Porque o rosé é a cor da estação

Marisco, bivalves, peixe, sushi e sashimi, saladas. Eis os pratos que rimam com o Verão, pretexto maior para fazer a harmonização com vinhos rosados destinados a apreciadores e enófilos mais exigentes, até porque casos há em que a produção se está a tornar um verdadeiro fenómeno. Brindemos!

Douro


Tinta Roriz, Touriga Franca e Tinta Francisca, castas autóctones do Douro, formam o trio de variedades de uva, com o qual é feito o Quinta Nova rosé 2020 (€12,80). Trata-se de um vinho pautado pelos aromas e notas florais e de bagas selvagens, frescura e acidez q.b., atributos que combinam com este Verão e que, por isso, apetece harmonizar com sushi e marisco. Sem esquecer os brindes à saúde, seja em casa, seja ao ar livre ou na Quinta de Nova de Nossa Senhora do Carmo. A história desta propriedade – pertencente à família Amorim e localizada em Sabrosa, no Douro – é contada há dois séculos e está associada à fundação da demarcação da região do Douro pelo Marquês de Pombal, em 1756. Pioneira na implementação de acções ligadas a o enoturimo no Douro, a Quinta Nova de Nossa Senhor do Carmo é, desde Abril de 2021, membro da Relais & Chateaux, tendo reaberto já as portas da sua Winery House, onde está instalado o seu Terraçu’s, com boas novas na carta e, por conseguinte, a experiências a (re)descobrir!


Começou por ser um ensaio, para se tornar um caso sério! Chama-se Quanta Terra Phenomena Pinot Noir rosé e este é da colheita 2020 (€25). Feito a partir de Pinot Noir vindimada no Planalto de Alijó, localizado na sub-região de Cima Corgo, no Douro, este vinho denota a complexidade da fruta vermelha característica da referida casta tinta, estrutura e um final prolongado. É para degustar em ambiente informal, de preferência com sushi, ostras gratinadas, caril de gambas e paella, segundo a recomendação dos produtores e enólogos Jorge Alves e Celso Pereira em casas durienses – o primeiro com trabalho comprovado e reconhecido na Quinta de Nossa Senhora do Carmo e o segundo enquanto espinha dorsal das Caves Transmontanas, onde ambos deram se conheceram e deram azo à palavra amizade, que prevalece desde a década de 1990. Tanto que, perto da viragem para o século XXI, decidem fundar o projecto Quanta Terra, detentor deste fenómeno.


Vinhos de Lisboa


A sensação de salinidade cruza-se com as ligeiramente frutadas deste 3000 Rosas rosé 2020 (€13,50), o vinho-homenagem de Nicholas von Bruemmer ao seu avô, Bodo von Bruemmer, o fundador do Casal Sta. Maria. Frutado, fresco e igualmente elegante, este rosé feito a partir das castas Touriga Nacional Pinot Noir e Syrah e elaborado pela dupla de enólogos Jorge Rosa Santos e António Figueiredo, é ilustrativo do acto romântico do impulsionador da produção vitivinícola nesta quinta, quando o mentor desta quinta localizada em Colares – umas das nove regiões demarcadas dos Vinhos de Lisboa e freguesia de Sintra –, mandou plantar três mil rosas em 1994, ano em que sua amada mulher faleceu. Fica o desafio para rumar ao Casal Sta. Maria e conhecer o jardim, visitar a vinha com vista para o mar e desfrutar das acções disponíveis no âmbito do programa de enoturismo.



Os contratempos na vinha causados pela acção do clima, sempre imprevisível, originaram a redução da quantidade de uvas tintas. Resultado: foi feita uma edição limitada a 554 garrafas do Quinta de Sant’Ana Merlot rosé 2020 (€26). São todas magnum. A decisão é determinada com base no sucesso registado com a mesma referência da colheita de 2018, e esta, de 2020, é feita a partir de uvas da casta Merlot de uma parcela pequena da Quinta de Sant’Ana, situada em Gradil, no concelho de Mafra, cuja história se traduz num conto romântico protagonizado por Ann e James Frost – alemã e inglês, respectivamente –, o casal de proprietários que deu vida a esta idílica propriedade vitivinícola integrada na região dos Vinhos de Lisboa, onde a influência do Atlântico, os nevoeiros matinais e as tardes quentes exercem grande influência na vinha, ladeada de floresta, e onde António Maçanita é o enólogo. É de salientar a vertente de enoturimo, constituída por cinco casas familiares e experiências imperdíveis!


Paremos em Torres Vedras, para experimentar o novo Quinta da Boa Esperança rosé Atlântico 2020 (preço sob consulta), vinho feito a partir das castas Touriga Nacional, Syrah e Castelão vindimadas na Quinta da boa Esperana, localizada na Zibreira. A sensação de mineralidade e a frescura são notórias no nariz, enquanto na boca prevalece a sensação de salinidade, característica associada à influência do Atlântico muito comum neste concelho pertencente à área geográfica dos Vinhos de Lisboa. Peixe, marisco e carnes brancas são recomendados na harmonização com este rosé feito pela enóloga Paula Fernandes deste projecto vitivinícola que vale a pena conhecer de perto. Acrescem as provas vínicas e as demais iniciativas integradas no programa de enoturismo.


Terminamos este roteiro pelo território vinhateiro dos Vinhos de Lisboa com Página Touriga Nacional rosé 2019 (€13,45), um D.O.C. Óbidos produzido na Quinta da Porto Nogueira, em Alguber, no concelho do Cadaval. Feito a partir das uvas vindimadas nesta propriedade, vinificadas sob a supervisão do enólogo António Ventura, este rosé deixa revela ligeiras notas florais características da Touriga Nacional que, na boca, “casam” com a frescura, a acidez equilibrada e frescura, atributos que anunciam a sensação de salinidade. Sobre a Quinta da Porto Nogueira, adquirida pelos actuais proprietários em 2004, pertence à Casa Romana Vini, negócio familiar, que inclui a elegante Wine & Country House, unidade de alojamento constituída pela Casa da Vinha e Casa do Vinho, ambas com vista para a vinha, bem como pela Casa Antiga, com a Serra Todo-o-Mundo a tomar conta do olhar. O casario, recuperado de acordo com o projecto de arquitectura de Tiago Silva Dias, está integrado no âmbito do programa de enoturismo da Casa Romana Vini e soma a sala de provas vínicas, a loja e a adega, além de actividades outdoor a descobrir.


Península de Setúbal


João Pires rosé 2020 (€3,99) representa a primeira versão em rosé feita em casa própria, isto é, sob a alçada da José Maria da Fonseca. Feito a partir das castas Moscatel de Setúbal e Touriga Nacional, este vinho concilia os aromas floral e frutado, graças à junção das duas variedades de uva. Na boca, predominam as notas florais e denota frescura, revelando-se uma óptima companhia nos dias de estio que se avizinha. Peixe, saladas e mariscos são as recomendações da equipa de enologia desta centenária casa vitivinícola, localizada em Vila Nogueira de Azeitão, no concelho de Setúbal que, no passado mês de Maio, abriu as portas do seu Wine Corner by José Maria da Fonseca, remetendo ao chef Luís Barradas a função de chef consultor. Ademais, é digno de visita o espólio da família Soares Franco acompanhada pela sua história, numa visita guiada pelos seus jardins e os recantos.


Alentejo


Aragonez e Syrah são as castas que fazem parte deste Guadalupe rosé 2020 (preço sob consulta), uma das boas novas da Quinta do Quetzal, propriedade vinhateira de Cees e Inge Bruin, casal de holandeses com grande ligação ao mundo da arte contemporânea. Os aromas a fruta vermelha e a frescura são notórios neste vinho vinificado sob a supervisão dos enólogos Rui Reguinga e José Portela. Apesar de estar pronto a beber, pode ser guardado por dois anos. Até lá, aproveite para conhecer esta quinta localizada na Vidigueira, experimentar as sugestões de pratos da carta, inspirados no receituário alentejano, no restaurante luminoso, com vista para a vinha e uma decoração brindada pelo colorido do painel de azulejo instalado na sala, ao fundo. Sem esquecer o espaço destinado às exposições artísticas, sempre com algo de novo, para descobrir.


Brejão, Zambujeira do Mar, Costa Vicentina. Eis o Vicentino Pinot Noir Naked rosé 2019 (€9,75), a novidade da Vinhos Vicentino, cujas vinhas estão em plena Reserva Natural do Sudoeste Alentejano. Feito a partir da referida variedade de uva tinta francesa – sobre a qual o enólogo Bernardo Cabral enaltecia, no ano passado, a sua delicadeza na vinha, exigindo um trabalho de viticultura muito rigoroso –, este vinho denota as propriedades desta casta, bem como frescura e uma leve sensação de salinidade, que se deve à proximidade do Atlântico. Eis os atributos indispensáveis para harmonizar com caldeiradas, entre outros pratos de peixe, já que a Pinot Noir, neste rosé, denota um potencial maior para combinar com receitas mais elaboradas.


Algarve


O Villa Alvor Singular Moscatel Galego Roxo rosé 2019 (€12) surpreende novamente! É um vinho monovarietal com um perfil aromático subtilmente predominado pelos frutos vermelhos associada à sensação de salinidade, na boca, devido à influência marítima da costa algarvia, e detentora de um final prolongado, que combina idealmente com pratos de marisco e bivalves. A Villa Alvor, instalada na outrora Quinta do Morgado da Torre, é o nome do mais recente projecto vitivinícola da Aveleda, desta feita, no Sítio da Penina, em Alvor, no concelho de Portimão. A propriedade de 80 hectares está situada entre a Ria de Alvor e a Serra de Monchique, tem loja própria e está a apostar fortemente no enoturismo.

+ Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo

+ Quanta Terra

+ Casal Sta. Maria

+ Quinta de Sant’Ana

+ Quinta da Boa Esperança

+ Casa Romana Vini

+ José Maria da Fonseca

+ Quinta do Quetzal

+ Vicentino

+ Villa Alvor

© Fotografia: João Pedro Rato

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