Taboadella e Quinta Nova, a excepcionalidade nos vinhos, no terroir, na natureza

A viagem vitivinícola foi feita à mesa da Villae 1285, a casa da propriedade vinhateira da família Amorim, no Dão, com regresso imediato à adega, edifício de traço contemporâneo, erguido junto à vinha, em Silvã de Cima, no concelho de Sátão.

Com os herbicidas postos de parte, há a tendência para implementar a biodinâmica, com base no ciclo da natureza e no respeito pelas castas tradicionais, ou seja, as que melhor se adaptam ao terroir da Quinta da Taboadella, propriedade vitivinícola localizada na sub-região de Castendo, pertença da Região Demarcada do Dão. Paralelamente, está em andamento o estudo centrado na produção integrada, com a sementeira de trevo e gramínea na vinha, no sentido de assegurar os nutrientes necessários às plantas. 

Sobre a mancha de vinha de 40 hectares, Jorge Alves, responsável pela equipa de enologia da Quinta de Nossa Senhora do Carmo, em Covas do Douro, e da Quinta da Taboadella, sublinha “a capacidade que o solo tem em drenar a água”, o que diferencia esta propriedade do Dão de outras existentes no país. Depois da aquisição efectuada em 2018, pela família Amorim, Jorge Alves fala sobre o ano de 2019, que ficou marcado por experiências, na medida em que se tornou necessário conhecer o terroir, as uvas, as castas. 

Para Jorge Alves, a Encruzado – casta bandeira do Dão e cuja plantação será aumentada de nove hectares para mais 1,5 hectares, no início de 2022, na Quinta da Taboadella – é a melhor variedade de uva do país, da Península Ibérica e quiçá do mundo, já que resulta em “vinhos profundos, estruturados, com uma mineralidade presente e uma acidez vibrante”.

As palavras advêm da prova feita ao Grande Villae branco 2019 (€38), vinho que reúne as castas Encruzado, Bical e vinhas velhas, colheita que resulta em 3.390 garrafas e as características referidas pelo enólogo também resultam das grandes oscilações de temperatura registadas entre o dia e a noite, durante os meses de Verão, as quais, associadas aos sete microterroirs existentes na vinha da Quinta da Taboadella, não põem em causa a acidez da casta Encruzado. “Estamos encantados com a Taboadella e com o que a natureza aqui nos dá”, frisa Ana Mota, responsável pela viticultura da Quinta de Nossa Senhora do Carmo e da Quinta da Taboadella.

Grande Villae tinto 2019 (€59), feito a partir das castas Alfrocheiro, Touriga Nacional e Tinta Roriz, vinho que reflecte o Dão no copo – e em 5.000 garrafas –, e serve de pretexto para se falar da ausência de rega na vinha da Quinta da Taboadella, a qual é determinante do ponto de vista de sustentabilidade.

Mas será que existe um perfil de vinhos no Dão ou essa decisão cabe ao produtor e/ou está associada ao terroir“Existem alguns perfis de vinhos que definem o Dão. A elegância, transparência, fluidez e estrutura ajudam nessa definição. Sendo uma região que se estende por uma área territorial muito extensa, os perfis vão alterando em função dos territórios. Se bem que o produtor tem sempre uma nuance a acrescentar ao vinho que cultiva. É sempre o binómio casta/território que tem a responsabilidade na forma como os vinhos se distinguem”, responde o enólogo.

Apesar da família Amorim estar a dar os primeiros passos no Dão, “há um desejo imenso de reavivar os vinhos desta região”, afirma Luísa Amorim, responsável pela área de negócios ligados ao vinho, do Grupo Amorim, para quem “há grandes quintas, com grandes oportunidades aqui na região”

Património vinhateiro no Douro

Prossigamos esta viagem vitivinícola em direcção ao Douro, para apreciar calmamente. Quinta Nova Referência P29 P21 tinto 2018 e Quinta Nova Referência P28 P29 tinto 2018 – 3.900 garrafas cada – são as boas novas desta propriedade vinhateira de Covas do Douro, na sub-região de Cima Corgo, cuja vinha de 85 hectares está enquadrada na área geográfica abrangida pela classificação de Património Mundial da UNESCO. “São vinhos que, para nós, aparecem em anos excepcionais, vinhos de parcela que ganham se fizerem maturação em garrafa”, explica Luísa Amorim.

A letra “P” representa a parcela em que são vindimadas as variedades de uva. A P28 representa a Tinta Roriz, a primeira plantação monovarietal desta variedade de uva, no Douro, entre 1979 e 1981, a par com as castas Touriga Nacional (P29), e Touriga Franca, por decisão do Ministério da Agricultura, através do Centro de Estudos Vitivinícolas do Douro, no sentido de eleger as melhores exposições solares para estudo. A P21 consiste na parcela onde está a vinha centenária. Sobre o Quinta Nova Referência P29 P21 tinto 2018, Jorge Alves faz questão de frisar que este vinho foi engarrafado em Março de 2020, “em pleno confinamento”, um desafio, que se traduziu num indicativo positivo, já que houve tempo para este tinto estagiar em garrafa.

Eis, então, que surge outra perguntas: os vinhos do Douro “pedem” tendencialmente mais barrica/balseiro ou há abertura para as cubas de betão? “Sim, é verdade que nos últimos anos a tendência foi o uso de barricas e balseiros para o estágio/envelhecimento dos vinhos do Douro. Novas ideias e novos gostos se aproximam. Temos em projeto o uso de depósitos em betão para os vinhos do Douro (com a reconstrução da adega da Quinta Nova), que deverá vinificar já na próxima vindima. Existe uma textura diferente nos vinhos que fazem estágio neste tipo de recipiente. Embora aromaticamente inertes, os depósitos em cimento parecem contribuir com notas subtis de aromas minerais (calcário), com sabores frescos e vibrantes, que contribuem para que os vinhos de contextos de produção de clima quente ganhem novas expressões”, responde Jorge Alves.

Aeternus tinto 2019 (€185) foi o senhor que se seguiu no alinhamento e já depois da estreia, com a colheita de 2017. Símbolo da preservação da obra de Américo Amorim, pai de Luís Amorim e grande impulsionador do grupo homónimo, dentro e fora de portas, este vinho é feito com uvas provenientes da parcela 23, vinha centenária. “É mais do que uma história da viticultura do Douro”, segundo palavras da nossa anfitriã. “É uma forma de eternizar uma vinha em garrafa”, diz Jorge Alves e de prolongar indefinidamente tão ilustre figura do mundo empresarial português.

Da mesma colheita e da vinha centenária, advém o Quinta Nova Vintage 2019, Vinho do Porto (€75) , num total de 1.477 garrafas.

Desta vez, perguntámos a Ana Mota sobre a diferença entre trabalhar uma vinha centenária e uma vinha mais recente. “É mais fácil trabalhar uma vinha mais recente. As grandes diferenças são: quando somos só técnicos, dá muito gozo trabalhar, quer uma, quer outra; quando somos técnicos-gestores, olhamos para as coisas com uma visão muito diferente. Os custos numa vinha centenária quadriplicam por quatro, cinco, seis vezes quando comparada a uma vinha normal e mecanizada. Numa vinha centenária, temos todo o trabalho manual. No caso da Quinta Nova, a nossa vinha centenária é lavrada e a aplicação de adubo é feita com o auxílio de cavalo e charrua – ainda hoje é assim –, com todos os custos inerentes, porque não entra o tractor. Fica muito caro! Além disso, tem um rendimento quatro vezes inferior a uma vinha normal.

Efectivamente, só vale a pena manter as vinhas centenárias, porque são um património que temos a obrigação de preservar e porque, consecutivamente, dá vinhos extraordinários! Não é à toa que, dos seus sete hectares, ‘tiramos’ um Aeternus, um P29, P28, um Vintage e um bocadinho de Mirabilis. Tudo o que ‘sai’ dali, resulta em vinhos icónicos. Uma vinha nova, mecanizada, permite-nos fazer o que queremos, numa perspectiva custo/benefício. Plantamos em função da mecanização, da mão de obra, que é cada vez mais escassa, e da produtividade.

Portanto, há aqui um racio e um binómio de custo benefício, que temos de equacionar num lado e no outro. Mas a vinha velha dá muito mais gozo, porque não a conseguimos controlar e temos de tentar mantê-la ano após ano! Há plantas que morrem e nós temos de as substituir. É uma grande dor de cabeça essas plantas vingarem, porque não a vinha centenária não tem rega, os acessos são difíceis, está num solo, que tem uma surriba muito diminuta – foi feita a pá e picareta, a 60 centímetros de profundidade. Enquanto numa vinha nova metemos uma giratória ou um buldozer e vai a dois metros de profundidade. Nós criamos o solo numa vinha nova – juntamos matéria orgânica, fertilizantes, fazemos a correcção de pH com calcário, ou seja, construímos uma vinha, enquanto na [vinha] centenária temos de manter tudo, o que é um desafio muito grande!”

Villae 1285, uma casa de férias no Dão

Vinho à parte, é de salientar a Villae 1285, a casa da Quinta da Taboadella, erguida das ruínas de outrora. Constituída por oito quartos e com capacidade para 20 pessoas, é a opção ideal para férias em famílias ou de amigos, já que está implementado o aluguer integral, com pequeno-almoço incluído e serviço de boas-vindas. Este consiste num cabaz de produtos de mercearia ao dispor dos hóspedes durante a estadia. Disponíveis, mas reservados a contas extra, estão o serviço de babysitting e as refeições elaboradas a partir de menus pré-estabelecidos, em parceria com empresas de catering da região. Segundo Luísa Amorim, “trata-se de um privilégio das pessoas usufruirem da quinta como se fosse a sua casa no Dão”, cuja abertura será anunciada quando estiver tudo pronto, para receber hóspedes.

A boa nova estende-se à Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo e, consequentemente, à Winery House, membro da Relais & Châteaux. Luísa Amorim quer estabelecer uma ligação entre a propriedade vinhateira da família Amorim, localizada em Covas do Douro, e a Quinta da Taboadella, por forma a estabelecer uma ligação às duas regiões demarcadas e impulsionar simultaneamente o enoturismo no Dão, actividade complementada com a Winehouse e a loja, abertas diariamente.

Brindemos!


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© Fotografia: João Pedro Rato

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