Alijó, quanta terra há neste mar de vinhas?

Enquanto o bulício do rio Douro corre lá em baixo, no planalto de Alijó reina ainda a tranquilidade.

Pouca-terra, pouca-terra. É o ritmo do comboio que nos embala lado a lado com o rio Douro, companheiro de viagem até ao Pinhão. Daqui ao planalto de Alijó é mais meia-hora de curvas e contracurvas, sempre a subir até aos 600 metros de altitude.

É por aqui, na vila de Favaios, freguesia do concelho de Alijó, que está o edifício que, em tempos, foi a Destilaria nº 7, da Casa do Douro. Atualmente é o quartel general da Quanta Terra, projeto turístico que alia o vinho e a arte e onde podemos fazer provas de vinhos, ver exposições ou assistir a um concerto de música.

Da fundação da Quanta Terra… 

A Quanta Terra, nasceu em 1999, pelas mãos de Celso Pereira e Jorge Alves, e, desde o início, teve como foco a criação de vinhos tranquilos de excecional qualidade, os quais expressassem o quão especial e único é o Douro do Planalto de Alijó e do Vale do Tua. Os dois enólogos conheceram-se nos anos 90 do século passado, quando trabalhavam no Departamento de Enologia das Caves Transmontanas. A grande empatia e sintonia profissional viriam a criar as bases da Quanta Terra.

Sem terra nem adega, durante dois anos estudaram castas, enxertos, altitudes e exposições, até que encontraram uma quinta no Vale do Tua que lhes enchia as medidas. A ideia começou a ganhar forma. Como o dinheiro também não abundava, propuseram sociedade ao dono da Quinta do Tralhão, a propriedade escolhida. Negócio fechado e era a hora de reestruturar a vinha que se estava abandonada e, em 2021, apresentaram ao mercado o primeiro vinho da marca, o Quanta Terra Grande Reserva Tinto 1999.

Os brancos chegaram em 2007, feitos a partir de uvas do Planalto de Alijó. Em 2018 acontece um fenómeno, a estreia do Phenomena, um rosé 100% Pinot Noir e, simultaneamente, um desafio à tradição e ao conservadorismo do Douro. Atualmente, os vinhos da Quanta Terra estão organizados em quatro grupos: Pouca Terra, Terra à Terra, Quanta Terra e Edições Especiais.

… à Destilaria nº 7

Passados 23 anos desde o nascimento, em março de 2022, a Quanta Terra deu mais um passo. Abriu as portas da sua casa, na antiga Destilaria nº 7, da Casa do Douro, construída originalmente, em 1934. O edifício foi comprado em 2022 com o objetivo de ser a adega da Quanta Terra. Porém, durante as obras sofreu uma metamorfose e transformou-se no centro da atividade cultural e do enoturismo deste produtor duriense. Esta é, só, mais uma das histórias que é preciso ouvir e sentir no local, de preferência na companhia de Celso Pereira e Jorge Alves. 

O espaço, que já tinha a sua carga histórica do Douro, ganhou uma nova vida e continua a criar memórias, conectando a arte e o vinho. Nos diversos patamares do edifício, conta-se a história da destilaria, do Douro e da Quanta Terra. A visita termina no piso térreo, com prova de vinhos e petiscos da região. O projeto de transformação da antiga Destilaria nº 7 teve a assinatura do arquiteto Carlos Santelmo.

A curadoria das exposições está nas mãos da Galeria Contagiarte, responsável pela atual mostra intitulada “A pele da terra”. Está patente até ao final de 2026. As criações dos quatro artistas portugueses – Vanessa Teodoro, Ana + Betânia, Mário Ferreira e Pant – estão espalhadas pelo edifício, entre salas de barricas, cubas centenárias e salas de prova. Uma parte delas foi propositadamente pensada para estes espaços, procurando uma relação direta entre a arquitetura do espaço e a promoção de um diálogo entre arte, vinho e o próprio território.

Um excelente pretexto para partir numa rota de exploração da região. Foi o que fizemos, mas, antes, seguimos viagem através de alguns vinhos da Quanta Terra.

Ponto de partida: o irreverente Phenomena de 2025, o tal rosé 100% Pinot Noir, lançado em 2018. Um vinho muito gastronómico, que, segundo Celso Pereira, “teve um longo processo de evolução para chegar a este resultado”. Seguimos para o Quanta Terra Grande Reserva branco 2023, uma boa representação dos estudos que ambos os produtores e enólogos têm feito ao longo dos últimos anos. Gouveio e Viosinho dos solos graníticos do Planalto de Alijó com 12 meses de barrica. Um vinho com frescura, boa acidez e muita untuosidade.

Com uvas das mesmas parcelas mas em edição especial, eis o Quanta Terra Golden 2017, garrafa nº 20, um vinho incrível com quase uma década a pedir um grande queijo curado. Continuando nos vinhos brancos especiais recuamos uma década, até ao ano de 2007 e encontramos o Quanta Terra Family Edition com 11,5% de álcool. Um branco impressionante, com grande volume, complexidade e frescura, do qual foram produzidas apenas 660 garrafas. Dus décasas separam estes três grandes momentos do par de castas constituído por Gouveio e Viosinho vindimadas no Planalto de Alijó, o que comprova a vocação de ambas para vinhos de guarda.

Saltando para os tintos, todos feitos com uvas da zona do Tua e predominância dos solos xistosos, encontrámos o Quanta Terra Grande Reserva 2022. Touriga Nacional, Sousão e Touriga Franca fazem parte da sua composição. A complexidade pede comida à altura, como um cabrito assado. O Quanta Terra Manifesto 2018 é elaborado a partir de Touriga Nacional, Touriga Franca e Sousão. Na apresentação deste vinho o enólogo Celso Pereira destaca que “o acompanhamento da vinha é cada vez mais fundamental”. Mais um vinho com grandes qualidades gastronómicas a pedir comida local.

Uma curiosidade, sabe a que se refere o manifesto no Douro? Era a declaração de colheita e produção que os viticultores eram obrigados a entregar à Casa do Douro. Através desse documento, o produtor “manifestava” o volume de uvas colhidas e o mosto ou vinho produzido. Equivale à atual Declaração de Colheita e Produção (DCP).

Voltando as referências vínicas, o Quanta Terra Inteiro 2014, que incorpora a alma do Douro. Feito a partir de Touriga Nacional e Touriga Franca, passou seis anos em barrica de 500 litros e três anos em cimento. Um vinho para quem procura um clássico da região.

Seguindo a jornada, a dois passos da Quanta Terra, encontramos o centro da vila de Favaios, pela qual se recomenda um passeio calmo e a visita de alguns dos ex-libris da vila, como o Núcleo Museológico de Favaios – Pão e Vinho ou a Igreja Matriz de Favaios.

Onde relaxar

A dois passos do centro de Favaios, já depois de uma pequena caminhada por meio dos vinhedos, estamos a Quinta da Faísca. Ali chegados, temos à nossa espera, implantadas entre vinhas, quatro casas de arquitetura contemporânea construídas em madeira. É “só escolher” uma. As casas estão equipadas com tudo o que precisa para um momento em família ou de pura tranquilidade. Aqui não se aceitam grupos nem se recebem autocarros. Faz-se questão de afirmar com veemência e com todo o significado que as palavras têm.

Ao cair da noite adormecemos embalados pelo conforto de  silêncio profundo…

O despertar acontece com o chilrear da passarada apressada. É hora de ir correr pelos talhões de vinhas que ladeiam o horizonte, demarcados por linhas de oliveiras que mais parecem as guardiãs de cada quintal. De vez em quando atravessa, no caminho, um coelho numa correria desenfreada. Pouco depois de chegarmos a casa, à hora combinada, chega o pequeno-almoço carregado de energia para enfrentar mais um dia. Aproveitamos a varanda com um cenário difícil de explicar em palavras para tomar a primeira refeição do dia a olhar para as vinhas que brilham com as primeiras horas de sol. A luz invade a casa de uma forma extraordinária numa obra notável do arquiteto Carlos Castanheiro.

A Quinta da Faísca teve a sua origem numa Casa Agrícola criada no século XIX e desde o início que o vinho faz parte da sua produção. Foi-se mantendo na mesma família até que, em 2000, foi adquirida por Manuel de Sousa Lopes, um industrial de botões de Famalicão desde os anos 20 do século passado, que considera a agricultura e os vinhos a sua verdadeira paixão.

Após a reconversão das vinhas, modernizaram a adega, criaram salas de provas e, em 2022, abriram as quatro casas, completando o ciclo. Hoje, são os filhos que estão à frente da gestão do negócio: Tiago Sousa Lopes, no turismo, e Gonçalo Sousa Lopes, nos vinhos com a marca Secret Spots.

Secret Spots

A Secret Spots nasceu em 2004 e tem como lema “vinhos artesanais e invulgares”. Nos primeiros tempos, o foco estava nos tintos, mas rapidamente perceberam que as condições do local eram porpícias a vinhos brancos e moscatéis. Atualmente, produzem 80% de brancos e 20% de tintos, para além do Moscatel do Douro.

As referências são diversas e estão organizadas em duas marcas: Lacrau (a única espécie de escorpião existente em Portugal, muito comum na região)  e Secret Spot (numa alusão literária às ondas secretas que os surfistas procuram e que guardam para si sem divulgar a localização).

Provámos o Lacrau Aroma o rosé de 2023, um vinho de Touriga Nacional bastante gastronómico, a colheita base do Moscatel Galego de 2024, um branco seco, e o Lacrau Aroma Moscatel Galego de 2023, com um ano de estágio em barrica e mais um em garrafa, indo para o mercado ao fim de dois anos. Passamos ao Lacrau Superior branco de 2023, um vinho mais complexo e encorpado, feito com uvas de vinhas com mais de 60 anos e com estágio em barricas novas e usadas. Um vinho bastante recordado na restauração.

O Lacrau Garrafeira branco de 2018 é um daqueles vinhos que enche os olhos e a boca aos grandes apreciadores de brancos com idade. Uvas provenientes de vinhas muito velhas, três anos de estágio em barrica e, pelo menos, mais três anos em garrafa (neste caso já vai com cinco). Um vinho para descobrir com calma. Dos tintos provámos o Lacrau Superior de 2022, com boa frescura e acidez e o Secret Spot tinto de 2019, sem mais informações e a precisar ainda de tempo.

Passando ao Moscatel do Douro, provámos os 10, 20 e 40 anos com as respetivas diferenças bem evidentes. Feitos a partir da casta Moscatel Galego branco, o 10 anos tem aromas das frutas cristalizadas, como a casca de laranja e um toque de caramelo. O 20 anos é mais complexo, destacando-se os frutos secos e especiarias. O 40 anos acrescenta as notas balsâmicas, para além da maior profundidade fruto de mais anos de estágio.

Já que estamos no Douro talvez seja interessante fazer notar algumas diferenças, que na opinião de Gonçalo Sousa Lopes marcam a diferença em relação ao Vinho do Porto. Para o responsável da marca Secret Spot, o Moscatel do Douro tem menos álcool (entre 17 e 18%), menos açúcar (geralmente abaixo de 100 gramas) e, em geral, é mais apelativo no nariz e mais fresco na boca.

Onde comer

+ Quanta Terra
+ Quinta da Faísca
/ Secret Spot

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