Este Lugar Lembra-te Algum Sítio? No CAPC, em Coimbra

Corra! Tem, até ao dia de amanhã, oportunidade para ver uma exposição que permanece no CAPC Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, concretamente, no Círculo Sereia. Trata-se de um Projecto itinerante, e assinala-se aqui o seu 2º Momento.

Três salas e uma antecipação, à entrada do edifício do CAPC. Nove artistas, cujos nomes de imediato referimos, uma vez que a nossa análise se pautará pela deriva: Ana Bezelga, Carlos Bunga, Carlos Nogueira, Diogo Pimentão, Edgar Martins, Fernanda Fragateiro, Inês D’Orey, José Bechara, Nuno Sousa Vieira. Curadoria devida a Miguel Sousa Ribeiro e intervalo de exposição que se iniciou no dia 7 de Janeiro, decidindo-se, portanto, amanhã, dia 27.

A folha de sala oferece-nos um texto extenso e rico, que se detém no cruzamento conceptual de lugar e sítio; embora seja preciso, e expressivo, não vamos segui-lo, nem citá-lo, já que terá certamente a possibilidade de nele se deter quando fizer a sua visita. Melhor intentamos fornecer-lhe alguns fios de olhar, do nosso olhar. Maria Filomena Molder refere que é necessária uma grande coragem nos tempos que atravessamos, e que nos esmagam tantas vezes, se não estivermos atentas: não ver. Já Simone Weil, essa pessoa vertiginosa, e obcecada, que podemos considerar “imperdoável” na medida que deu a esta “categoria” a inactual Cristina Campo; alerta: a atenção é a oração da alma. Susan Sontag, outra perscrutadora incansável, tece considerações precisas sobre a figura de Simone Weil. Convido-vos a procurarem tais letras, se assim o entenderem.

Posto isto, percorramos a exposição, nos três tempos-salas que implica: a casa; o interior; a paisagem. E, não esquecer, logo à entrada: um muro esburacado, colocado no exterior do edifício, metáfora da gaze-pele que simultaneamente protege e abre. Quero com isto dizer que o ser humano é pneumatismo: não tem como se emparedar na consciência, mas possui mecanismos de protecção, que devem accionar-se. Será, portanto, a partir deste pressuposto inicial, qual manifesto, que iniciamos a deriva: a bússola do nosso olhar, latente.

A casa. Enferrujada, planificada e em maquete, dentro do armário, ou mesmo solitária na sua modulação precisa. A casa não tem habitantes: é uma cascata de escadas; é uma fragmentação de salas; é um bloco modular; é uma imagem-lisa desdobrável e componível. Construção trémula.

O interior. Portas fechadas antecipadas por impassíveis vidros foscos; armário abandonado, e marcado pelo tempo; o menino azul e a menina rosa, rasgada; o frio do cimento; a desordem; o filme de cartão; a afirmação da espera e a dobra do tempo.

A paisagem. Destroços e dunas; a repetição; o bunker; a solidão; a efervescência.

Não existem receitas, não existem prescrições. Existem tradições, pragmatismos, campos; e cada sujeito se perspectiva nesses limiares (com)possíveis. Se me coloco na tradição, a minha voz é uma; se falo e ajo de acordo com uma pragmática, o efeito é outro; se me inscrevo num campo, normalmente repercuto-o e confirmo-o. Todavia, não é possível, nem aceitável, uma performatividade oca. Cada sujeito deverá apresentar a sua experiência; nada mais reprovável do que ater-se à do Outro. E não é precisamente esse o significado do Rosto em Emmanuel Levinas? Assim, cada ser humano é uma espécie de vela tremeluzente; saibamos nós, isoladamente e em conjunto, velar por todos, e por cada um. Simone Weil fala sobre isso. “Encontro”, como se deixa escrito no texto de Este Lugar Lembra-te Algum Sítio? Pois é por aqui que esta exposição segue, parece-me; ainda que o ar seja por vezes rarefeito.

Não perca. Até amanhã, dia 27, entre as 14 e as 18h. Morada: Casa Municipal da Cultura, Piso -1, Parque de Santa Cruz, Jardim da Sereia, em Coimbra.

© Fotografia: Jorge das Neves

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