Livro: “Confissão”

Em boa hora, a Alêtheia Editores lembrou-se de fazer uma nova edição do livro que é o retrato melancólico da crise existencialista de Lev Tolstoi. Mas em má hora achou que uma revisão podia ser dispensada e aquela que é a obra mais autobiográfica do autor russo acaba maculada por gralhas, erros de pontuação e de tradução. Uma pena…

No final dos anos 1870, Tolstoi era já um autor consagrado, com fortuna pessoal, família constituída e estatuto social quando foi assolado por uma depressão existencial que o levou a procurar várias respostas para as dúvidas que lhe surgiram: “O que será do que faço hoje e amanhã?”, “o que será da minha vida inteira?”, “por que vivo?”, “o que se segue?”

O escritor, procura, então, através de uma série de atividades, encontrar estas respostas, partindo do princípio de que a vida é sempre uma grande maldade, porque o seu único resultado é a morte, seguindo os pensamentos de Sócrates, Schopenhaeur, Salomão e Buda. Numa escrita melancólica, Tolstoi questiona-se se o final da vida é inevitavelmente a morte, por que não matar-se logo e poupar-se, assim, a uma vida de sofrimento, doença e envelhecimento?

O abandono, ainda em criança, da sua fé ortodoxa; a falta de sentido na vida, após o sucesso pessoal e social e o reconhecimento dos seus pares; a dúvida quanto à sua própria capacidade para ensinar os outros (“era confrontado com o mesmo problema insolúvel de como ensinar sem saber o que ensinava”, afirma Tolstoi), leva o escritor a procurar respostas na ciência, nos seus pares, na filosofia e no conhecimento ocidental, sem encontrar conforto para o seu tormento, e que o leva quase ao suicídio. No final, Tolstoi encontra o seu caminho e as suas respostas, regressando ao mais básico da formação humana e a resposta acaba por revelar-se bem mais simples do que ele supunha.

Como já referi, é uma pena que este pequeno tratado filosófico e autobiográfico de um dos maiores escritores clássicos esteja totalmente manchada pelos erros ortográficos (facto manteve o ‘c’ com o novo acordo, e aqui surge, por vezes, sem ‘c’); erros de pontuação (o ‘à’ leva acento grave e não agudo, como aparece sempre) e de pontuação ((…) haverá. “e ri…”); além da má tradução (incompreensível, porque terá sido feita do inglês e não do original. “Tudo evolui e eu evoluo; e a razão pela qual evoluo junto com o restante um dia me será revelado”). Não há uma página que não apresente uma gralha, um erro e isso é lamentável, sobretudo porque se trata de uma obra clássica.

Valha-nos o prefácio do jornalista José Milhazes, escrito de forma irrepreensível, e fica-nos a pergunta: por que motivo não entregar-lhe a tradução do original, sendo ele fluente na língua russa?

157 págs / 12,90€
aletheia.pt