De volta à tradição vitivinícola algarvia / Morgado do Quintão

A condução em vaso na vinha, as castas autóctones, o lugar. A identidade da região mais a Sul do país está presente em cada garrafa. Os atributos imperam através do respeito pelo legado da família, pela arte de vinificar, pelo desafio de ir mais além, de fazer diferente. 


A oliveira milenar é palco de provas vínicas e das refeições servidas ao ar livre


Filipe Caldas de Vasconcellos fala sobre o sonho de produzir vinho, desejo concretizado em 2016, com a primeira colheita. Constituída por um clarete e um palhete, a estreia põe, no mapa vitivinícola do Algarve e do país, o nome da propriedade da família, situada no concelho de Lagoa, entre o Atlântico e a Serra de Monchique, em pleno barrocal algarvio, e com localização privilegiada pela envolvente bravia. 

A estrada, de terra batida, conduz, propriedade afora, até à casa principal deste lugar. “Sejam bem-vindos ao Morgado do Quintão”, diz-nos o anfitrião, assim que passamos o portão de acesso a esta propriedade de 60 hectares e com uma longa história iniciada por Francisco Manuel Pereira Caldas, em 1810. Trata-se do 1.º Conde de Silves, quando esta cidade era a antiga capital do Algarve, nos tempos em que o Rio Arade era palco de trocas comerciais. “O 1.º Conde de Silves ajudava, naquela altura, as pessoas que viviam na periferia, com quem fazia troca directa, ou seja, trazia as cabras, para pastarem aqui, na sua propriedade, e depois dava os queijos feitos a partir do leite dos animais a essas pessoas”, explica Duarte Riso, responsável pelo enoturismo do Morgado do Quintão.

Hoje, são os figos das figueiras, nas  traseiras do antigo lagar de azeite e armazéns adjacentes, da década de 1930, que protagonizam este lado da história. “Temos uma parceria com a Horta de São Bruno, que tratam das figueiras e, em troca da matéria-prima, trazem compotas e chutneys feitos a partir dos figos”, explica o nosso cicerone.

Castas autóctones, vinhas velhas


É vital o trabalho cirúrgico na vinha de Crato Branco


A apresentação é feita à medida que visitamos a vinha de sequeiro, de 13 hectares, cuja produção se baseia na sustentabilidade e no respeito pelo meio ambiente, já que há mais de quatro anos é usada a calda bordalesa em detrimento dos herbicidas e pesticidas. Está plantada em solo argiloso, calcário e predominantemente arenoso, onde as castas tradicionais desta região vitivinícola perduram há décadas a fio. 

Negra Mole, que ocupa sete hactares, é o primeiro nome da curta lista de variedades de uva desta propriedade, ou não fosse esta casta-rainha do Algarve, que toda a equipa do Morgado do Quintão quer preservar. Crato Branco – igualmente conhecida por Roupeiro, no Alentejo, ou Síria, no Douro – é a (única) casta branca a constar, para já, na vinha, ocupando ceca de quatro hectares, dos quais dois totalizam uma vintena de anos. Os restantes dois hectares desta equação têm oito décadas de existência e ainda estão plantadas segundo o sistema de condução em vaso, o que obriga a um trabalho cirúrgico na vinha, de modo a facilitar as vindimas futuras. Os dois hectares da casta tinta Castelão estão plantados junto à entrada da vinha.

Vindimar, vinificar, provar


A casta Negra Mole permanece com as cores que “ganha” na fase do pintor


Fazer vinho é uma arte inatingível para muitos, mas Joana Maçanita, a enóloga do Morgado do Quintão, tem o dom de respeitar a essência de cada casta e implementar o seu conhecimento na dose certa. Assim, do trabalho de vinha e de adega – desta feita, na Cabrita Wines, onde estão as cubas e as barricas do Morgado do Quintão –, resultaram vinhos, que evidenciam a versatilidade das castas e, por outro lado, combinam na perfeição com o receituário algarvio. “A relação especial que tenho com a Joana [Maçanita] leva a que este projecto tenha mais vinhos fora da caixa. Aliás, este projecto não seria o mesmo, se não tivesse aqui a Joana”, declara Filipe Caldas de Vasconcellos.

Frescura, sensação de salinidade, acidez e final persistente de boca são atributos comuns nos vinhos do Morgado do Quintão, quarteto de características que se deve à influência marítima e à protecção da Serra de Monchique em relação ao vento Norte. É o caso do Quinta do Morgado Crato Branco 2020 (€15) feito a partir desta variedade desta uva vindimada no talhão com 20 anos, um vinho marcado por uma acidez vibrante, perfeito para harmonizar com caldeirada de peixe.

O mesmo se pode afirmar acerca do Quinta do Morgado Vinhas Velhas branco 2019 (€18), elaborado com as uvas de Crato Branco colhidas na parcela de 80 anos, com maior complexidade aromática, mais elegante, acidez equilibrada, para acompanhar com peixe grelhado, ou sobre o Quinta do Morgado branco de Ânfora 2020 (€18), elaborado com a mesma casta branca, com maior sensação de mineralidade, devido à fermentação e estágio ocorridos naqueles recipientes de barro, atributos que combinam com a entrada composta por queijos de pasta mole e a sobremesa constituída por doces conventuais.

A frescura, a sensação de salinidade e a acidez são características que persistem com os vinhos feitos a partir das casta tinta Negra Mole, como o Quinta do Morgado Clarete 2019 (€15). Este néctar revela notas de frutos silvestres, nuances de pimentos e um toque de especiarias, que, à mesa, condiz com atum e picanha, peixe grelhado, sardinhas. No Quinta do Morgado Palhete 2019 (€15), a Negra Mole é combinada com a Crato Branco, resultando num vinho elegante a “casar” com peixe grelhado e marisco, bem como com a tradicional salada montanheira.

Já o Quinta do Morgado tinto de Ânfora 2020 (€22) resultou num vinho com notas de fruta vermelha compotada da Castelão equilibrada pela elegância e a acidez características da Negra Mole, conjugação de que fica bem com muchamba de atum, receitas de perdiz, doces conventuais. Quinta do Morgado Castelão 2018, ao qual se seguirá a colheita de 2019, mostra os atributos da Castelão, aqui com potencial de guarda, para guardar e servir, daqui a uns anos, com pratos de caça, borrego e cabrito.

Os rótulos e a arte


Os rótulos dos vinhos do Morgado do Quintão “respiram” arte


Teresa Pereira Caldas de Vasconcellos (1941-2017), mãe de Filipe Caldas de Vasconcellos, fora a proprietária do Morgado do Quintão, herança de sua tia-avó Theresa de Vasconcellos, cuja correspondência trocada com o caseiro de então, são acervo desta prezada casa.

Artista plástica, Teresa Pereira Caldas de Vasconcellos é pretexto maior para convidar artistas, para desenvolver rótulos do Morgado do Quintão Vinhas Velhas branco. A colheita de 2018 ostenta o cianótipo da autoria do fotógrafo Cláudio Garrudo, obra criada especificamente para este vinho. Ao mesmo tempo, foi apresentado o Quinta do Morgado Castelão 2017, com a fotografia da instalação de Teresa Pereira Caldas de Vasconcellos, intitulada “Sedução/Destruição”, apresentada em Boston, em 1993, no rótulo. 

O escultor Rui Horta Pereira foi o convidado seguinte. A imagem do rótulo do Vinhas Velhas branco de 2019 foi desenvolvida com base em desenhos criados sob o efeito do sol e da humidade. Do lado de Teresa Pereira Caldas de Vasconcellos, foi executado o rótulo do Morgado do Quintão Castelão 2018, a partir de um trabalho da artista feito em acrílico.

Em ambos os casos, o design esteve a cargo de Leonel Duarte.

Paralelamente a este desafio criativo, Filipe Caldas de Vasconcellos implementou um programa de residências artísticas no Morgado do Quintão, durante a Primavera e o Outono. O objectivo é promover a arte e a educação para a cultura, virtudes que urge preservar na sociedade actual.

Mais uva, arquitectura e casas


A cozinha regional algarvia é elaborada e, depois, servida da forma mais genuína


Em 2022, será plantada mais vinha no Morgado do Quintão. São sete hectares de terra a serem ocupados com mais castas típicas do Algarve, como a Negra Mole e a Perrum, além de outras mais comuns, mas que, nesta região terão certamente um perfil peculiar, como a Arinto.

Em projecto está a mini-adega destinada à feitura de edições limitadas, desenhada pelo arquitecto Manuel Aires Mateus, que será instalada no antigo lagar. Os armazéns contíguos darão lugar à futura sala de provas.

Para já, é junto a este casario do Morgado do Quintão, que diariamente são feitas as provas vínicas, com início às 16h00 (€25 por pessoa), sob a frondosa oliveira milenar rodeada pelo relvado, junto à vinha da propriedade, ou no interior da casa principal, que, juntamente com outras três casas, complementa a oferta de alojamento neste lugar idílico. Todas têm piscina privada e estão prontas para receber famílias até oito pessoas.

Mas a aposta no enoturismo não fica por aqui. O Morgado do Quintão mantém os portões abertos para os apreciadores da cozinha regional do Algarve e mediante reserva prévia. De segunda-feira a Sábado, é servido o almoço, enquanto os jantares têm lugar no alpendre da casa principal, à segunda, à quarta e à sexta-feira (€55 por pessoa, vinho incluído), das 19h00 às 21h30. 

No final, passe pela loja, para comprar vinho, entre outros produtos feitos em colaboração com o Morgado do Quintão, património da família, que Filipe Caldas de Vasconcellos se define como guardião, para as gerações vindouras.

É ir! Boas viagens!

+ Morgado do Quintão

© Fotografia: João Pedro Rato

[Foto de entrada: Filipe Caldas de Vasconcellos, proprietário do Morgado do Quintão, Raquel Pinto, responsável pela comunicação, e Duarte Riso, responsável pelo enoturismo]

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