Inclua-me fora disso

O título deste breve texto é da autoria de Grouxo Marx, um dos talentosos irmãos Marx que nos deliciaram durante a década de 1930′ com as suas comédias surreais e o seu humor non sense, viscoso e, sobretudo, com o seu humor sarcástico, subversivo, abusivo para a época, transformando-o em gags e trocadilhos maravilhosos. Esse universo do cinema dos irmãos Marx será sempre, para a história do cinema, um regresso agendado, nem que seja somente para rever e recordar os seus filmes.

Não obstante de estarmos brevemente naquela época do ano – diria silly season parte 2, com o frio e a lareira –, poderia referir alguns dos mais variados filmes que foram realizados e que abordam esta quadra, mas não o farei. Irei limitar-me a escrever sobre o que acho que é pertinente e importante neste final de ano que se aproxima.

Sim, inclua-me fora disso – das festas, do cinema enlatado, dos likes aqui e ali. Poderia referir mais umas coisas. Relembro o grande filme de David Lynch, a longa metragem “Eraserhead”, de 1977. Seria um óptimo filme e sugestão para esta época do ano, um filme cheio de coisas interessantes, como o homem no radiador, aquela trovoada que, em loop, vai moendo a mulher que sai da escuridão e se revela a Henry com o olhar faminto, e que depois se esvai numa banheira; ou o jantar familiar em que predomina a alucinação esquematizada e o pequeno baile dos frangos; e porque não falar também do elevador lento, barulhento, uma caldeira com luz opaca, e do quarto escuro, da luz difusa, da cama e da manta rota, do casal a dormir, da tempestade, e do maravilhoso, mas insuportável, choro em loop do recém-nascido.

São estas nuances, o saber, o identificar, o falar, o escrever, o apontar, o questionar que fazem daqueles que gostam de cinema, que querem fazer cinema ao seu nível cultural seja mais elevado. Porque para fazer temos de saber e aprender, temos que escavar, descobrir, temos termos interesse, temos de demonstrá-lo e não somente aquele cinema oco, em que predomina o apontar da objectiva e o disparar como se fosse um míssil ou outro objecto bélico qualquer.

Nesta altura do ano, não vale nada fazer aquela pré-concebida reflexão do que se passou durante o ano. São coisas insossas. A reflexão, se existir e a quisermos fazer, será através da grande música de “Eraserhead”: “In Heaven Everything is fine/ In Heaven Everything is fine/ In Heaven Everything is fine/ You got your good thing/ And I’ve got mine…”

Até Janeiro com mais reflexão e acidez q.b.

Bom Natal e Bom Ano… e vejam sempre bons filmes, mesmo os maus! •