José Crúzio no TAGV com A CASA_SÉRIE#1 / Coimbra

No Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, tem a oportunidade de percepcionar um complexo de Instalação Vídeo/Fotografia da autoria de José Crúzio. Permanece até ao dia 21 de Janeiro.

Para que servirá a arte? Questão imensa a que não temos a veleidade de responder aqui com foros de definição permanente. Nem podemos. Gilles Deleuze alerta-nos para a centralidade da sensação na arte. Mas, e é justo que demos espaço ao senso comum, variadas obras na actualidade colocam-nos perante a perplexidade da anestesia. Marcel Duchamp certamente sorri onde quer que possa encontrar-se: entre a Fonte e Étant Donnés instala-se um verdadeiro abismo e, cremos, um dos nós sensacionais a ser desembrulhado no contexto da arte precisamente deverá caminhar sobre esse abismo. Prazer ou dor? Prazer e dor? Uma golfada de sentidos ou a abertura especializada de um carreiro de pensamento reflexivo? Ou e?

Nunca se desconfiou tanto da palavra; Maria Filomena Molder a isso mesmo faz referência quando ensaia sobre Hermann Broch – ou seja, será mesmo possível mencionar palavras simples, fazer uso delas, quando a suspeita é por demais evidente? Broch cria que sim; é possível e precisamente mencionou-as. Nós também o continuaremos a fazer, à semelhança de Miguel de Unamuno: “Palavras, palavras, palavras, de que precisaríamos mais do que de palavras se fossem palavras de verdade.”

E em que é que esta introdução preliminar se relaciona com A CASA_SÉRIE#1 de José Crúzio? Relaciona-se na medida da sensação e não da anestesia. Relaciona-se na medida das palavras simples, que não trazem consigo mantos de cópulas autorais infinitas, apesar de se associarem a rastros de sentido. Sem dúvida, palavras-pele que querem dar conta da pungência das imagens que por agora se podem observar no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), em Coimbra. Originariamente pensado para integrar Os Jardins Efémeros, em Viseu, a obra mostra-se então em Coimbra e fá-lo num pequeno espaço do teatro requisito, desde logo, colocado pelo artista. Porque o registo da abordagem exige que se recolha, que se aninhe de alguma forma, que penetre nos interstícios da nossa percepção; que os corpos que nos são dados ver nos quatro vídeos façam corpo com o nosso.

A exposição desdobra-se: instalação vídeo (quatro vídeo-performances) e nove fotografias que correspondem a outros tantos stills, fragmentos congelados do movimento. O conceito e vídeo pertencem a José Crúzio; as performances cabem a Andrea Inocêncio, Romulus Neagu e Leonor Keil. Como se pode ler na folha de sala que acompanha o acontecimento, a “Casa é questionada. Tanto em conceito como em objetualidade. Desde um corpo, que nos transporta para todo o lugar e nos acolhe enquanto ser, ao habitáculo que fruímos para depois o transcender. Ou tornando-se, posteriormente, num repositório de memórias.” E é assim que nos imiscuímos nas imagens e estas, por sua vez, em nós.

Vemos corpos-pele-desejo de deserto, corpos-asa-desejo de voo, corpos-loucura-desejo de fusão ou corpos-memória-desejo ser trespassado. O corpo tanto é abordado no sentido da abstracção, paisagem interior esburacada; como se focam os seus limites constitutivos; ou ainda a interacção que estabelece com objectos de memória; para se deter ainda na relação com espaços arquitectónicos de densidade absoluta.

José Crúzio reside em Viseu, mas fez a sua formação artística em Coimbra, licenciatura em Pintura, Variante Artes Plásticas, e em Aveiro, onde concluiu o ano curricular do Mestrado em Criação Artística Contemporânea. Promete-nos novos trabalhos e, nós, por cá estaremos para nos deixarmos surpreender.

Pode, portanto, ver a exposição no TAGV, situado na Praça da República, em Coimbra, de Segunda a Sexta entre as 9:00 e 1:00 horas, bem como aos Sábados, Domingos e Feriados entre as 10:00 e as 2:00 horas. Até 21 de Janeiro.

+ TAGV
José Cruzio

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