nível tenho fases. Mas claro que tenho uma série de tarefas/trabalhos que ao longo de uma semana ou mês vou fazendo regularmente quase todos os dias, desde responder a dezenas de emails, enviar propostas a promotores e apresentações de bandas, idealizar eventos, ensaiar, compor, gravar canções ou videoclips ou outro tipo de conteúdos, gerir redes sociais, preparar a logística de concertos e digressões, ir a outras cidades tocar, responder a entrevistas… É este conjunto de actividades que faz com que eu trabalhe apenas nesta área, não tendo como complemento qualquer outra profissão. 

Quão desafiante se tornou este último ano no teu percurso enquanto músico? Como geriste a falta física dos teus pares, ao teu lado? O que mais mudou na tua perspectiva sobre o teu trabalho?
(RJ):
Felizmente, a minha banda decidiu, em conjunto com a Lux Records, manter o plano de editar o nosso 5.º álbum em abril de 2020. Estávamos a assinalar 10 anos de história e isso não se repete, nem se espera para celebrar. Tudo à nossa volta parecia apontar para colocar as coisas na gaveta, mas essa decisão permitiu-nos manter alguma normalidade, tocar com alguma frequência até ao fim desse ano, fazer chegar a nossa música mais longe do que teria se calhar chegado num período “normal”. Muitos outros artistas optaram (ou foram obrigados pelas circunstâncias) por deixar os seus projectos em espera e acabaram por ficar um ano inteiro num “lodo” difícil de gerir… E quando eventualmente voltem a pegar nesses projectos, quando já houver um horizonte “seguro” e voltem os festivais, por exemplo, a sua própria criação já poderá parecer-lhes desajustada e feita quase numa outra vida… E isso para um artista é tramado. Portanto, como até fui tendo concertos (menos do que o normal, é certo), continuei a lançar discos (em CD e vinyl), a gravar videoclips ou sessões ao vivo, de uma forma ou de outra acabei por ir estando próximo dos ambientes e das pessoas com que costumo trabalhar. E, em Coimbra, ajudei à realização de uma série de ciclos de eventos no final de 2020, sob o mote “3 meses para o Futuro!” o que também me preencheu no sentido de estar a contribuir para manter uma série de coisas vivas. Alguns desses ciclos arrancaram novamente em maio de 2021, o que me dá alguma esperança. •

+ Birds are Indie
© Fotografia: Ricardo Jerónimo por João Duarte.

Já recebe a Mutante por e-mail? Subscreva aqui.

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.