O cinema morreu. Viva o cinema!

Uma reflexão sobre o estado actual da sétima arte

Há qualquer coisa de profundamente errado com o cinema dos nossos dias. Não sei exactamente quando começou a morrer, nem em que momento deixou de nos surpreender. Talvez tenha sido uma morte lenta, silenciosa, quase imperceptível, escondida atrás de milhões de dólares, efeitos digitais e campanhas publicitárias cuidadosamente construídas. Mas há uma certeza: o cinema já não é aquilo que foi.

Vivemos numa época em que parece existir uma enorme dificuldade em contar histórias novas. Hollywood recicla-se, repete-se, reinventa-se sem reinventar absolutamente nada. As sequelas sucedem-se, os remakes multiplicam-se, os universos cinematográficos expandem-se até à exaustão. Os mesmos super-heróis, as mesmas fórmulas, os mesmos finais previsíveis. Mudam-se os actores, mudam-se os cenários, aumenta-se o orçamento, mas a essência permanece assustadoramente igual.

Onde estão as ideias? Onde estão os realizadores que arriscam, que incomodam, que nos obrigam a pensar? Onde está aquele cinema que não tinha medo do silêncio, da imperfeição, da inquietação humana?

Entretanto, chegaram as plataformas. Netflix, e tantas outras, transformaram profundamente a forma como consumimos imagens. O cinema passou a caber num ecrã, num comando, numa aplicação. Tudo disponível, a qualquer hora, em qualquer lugar. Uma espécie de supermercado audiovisual onde as histórias se acumulam, se consomem e rapidamente se esquecem.

Não tenho nada contra a tecnologia, nem contra a possibilidade de democratizar o acesso ao cinema. O problema começa quando confundimos disponibilidade com qualidade, quantidade com criação e consumo com experiência artística.

O espectador tornou-se um consumidor. Já não vai necessariamente ao encontro de um filme; espera que o filme lhe apareça à frente. E, muitas vezes, nem sequer lhe concede o tempo necessário para o descobrir. Três minutos sem interesse? Muda-se de filme. Uma narrativa demasiado lenta? Procura-se outra. O silêncio tornou-se incómodo e a contemplação parece ter perdido lugar nesta sociedade permanentemente acelerada.

E depois existem as salas de cinema. Essas salas que conhecemos, com os seus corredores, as suas cadeiras, a penumbra e, por vezes, aquele inconfundível cheiro a mofo. Sim, até o cheiro a mofo faz parte da memória afectiva de quem cresceu a frequentá-las.

Lembro-me de um tempo em que ir ao cinema era um acontecimento. Havia uma expectativa, uma cumplicidade colectiva, uma espécie de ritual. Apagavam-se as luzes e, durante aquele período, o mundo exterior deixava de existir. Éramos todos espectadores de uma mesma experiência.

Hoje, muitas dessas salas lutam pela sobrevivência, enquanto o cinema doméstico se transforma numa extensão da nossa vida quotidiana. Mas nenhuma televisão, por maior que seja, consegue substituir inteiramente a experiência de estar sentado numa sala escura, perante uma imagem projectada, partilhando emoções com desconhecidos.

Talvez o maior problema não seja a tecnologia, mas aquilo que fizemos com ela. Perdemos a capacidade de olhar para o cinema como uma forma de expressão artística e passámos a tratá-lo demasiadas vezes como um produto industrial. Um produto que precisa de agradar a todos, não desagradar a ninguém e, acima de tudo, gerar receitas.

Falo também enquanto realizador independente. Alguém que acredita que o cinema pode nascer de quase nada: uma câmara, uma ideia, uma inquietação e a vontade de contar uma história. O cinema nunca precisou obrigatoriamente de grandes estruturas para existir. Precisa de pessoas que tenham alguma coisa para dizer.

Talvez seja precisamente aí que resida a esperança. Nas pequenas produções, nos realizadores independentes, nos filmes que não obedecem a fórmulas comerciais, nas imagens imperfeitas que transportam uma verdade que muitas superproduções já esqueceram.

O cinema não tem de ser espectacular para ser extraordinário. Não precisa de explosões para provocar emoções, nem de milhões para construir uma memória. Às vezes, basta um rosto, um olhar, uma rua vazia ou um silêncio prolongado.

Continuo a acreditar no cinema. Não necessariamente naquele que hoje domina os cartazes, os algoritmos e as plataformas, mas naquele que nos fez apaixonar pela imagem em movimento. Aquele que nasceu da necessidade de contar, de observar, de questionar e de deixar alguma coisa dentro de quem vê.

Talvez o cinema não tenha morrido. Talvez esteja apenas escondido, à espera de quem ainda tenha coragem de o procurar.

E, enquanto houver alguém disposto a fazer um filme por necessidade artística, e não apenas por obrigação comercial, haverá esperança para a sétima arte.

Porque, no fundo, o cinema não precisa de ser salvo pelas plataformas. Precisa de voltar a encontrar-se consigo próprio.

E talvez seja oportuno recordar Charlie Chaplin: «Mais do que máquinas, precisamos de humanidade.»

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