No passado dia 25 de Maio, e concretamente no Jardim da Sereia, em Coimbra, decorreu um “acontecimento escultórico”, como Rui Chafes prefere chamar-lhe; tal momento convocou um passado que remonta a 2004.
Vera Mantero por Agnieszka-Wojtun
Comer o Coração nas Árvores trata-se de uma derivação de Comer o Coração, obra conjunta de Rui Chafes e de Vera Mantero que representou Portugal na Bienal de São Paulo, ocorrida no ano de 2004. Tendo no comissariado Alexandre Melo, implicou igualmente Paulo Cunha e Silva, como Rui Chafes deixou expresso na conversa que o uniu à coreógrafa-bailarina, e decorrida no CAPC Sereia – Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, concretamente no dia 24 de Maio.
Este acontecimento inseriu-se no Programa Especial ’16 do TAGV – Teatro Académico de Gil Vicente, sendo antecedido, portanto, pela Conversa Com… Vera Mantero e Rui Chafes, associada ao Centro de Dramaturgia Contemporânea, e secundado por Os Serrenhos do Caldeirão, Exercícios em Antropologia Ficcional, de Vera Mantero, espectáculo levado à cena no dia 26.
Comer o Coração foi apresentado em São Paulo e, depois, em Lisboa e em Salamanca; hoje resta numa colecção privada, sem albergar o “papele”, misto de pele e papel, que preenchia o espaço utópico das inscrições de ferro saídas dos olhos, da cabeça, do coração e das mãos de Rui Chafes. Em 2015, e na circunstância de uma implicação artística de Vera Mantero, no Fundão, a coreógrafa-bailarina sugeriu que se derivasse o projecto inicial, com vista a adaptar-se a um circuito arborista desse local. Rui Chafes anuiu, embora tenha sido agora, em Coimbra, que se pôde ver a estrutura efectivamente imaginada para este efeito. Tal estrutura decalca com grande precisão a que se acoplava aos “balões” gigantes de Comer o Coração, permitindo a Vera Mantero restar sentada, numa posição em tudo semelhante.
COCna / fotografia: Luzlinar
Convém distinguir o lugar de 2004, que Rui Chafes afirma ter implícita uma manobra institucional, do de 2016; lembremos, aqui, que o Jardim da Sereia alberga um conjunto escultórico doado à cidade pelo artista. Mas Rui Chafes é desconcertante: “Eu detesto escultura”, afirmou na conversa de dia 24. Convenhamos; em Entre o Céu e a Terra faz-se nascer numa família bastante modesta do século XIII (concretamente, 1266), cuja prole indiciaria uma vida duríssima, que a arte acabaria por inflectir. De 1266 até ao século XX, então, o “escultor” traça um fio de afinidades electivas que tem em Tilman Riemanschneider um precursor de linhas finas e cortantes, filho do gótico alemão. Bom, elucidar-nos-ia logo a seguir quando definiria a escultura enquanto um “habitar o espaço com um tumulto de energia”, e Comer o Coração nas Árvores enquanto “acontecimento escultórico” composto por corpo, voz e ferro. O que se harmoniza com o que deixa expresso em O Silêncio de…: “Considero a arte uma transmissão de energias. […] A arte é um catalisador. Não existe arte sem transformação. As minhas esculturas são módulos de pensamento para mim e, possivelmente, também para outros.”
Vera Mantero encaixa exactamente na estrutura de ferro, tal e qual o sapato da Cinderela ou a espada de Excalibur, como nos disse; a partir desta ligação realmente mágica, a coreógrafa-bailarina acreditou sempre que, quando ocupasse o lugar, algo surgiria inevitavelmente, como nas histórias. E o que surge é um desenho que “dança” e, no final, a música; uma experiência secreta. Duas crianças: uma bastante séria, ao ponto de não conseguir imaginar como seria a sorrir, permanece atónita; outra, já no final, parece acordar de um sonho. É delas que me lembro, de forma vívida.
Verá a “obra” novamente a luz do dia? Noutro lugar? Disso nada foi dito, pelo que vos aconselho a manter a atenção.
© Imagem de entrada: Os Serranhos do Caldeirão / fotografia: Luís da Cru
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