O mais recente título de Patrícia Reis levou-nos a uma pequena conversa, à dimensão deste livro-conto que se lê numa viagem rápida, talvez numa ida e volta de comboio a Cascais. A história de homem só, que gostaria de ser salvo.
Patrícia Reis apresenta-nos um homem, maduro, professor universitário, que se encontra sozinho do outro lado do mundo. Ao balcão de um bar de Macau, esta personagem discorre em pensamentos sobre a sua vida – uma ex-mulher com um nível igual de inteligência e insensibilidade, um irmão morto, uma mãe doente, internada num lar –, enquanto divaga sobre a possível vida da empregada desse bar. “Sim, estou aqui para me salvar”, afirma ele no início deste livro. Porque, afinal, os homens querem sempre salvar-se.
Lídia Jorge dizia, na apresentação, que este é um livro que diz tudo o que é sério, mas de uma forma abreviada. A ideia inicial foi fazê-lo assim tão pequeno, como um conto?
Pretendia escrever um texto curto, uma novela. Já tinha seguido este desafio com o livro “Cruz das Almas”, “Morder-te o Coração” ou “Antes de Ser Feliz”. Eu gosto muito de ler contos e novelas. Às vezes, uma história não pede mais do que 90 páginas. Existem preciosidades na Literatura que são curtas, é o caso de “Alexis ou o Tratado do Vão Combate” de Marguerite Yourcenar, a quem ‘roubei’ parte do nome para baptizar o meu blogue . Não estou a dizer que esta novela seja uma preciosidade, nada disso, porém é certo que a escrevi com seriedade. Não é o mesmo fôlego de um romance? Não. Mas nem sempre queremos ter o mesmo registo.
Esta história fez-me lembrar o filme “Lost in Translation”: um homem mais velho, a distância da língua, um país do oriente, o whisky, a rapariga, a solidão… Houve alguma inspiração?
Nenhuma. Nem pensei nisso até alguém me mandar um excerto da novela com uma fotografia retirada do filme. Gosto do filme, mas não me ocorreu. Precisava de um sítio, fora de Portugal, longe, onde a geografia afetiva existisse e onde a língua fosse distinta. O cantonês, a língua que se fala em Macau (mandarim para a China Continental) é distinto do português e partimos do princípio que a interlocutora do personagem central não fala inglês. O certo é que ele só fala com ela em pensamentos e não tenta qualquer abordagem.
Henry Miller escreveu, em “O Colosso de Maroussi”, que “a paz que a maioria das pessoas conhece é apenas uma cessação de hostilidades, uma trégua, um interregno, uma pausa, um intervalo, sempre algo de negativo.” Neste livro, o irmão afirma: “Nunca soubemos definir a paz, já reparaste? Só por oposição à guerra, ao conflito.” E para ti, afinal, o que é a paz?
Não percebi ainda. Confesso. Ando à procura. Acredito que vivemos demasiado afogados numa vertigem de comunicação, de estar ligados, de trabalhar o mais possível, de sobreviver à crise e tudo isso nos impossibilita o acesso a uma certa tranquilidade. Paz? Não sei sequer definir. Por vezes, penso se será uma utopia.
“Nesse teu silêncio, és um snob, estás convicto da tua inteligência. É um complexo de superioridade”, diz, às tantas o irmão desta personagem. Saber estar em silêncio é uma forma de inteligência?
Há silêncio e silêncio. Saber estar em silêncio, em muitas ocasiões da nossa vida, é uma necessidade e um ato de inteligência. Uma não ação também é uma ação.
Este é um homem sozinho, desesperançado, que começa por dizer que será salvo por esta rapariga, mas que acaba por perceber que isso não acontecerá. Porquê este final tão perdido, triste?
Talvez por ser a vida. É um livro sobre a rutura na vida de um homem, em vários sentidos, como é que lida com isso e como resolve a solidão.