Açores: a aurora e o ocaso, as flores e o basalto

Do frondoso e ainda selvagem nordeste ao sul da ilha de São Miguel, muito fica sempre por explorar. Mas a visita ao Parque Terra Nostra e o cozido das Furnas não pode faltar. Sem esquecer o quão relaxante é dormir ao som das ondas do mar.

Percorrer a encosta nordeste da ilha de São Miguel é como mergulhar na natureza selvagem. Chegamos a esta conclusão após a o pequeno périplo feito por este recanto insular. O roteiro coube a Joana Sousa e a Jorge Arruda, dois elementos da equipa do Balcony, o restaurante do Grand Hotel Açores Atlântico, localizado na cidade de Ponta Delgada. 

A Praia do Lombo Gordo foi a primeira sugestão, seguindo-se o trilho do Poço Azul, a Ribeira dos Caldeirões, com um parque com moinhos, a Bica da Ribeira e as piscinas do nordeste, sem esquecer a ponte de sete arcos e o miradouro da Ponta do Sossego, local ideal para assistir ao pôr do sol. “Logo a seguir” está a povoação Faial da Terra, com o miradouro Despe Pessoas, o Parque do Grená, “onde fazem os cozidos”, e a Poça da Tia Silvina, com um pequeno jardim e “a única onde ainda não se paga”. As piscinas naturais da Ribeira Grandes, o miradouro do Palheiro, a Caldeira Velha e a Lagoa do Fogo, o trilho do Salto do Cabrito, o miradouro de Santa Iria e a cascata do Limbo, em Porto Formoso, também constaram na lista de sugestões de ambos.

O tempo escasso para tamanha incursão obrigou a encurtar a rota, passando, esta, apenas pelo centro de Rabo de Peixe rumo à Praia do Lombo Gordo. Depois de estacionar a viatura no Miradouro da Ponta de Madrugada, instalado em falésias de origem vulcânica, ideal para assistir ao nascer do sol, há que dar tempo ao caminho de acesso à referida praia. A descida é íngreme, o que requer algum desvelo, sobretudo quando a humidade está alta. Mas vale a pena. A praia, de areia negra, reserva privacidade nos meses assistidos pelo outono e pelo inverno. Talvez também na primavera. Mas quando o sol desperta com maior esplendor, é de crer que seja um local procurado… pelos locais. 

Em contrapartida, há lugares onde o pôr do sol é magia pura, sobretudo quando encontrados por mero acaso. Um exemplo? A Ponta da Galera, em Água de Pau localizada a dois passos da Caloura, à qual lá iremos mais à frente. Afinal, há que contemplar as falésias vulcânicas esculpidas por meio da velocidade do vento e da generosidade da água do Altântico, dando lugar a uma paisagem inóspita e simultanetamente bela, sobretudo quando a aurora se despede, dando lugar ao crepúsculo.

O museu botânico dos Açores

Imperdível é, por outro lado, o Parque Terra Nostra, um jardim histórico localizado no Vale das Furnas, constituído por 1800 espécies botânicas distribuídas em 12,5 hectares. Nesta época de estio, está disponível o Roteiro de Verão. Este trajeto dita três quilómetros e inclui a visita às coleções de bromeliáceas, cycadales e fetos, três das oito coleções existentes neste museu botânico a céu aberto. 

Mas a história deste parque remonta a 1782, ano da aquisição de uma pequena propriedade por Thomas Hickling, um comerciante de Boston, Estados Unidos, que aqui se estabeleceu. O marco desta compra está associado ao carvalho enorme e mais antigo do atual parque e à Yankee Hall, uma casa de campo erigida numa colina artificial junto a um lago, hoje o tanque do Parque Terra Nostra. Volvidos mais de 60 anos, os Viscondes da Praia adquirem a propriedade, bem como terrenos adjacentes, e desenvolvem o gosto pela botânica. Paralelamente, construíram a casa recentemente restaurada pela família Bensaude.

O fulgor botânico conquista a curiosidade do rei D. Carlos e da rainha D. Amélia, em 1901, assim como o fascínio do príncipe Alberto I do Mónaco, em 1904. Passadas três décadas, Vasco Bensaude entra cena. Adquire o tanque, atribui o nome Parque Terra Nostra e inicia uma nova era neste paraíso terreno. Depois de reabilitações e reconstruções, da implementação dos jardins de vireias (ou rododendros-da-Malásia, arbustos ou pequenas árvores oriundas deste país do sudoeste asiático), das endémicas – mais tarde, também da flora nativa dos Açores –, das flores, bem como das coleções de fetos, cycadales, camélias, bambus, bromeliáceas, orquídeas, plantas aquáticas e plantas com história, onde a beleza e o exotismo se cruzam com grutas, o canal serpenteante, o mirante O Açucareiro, as esculturas zoomórficas, a fonte dos namorados ou Alameda de Ginkgos de 270 metros de comprimentos ladeada por 47 destas majestosas árvores de origem chinesa.

Ninguém fica indiferente aos dois jacuzzis e ao tanque de água termal, cuja temperatura da água ronda os 37° C, um convite ao banho relaxante em qualquer altura do ano, mesmo em janeiro.

Eis um mundo imenso ligado à natureza em todo o seu esplendor, com uma unidade hoteleira, a primeira do arquipélago, datada de 1935. Trata-se do Terra Nostra Garden Hotel, uma ode à Art Déco, com o Restaurante TN a dar palco a clássicos, com a cozinha, enquanto espaço, renovada em abril deste ano e que tem Nuno Gonçalves como chef.

De olhos postos no museu botânico ao ar livre, deixe-se levar pelos sabores do famoso e generoso cozido das Furnas, com variedade de legumes, carnes e ecnhidos. O borrego de Santa Maria cozinhado lentamente e acompanhado por couscous de pimenta da terra amêndoa e sultanas, salada de espinafre, alperce e romã, molho de iogurte alho e ervas, e o Wellington de pato, feito a partir de perna de pato confitada, feijoada cozinhada nas caldeiras, endivia glaceada, molho de pato e laranja, permanecem no alinhamento na lista de pratos especiais. Acrescem os cortes de carne, para delícia dos apreciadores deste produto. 

De olhos postos no Atlântico

Do Vale das Furnas ao sul da ilha de São Miguel, mais concretamente em Água de Pau, a dois passos da Praia da Baixa d’Areia, está o Caloura Hotel Resort, adquirido pelo Grupo Bensaude em dezembro de 2024. O exotismo dos jardins em redor do edifício são um dos cartões de visita desta unidade de quatro estrelas situada à beira-mar e com vista privilegiada para o Atlântico.

“Em 1978 não havia aqui alcatrão”, começa por contar Marina Neto, uma das funcionárias do hotel desde 2001. “O pavimento era de terra batida e cascalho. Era uma zona de vinha. Hoje é uma zona de luxo” e “os funcionários são maioritariamente de Água de Pau”, representando um universo de 85%, afirma a nossa cicerone, que nos faz uma espécie de visita guiada pelo Caloura Hotel Resort, que, quando abriu pelas mãos da família Ponte, dispunha de dez quartos, segundo lhe constou. Com a passagem do tempo, o número de quartos sobe para os 80, distribuídos pelos três pisos, com vista para o oceano e varanda privativa. Esta ampliação data de 2003: “o edifício é restruturado” e o bar, assim como o restaurante, passam a estar virados para o extenso mar.

Marina Neto destaca ainda “o sossego, o magnetismo da paisagem que nos faz relaxar”. Quem observa o Atlântico das janelas do restaurante e do bar depara-se com muitas rochas vulcânicas, no exterior, sendo o basalto um dos materiais utilizados na construção desta unidade. Quem sai do edifício, do lado do oceano, acede ao portão em madeira, O caminho contíguo convida ao passeio em direção ao Atlântico, com o devido cuidado quando as águas expressam toda a fúria. Mas vale a pena conhecer este curto trajeto, especialmente pelas plantas naturais, que tomam conta deste espaço exterior, emprestando o verde e demais cores a este bucólico cenário.

Depois de contemplar as colossais rochas de basalto, a força do mar e as piscinas naturais a que dá origem, o caminho de regresso é novamente agraciado pela dimensão e frondosidade das plantas. Esta estende-se ao local da enorme piscina, “porque houve aqui uma escola de mergulho”. Hoje, esta atividade faz parte do programa de experiências, assim como o ioga e o ténis, modalidade a ter lugar no campo criado e mantido para o efeito. Em redor, a vista partilhada é privilegiada pelo azul do céu e do mar, e pelos tons coloridos das flores que, todo o ano, despontam na ilha de São Miguel. Que tal terminar a tarde no Caloura Terrace Snack Bar, de portas abertas na época de estio, a brindar ao pôr do sol?

+ Grand Hotel Açores Atlântico
+ Parque Terra Nostra
+ Restaurante TN
Caloura Hotel Resort

Legenda da foto de entrada: Ponta da Galera, em Água de Pau

© Fotografia João Pedro Rato

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