A Adega urbana Belém tem vinhos novos para levar

Maceração Diabólica, Sem Bigode, Senhor Rita, Rabo de Rainha. Os nomes são sugestivos e até há uma explicação para cada um, mas o melhor é conhecer Catarina Moreira e David Picard, no n.º 8-9, da Travessa Paulo Jorge, naquela freguesia da cidade de Lisboa.


A duas ruas paralelas ao Rio Tejo, fica a Adega Belém. Esta adega urbana é concretização de um sonho de Catarina Moreira, portuguesa, com Doutoramento em Biologia – a respectiva tese foi sobre a comunicação das rãs, figuras espalhadas por recantos do centro de vinificação, nas barricas, nos rótulos dos vinhos –, e David Picard, alemão – foi Professor de Antropologia na Universidade Nova de Lisboa e Professor Catedrático na Universidade de Lausanne, na Suíça –, cuja história começa a desenrolar-se depois do mestrado em Viticultura e Enologia, no Instituto de Agronomia (ISA) de Lisboa e, em 2013, em Geisenheim, na Alemanha, decidiram ir para a aquele país da Europa Central.

Na Suíça, Catarina Moreira aprofundou conhecimento na área de Enologia, ao trabalhar numa adega em Sion, capital de Provins, e David Picard foi docente na Universidade de Lausanne e desenvolveu um estudo sobre enoturismo, projecto que conduziu ambos a viajar pelo mundo. “Ficámos a saber o que fazer e o que não fazer” em relação ao turismo ligado ao vinho e, lá está, a materializar o sonho de ter uma própria adega.


O espaço físico está instalado numa antiga oficina de automóveis, que, depois de reformular os interiores, transformou-o no centro de operações, ou seja, numa adega oficial, que, a 19 de Maio de 2020, abriu as suas portas e, mais tarde, recebeu a primeira vindima. “Todas as pessoas vieram às janelas ver o que se passava, porque viam as uvas a entrar aqui. Até houve quem perguntasse se eram mesmo uvas e se podiam provar”, conta Catarina Moreira, na sala de provas, com a parede, acima do portão, decorada com ferramentas antigas de mecânicos, bem como uma gelha de um carro de marca francesa e de um telefone da década de 1980.

Aqui também está a loja, contígua à sala das cubas de inox e das barricas, e com as boas novas do portefólio da Adega Belém disponíveis para venda e certamente há-de receber as boas-vindas da Lilly, a mascote do casal.

Comecemos esta lista por uma novidade absoluta, o Adega Belém Arinto 2021 (€13,50). Feito a partir de uvas brancas vindimadas na vinha do ISA, localizado na Tapada da Ajuda, a cerca de dois quilómetros da Adega Belém, este vinho revela a acidez natural desta variedade de uva, bem como alguma complexidade, devido ao estágio de quatro meses em barrica. Definitivamente, é um vinho a guardar, até porque esta casta permite essa longevidade em garrafa.


Já o vinho branco feito a partir de Arinto, colhida na Quinta do Carneiro, em Alenquer, na região dos Vinhos de Lisboa – propriedade que quiseram conhecer depois de provarem um vinho produzido com uvas de lá – reflecte quão infernal foi a data da sua vindima. “O dia foi todo diabólico”, declara David Picard, desde essa manhã até ao momento em que decidiram levar apenas 600 quilos destas uvas, para a Adega Belém. Sem esquecer o processo de maceração, ao qual designaram de… diabólica.

Depois de cerca de dois anos em barrica e uns tempos em garrafa, eis o Adega Belém Maceração Diabólica Arinto 2020 (€18,50), um branco de cor oxidada, com uma complexidade aromática deliciosa e um final de boca guloso.


Adega Belém Moscatel Galego 2021(€13,50) é o branco que se segue a respeito das novas colheitas. As uvas foram vindimadas na vinha do ISA e o mosto foi submetido a três semanas de contacto pelicular, processo que adensou a componente aromática da referida casta branca. Junte-se a untuosidade q.b, reforçada pelo estágio em cubas de inox, onde as borras foram mexidas através do processo de battonage

Pet Nat Moscatel Graúdo 2021 (€13,50), cuja fermentação ocorre na garrafa, ou seja, quando os primeiros açúcares se transformam em álcool, é feito a partir desta casta branca colhida na Quinta do Piloto, graças à relação de amizade que Catarina Moreira e David Picard têm com Filipe Cardoso, o produtor e enólogo dos vinhos desta propriedade vinhateira localizada em Palmela. Devido ao engarrafamento precoce deste branco – realizada uma semana após a vindima –, a concentração aromática da Moscatel Graúdo está bem presente neste vinho, de cor naturalmente turva.


Já o recém-premiado Espumante Adega Belém Encruzado Brut Nature 2020 (€ 18,50), com “Medalha de Prata”, na Sessão de Espumantes do Concurso Mundial de Bruxelas 2022, que decorreu nos dias 1 e 2 de Julho, na região da Bairrada, é feito com a partir da casta branca Encruzado.

Esta casta foi vindimadas no ISA e, na Adega Belém, fez fermentação espontânea em cuba inox e a segunda fermentação em garrafa. Aqui, o estágio decorreu por nove meses e o dégorgement foi feito a la volée (sem agitar a garrafa, vira-se o gargalo para baixo e retira-se a cápsula com um movimento preciso, girando imediatamente a garrafa para cima, ao mesmo tempo que a pressão do gás expulsa os sedimentos).


Castelão, casta tinta vindimada na Quinta do Carneiro, foi a escolhida para o Adega Belém Sem Bigode rosé 2020 (€ 13,50). Depois de todo o processo de vinificação, o vinho foi submetido a 18 meses de estágio numa barrica com borras grossas de Moscatel Graúdo. “Começou a ser fermentado como sendo para o Senhor Rita, mas não deixámos ‘crescer’ o bigode”, explica David Picard em tom de brincadeira, daí o nome ‘Sem Bigode’ atribuído a este vinho, obtido por extracção, daí a cor apresentar-se mais escura do que a convencionalmente relacionada com um vinho rosé ao estilo Provence.

A Castelão, com a mesma proveniência, também é a variedade de uva utilizada na feitura do Adega Belém Senhor Rita Reserva Castelão (€15,50). É um vinho que precisa de tempo, para revelar os atributos desta casta, que, sendo da região dos Vinhos de Lisboa, possui características muito diferentes da mesma variedade de uva de outros territórios vitivinícolas do país. Quanto ao nome ‘Senhor Rita’, a explicação prende-se com o facto de David Picard ser alemão e, por isso, carregar no ‘r’ sempre que pronuncia ‘senhorita’.


Touriga Franca e Touriga Nacional são as castas que compõem o lote do Adega Belém Rabo da Rainha Grande Reserva tinto 2020 (€18,50). Ambas foram igualmente vindimadas na Quinta do Carneiro e conferem personalidade a este vinho, que à semelhança de todos os até aqui referidos, é altamente gastronómico. A abrir este Inverno ou guardar por mais tempo em garrafa. Sobre a designação ‘Rabo da Rainha’, o melhor é conhecer a Adega Belém in loco.


O cartaz das novidades para este ano ainda não fechou. Há a confirmação de um espumante feito a partir de Viosinho, a sair para o mercado, este Natal. O espumante rosé, feito a partir da casta Trincadeira, será apresentado em 2023 e na época natalícia de 2024 será a vez do Vinho de Carcavelos da Adega Belém. Este último é feito a partir das uvas vindimadas na Quinta do Seminário de São José de Caparide, em Cascais, na Região Demarcada de Carcavelos, pertencente aos Vinhos de Lisboa. 

“Foi um namoro difícil”, diz Catarina Moreira sobre o que tiveram de fazer, para conseguirem as uvas desta propriedade situada na Região Demarcada de Carcavelos. “‘Namorámos’ os padres todos, escrevemos, falámos, de padre para padre até chegar ao técnico agrícola”, até que, por fim, “comprámos as uvas todas, no ano passado” e esta “foi a primeira vez que fizemos a colheita de Caparide”. Como o Vinho de Carcavelos tem de ser fortificado na área geográfica pertencente à Denominação de Origem Carcavelos, a Adega Casal da Manteiga – centro de vinificação do Villa Oeiras (leia reportagem aqui) – abriu as suas portas às uvas compradas pela Adega Belém à Quinta do Seminário de São José de Caparide, até ao momento em que foi adicionado a aguardente. “O estágio está a ser feito cá.”

Até lá, provemos as boas novas sem ou com petiscos, na sala ou na esplanada, e visita à adega. Brindemos!


+ Adega Belém
© Fotografia: João Pedro Rato

Legenda da foto de entrada: David Picard e Catarina Moreira, os proprietários e enólogos da Adega Belém, e Lilly, a guardiã

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