Johnny Graham celebra meio século de vindimas no Douro

Por outras palavras, o produtor e enólogo portuense, de descendência britânica, comemora 50 anos dedicados às colheita de uva, para Vinho do Porto, na mais antiga região demarcada do mundo. 


Esta história remonta a 1 de Maio de 1973, já depois do seu regresso à sua terra natal, a cidade do Porto. “Entrei na Cockburn Smithe’s, para trabalhar na produção” de Vinho do Porto, com 21 anos, começa por contar Johnny Graham, proprietário e enólogo da Quinta da Gricha, propriedade vitivinícola situada em Ervedosa do Douro, freguesia de São João da Pesqueira, localizada na sub-região de Cima Corgo, no Douro. “Tive a sorte de trabalhar com John Smithe”, que vinha a Portugal duas vezes por ano: “uma era nas vindimas e a outra era para fazer a auditoria na sala de provas.” 

A primeira vindima de Johnny Graham é de 1973. “Foi um ano difícil, com muitas chuva”, afirma, mas o negócio ia de ‘vento em pôpa’ e, nesse ano, “fez 17 mil pipas” de Vinho do Porto, em contraponto com as dez mil até então, em adegas tradicionais do Douro. 

“Tinha de visitar 12 quintas”, para verificar a sanidade da vinha e da uva, os lagares e o estado dos tonéis. O meio de transporte era uma embarcação, “tipo um barco rabelo” e o Rio Douro era o meio de comunicação. Havia sítios quase pré-históricos”, descreve Johnny Graham, ou não fossem as suas margens ocupadas por vegetação ripícola totalmente selvagem. “Naquele tempo, era o único barco que passava por lá a cada três dias.” Napoleão era o nome do capitão. O restante percurso era feito a pé, até chegar à adega. 

A inexistência de electricidade levava a que se optasse por outras vias. A aguardente era transferida para o mosto, com o auxílio “de um caneco” ou de uma bomba manual, para fazer o Vinho do Porto. “Era duro. Era difícil!”

Com a construção da Barragem do Cachão da Valeira, em 1976, a descida do rio foi suspensa. “Fazíamos a visita na mesma, mas já íamos de jipe para baixo.”

Nesses tempos, a feitura dos lotes para o Vinho do Porto era diferente quando comparada com a actualidade. Eram personalizados, ou seja, “faziam-se lotes de acordo com o gosto de cada cliente de Inglaterra. Cada um tinha a sua própria ‘receita’.” Na verdade, era vendido a granel, para Terras de Sua Majestade, onde era engarrafado com a própria marca do cliente. “Agora já não é assim”.


O início de uma era e a Quinta da Gricha


Johnny Graham não só acumulou conhecimento, como se apaixonou pelo Vinho do Porto. Contactou Jorge Borges de Sousa, logo após deixar a Cockburn’s, em 1981, ano em que fundou a Churchill’s, o apelido da mulher, Caroline, com quem casou um ano antes, em 1980. Tinha 29 anos. Em 1981, logo na primeira vindima, Johny Graham declara ano Vintage.

Jorge Borges de Sousa, viticultor e fornecedor de Vinho do Porto, “tinha um stock enorme de Vinho do Porto”, tesouro que valeu a Johnny Graham a compra de 150 mil litros, que lhe permitiu avançar o seu próprio negócio.

Duas décadas depois, descendentes de Jorge Borges de Sousa decidiram ficar com o Vinho do Porto em casa própria, episódio, que obrigou Johnny Graham a virar a página do seu livro. Assim, em 1999, compra a Quinta da Gricha – e feita aqui a primeira vindima, da qual também resulta o primeiro Single Quinta Vintage da Churchill’s, o Quinta da Gricha Vintage Port 1999 –, que já tinha visitado em 1977, quando ainda trabalhava na Cockburn Smithe’s. 


Nessa década de 1990, havia a vinha, na parte inferior desta propriedade de 50 hectares, abaixo da casa, que estava em ruínas. Trata-se, hoje, de uma vinha velha, com aproximadamente cem anos. “É um field blend com muitas castas”, declara o proprietário e, que na colheita de 2014, foi vindimado para fazer o Quinta da Gricha Vinhas Velhas 2014 (€60), “um vinho com cabedal”, nas palavras de Ricardo Pinto Nunes, que, desde 2003, desempenha a função de enólogo da Churchill’s.


Em 2000 decide plantar mais vinha, designada de Talhão 8, onde planta Touriga Nacional. Esta variedade de uva deste talhão começa a ser engarrafado como monocasta a partir de 2016. Este ano empresta o seu nome à boa nova no portefólio vínico da família, o Quinta da Gricha Talhão 8 2018 (€45), sobre o qual Johny Graham afirma: “a parcela é que manda o que devemos fazer.”

As castas brancas são plantadas em 2007, com a ampliação da vinha – actualmente com 40 hectares –, duas das quais fazem parte do lote do Churchill’s Estates Grafite branco 2021 (€13,50). Este vinho é feito a partir de Rabigato e Viosinho, denota frescura e acidez. 


O Grichinha, nome carinhoso atribuído ao vinho pela família Graham’s ostenta, no rótulo, Quinta da Gricha tinto 2019 (€38). A redução do contacto pelicular resulta num vinho com um perfil ainda mais elegante, além de que tira maior partido da sensação de mineralidade, tão associada à Quinta da Gricha. “É tentar que seja um vinho mais apelativo”, acrescenta Ricardo Pinto Nunes.

Hoje, a Quinta da Gricha representa “um terço das nossas necessidades”, segundo Johnny Graham, em relação à produção de uva. A compra desta matéria-prima divide-se entre o Douro Superior ou o Vale do Pinhão, por exemplo.


“Um Tawny requer conhecimento e disciplina”


Apesar da mudança testemunhada pela passagem do tempo, o Vinho do Porto continua a ser a jóia da coroa de Johnny Graham, que refere as diferenças, no que à sua produção diz respeito. “Os Tawnies requerem uma disciplina muito grande”, porque é preciso reservar stocks todos os anos, com os quais ser refresca este estilo de Vinho do Porto.

Para o Tawny de dez anos, “usamos o LBV [Late Bottled Vintage] guardados por quatro anos em balseiro”. No entanto, “nunca se mistura um vinho velho com um vinho novo. É o vinho novo que se se mistura com o vinho velho”, adverte, como foi feito com o Churchill’s 40 Years Old Tawny Port, uma obra-prima da dupla Johnny Graham e Ricardo Pinto Nunes. 


“Fazer um Vintage, depende de uma boa matéria-prima”, explica o produtor. Foi o que aconteceu com o Churchill’s Vintage Port 1982. Esta relíquia foi produzida a partir de uvas vindimadas em vinhas velhas de três propriedades da região do Cima Corgo, na Região Demarcada do Douro: a Quinta da Água Alta, a Quinta da Manuela e a Quinta do Fojo, na altura pertencentes a Jorge Serôdio Borges.


A pisa a pé em lagares de granito continua a ser o processo recorrente na Quinta da Gricha, onde é produzido o Vinho do Porto, tradição levada a letra na Churchill’s. O objectivo é favorecer a oxigenação do mosto e, ao mesmo tempo, fomentar a fermentação prolongada, realizada apenas com leveduras indígenas, de modo a que o açúcar da uva resulte em mais álcool. Resultado? Todos os Vinho do Porto da Churchill’s são secos e menos doces do que a maioria destes generosos. 

Em suma, “um Vintage requer ter a qualidade certa e um Tawny requer conhecimento e disciplina”.

Brindemos!


+ Churchill’s
© Fotografia: João Pedro Rato

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