A arquitetura de “Him” de Maurizio Cattelan

Embora os centros de arte contemporânea promovam todo o tipo de experiências visuais, não têm como objetivo interferir na arte que promovem.

Independentemente das emoções que a obra em exposição possa criar, seja ela fascínio ou repulsa, o local onde o observador e a obra se encontram é quase sempre alheio aos sentimentos que promove. 

No entanto, existem quase sempre excepções a este tipo de regras, ou pelo menos foi a conclusão que cheguei depois de presenciar a influência que a arquitetura teve na criação de um momento único entre a obra e o observador.

A obra de arte em questão chama-se “Him”, que em português significa “Ele”, uma criação de Maurizio Cattelan. Era uma obra de que não tinha conhecimento, mas com a qual acabei por interagir muito devido à curiosidade que tenho vindo a alimentar em relação ao trabalho do artista.

Em novembro de 2008, durante uma breve visita a Londres, enquanto passeava pela Tate, deparei-me com uma obra de arte que consistia simplesmente em três braços colados a uma parede pelo ombro, fazendo a saudação nazi, como quem diz: “Heil Hitler!”.

“Que é isto?”, pensei. “Quem teve a ousadia de colocar isto aqui?” 

No entanto, quando me li o título da obra de arte, senti que a obra e o título tinham convergido numa peça única, criando uma emoção completamente nova no processo. 

O título da obra era “Ave Maria” e até então, nunca tinha observado um símbolo do fascismo ser virado do avesso desta forma. Ainda hoje, passados 20 anos, recordo-me do momento e da minha reação ao interagir com a “Ave Maria” pela primeira vez.

Um ano depois, em Sydney, tive a oportunidade de ver uma exposição de vários artistas contemporâneos no Museu de Arte Contemporânea. Embora tenha visto a exposição relativamente depressa, pois tinha outros pontos turísticos a visitar, a obra que mais curiosidade me tinha despertado tinha sido a réplica perfeita de um cavalo pendurado no teto.

Mais tarde, quando li o resumo da exposição, descobri que o cavalo pendurado era uma obra do artista Maurizio Cattelan. Uma reflexão sobre a transformação da energia possante do animal em inércia. Ao mesmo tempo, enquanto investigava online as obras do artista, apercebi-me de que a peça “Ave Maria” era também da sua autoria. Embora não estivesse completamente convencido do conceito de ideia como forma de expressão artística, não podia ignorar a forma inesperada como tinha interagido com essas ideias.

A maioria das obras de Maurizio Cattelan, senão todas, são fáceis de digerir. Todas elas são quase sempre réplicas perfeitas de objetos que facilmente podemos identificar. No entanto, embora muitos apreciadores de arte admirem a destreza das peças do artista, a verdade é que Cattelan é a primeira pessoa a admitir que as suas obras são encomendadas; ou seja, são executadas por outros artistas. A contribuição de Cattelan é meramente a conceptualização, no desenvolvimento das suas ideias, das quais resultam obras de arte. 

Esta abordagem na criação de arte já tem imensas décadas, mas tendo em conta a quantidade de artigos escritos sobre as suas obras, pode dizer-se que Cattelan é provavelmente o artista mais bem-sucedido neste estilo artístico. 

Uma vez apresentado o artista, chegou a altura de falar sobre “Him”. 

Em 2025, no centro de arte moderna de Estocolmo, deparei-me com a obra de arte “Him”. Se a peça “Ave Maria” serve como referência, convém esclarecer que, traduzido para português, “Him” não é necessariamente “Ele”. “Him” é o caso oblíquo do pronome pessoal “Ele” em Inglês. Talvez exista aqui uma referência perdida na tradução, no entanto, é do papel que a arquitetura tem na interação com esta obra que queria relatar aqui.

“Him” era uma estátua colocada numa das salas da exposição. A entrada no espaço estava condicionada. Com menos de um metro e meio de largura, de tal forma que a primeira interação com a obra de arte só podia ser feita como mostra a imagem abaixo.

Muitas vezes tentei recordar as emoções que senti ao contornar a estátua. Acho que o meu primeiro pensamento foi o de estar na presença de um jovem a ser doutrinado. A identidade do indivíduo “Ele” ainda não me tinha despertado curiosidade.

Uma vez contornado o indivíduo “Ele”, abaixo está uma fotografia da sua identidade.

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