RESTAURAR: as CASAS, com Antic Teatre II

Semolinika Tomic, criadora e sonhadora, bailarina e gestora, quem ocupou, com companhia, a 27 de Março de 2003, o Antic Teatre: antigo palácio que tinha uma sala de representações, mormente, fechado, abandonado e em ruínas.

É preciso saber que Semolinika Tomic, nascida em 1966 no país que foi a Jugoslávia, é o nome artístico de Julijana Tomic Fajdetic e que também se faz chamar Semolina, em lugar de Semolinika. É também necessário transmitir-vos a percepção que se formulou a partir da conversa que nos associou: uma torrente de vontade, crença e valores, potenciada por ideias claras e antigas, equilibrada por um riso franco, um sorriso doce e um olhar acolhedor. Lembro-me, muito bem, de Semolinika dizer, por exemplo, durante a tarde em que nos encontrámos: não, não tenho medo de morrer, o que se perspectiva numa condição de radicalidade perante a vida, a arte, as pessoas. Digamos que, para quem não tem medo de morrer, assim, as coisas são um pouco diferentes e podem, sem dúvida, assustar quem faz constantemente contas à vida. Porque, parece-me, existem duas formas antitéticas: aquela em que não se tem medo da morte, embora se possua consciência da nossa mortalidade, apenas o que acontece se relaciona com o saber que se pode perder tudo, quase tudo, num ápice, e enfrenta-se por isso a adversidade; aquela em que pura e simplesmente não se percebe que um dia a morte nos levará, não se tem a noção de uma finitude, logo, o mais das vezes age-se por delapidação, por incúria, por sobreposição. Semolinika é, portanto, uma resistente: atravessou a guerra, fez ziguezague ao punk que também criou, integrou La Fura dels Baus, é directora e fundadora do Antic Teatre, espaço de criação, apresentação e concepção existente desde 2003: 18 anos de abrigo, de casa. 

Na próxima ocasião que dedicarei ao Antic Teatre falar-vos-ei dos princípios que o norteiam, de como proporciona essas condições de criação com liberdade instintiva, do esforço encetado para florescer em tempos de sinais adversos; mas hoje gostaria mesmo de vos transmitir, com a maior precisão e da forma mais sentida, um perfil: Semolinika Tomic. Slavoj Zizek, em relação a Greta Thunberg, afirma que o mundo precisa mesmo de mais pessoas assim: ferozes na sua crença, obstinadamente crentes. Poderão ser de facto assustadoras, mas trazem nas mãos a promessa de um mundo diferente, e tal mundo é possível, sim: desde que apertemos as mãos e cerremos os dentes perante a delapidação e a incúria, ou melhor, perante o desespero que tal delapidação e incúria prometem, portanto, não sucumbir. Para tal, há que reunir esforços, tantas vezes mais semelhantes a fios invisíveis que ligam esses corações calcinados, da cor da antracite, porque macerados pelos sustos, pelos descaramentos, pelas maldades, pelas vinganças. 

No livro que me foi oferecido, 2003-2013. 10 Anys de l’ Antic Teatre, Semolinika, no texto que deixa como testemunho – “La cultura y el arte son las unicas herramientas para combatir el fascismo”, termina citando duas vezes Nikola Tesla e transcrevo a primeira dessas ocasiões, que tomo a liberdade de traduzir: “No dia em que a ciência começar a estudar fenómenos não-físicos (espirituais), a ciência progredirá mais em dez anos do que progrediu em todos os séculos anteriores. Todos temos de ter algum ideal que guiará o nosso comportamento e nos fará sentir realizados, mas não é material: não importa se é a fé, a arte, a ciência ou qualquer outra coisa, o que importa é que funciona como força imaterial.” 

Emmanuel Levinas bem afirma: “que o vazio do espaço esteja preenchido por um ar invisível – oculto à percepção, a não ser na carícia do vento ou na ameaça da tempestade –, não percebido, mas que me penetra até às dobras da minha interioridade – que esta invisibilidade ou este vazio sejam respiráveis ou que esta invisibilidade, não indiferente, me obceque antes de qualquer tematização, que a simples ambiência se imponha como atmosfera à qual o sujeito se entrega e se expões até às entranhas” … Foi este ar invisível que passou entre nós quando conversámos naquela tarde, e foi esse sujeito como “pulmão no fundo da sua substância”, para ainda invocar Levinas, que vi encarnado em Semolinika Tomic.

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