‘As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos’, de Emmanuel Mouret
| DA VAGA REALIZADOR DO MÊS
“A conceção romântica do desejo é ilusória”, exprimiu René Girard (1923-2015), filósofo, historiador, antropólogo, crítico literário, teólogo francês, numa entrevista à revista brasileira Cult. O pai da teoria mimética defende que a imitação é o principal motor do desejo humano, que se desenha numa relação triangular entre o sujeito (que deseja), o modelo ou mediador (referencial que suscita a imitação no sujeito) e o objeto (de desejo). Ancorada na literatura, a partir dos romances de Dostoiévski, Proust, Cervantes ou Stendhal, a teoria mimética do desejo de René Girard é o eixo em torno da qual se movem os romances de ‘As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos’ (2020), de Emmanuel Mouret – escolha para Janeiro DA VAGA REALIZADOR DO MÊS. Numa verdadeira teia emaranhada de ligações, traições e reconciliações, o desejo assume o papel principal num filme que entronca com a teoria da mimética – chegamos mesmo a ver excertos de um documentário sobre o filósofo francês, bem como referência explícita à teoria por parte de uma das protagonistas – e desenvolve-se como uma espécie de compilação de romances literários enredados entre si, saltando de flashback em flashback.
Maxime (Niels Schneider, protagonista em ‘Golpe de Sorte’ (2023) , de Woody Allen) vai passar uns dias a casa do primo François (o inconfundível Vincent Macaigne), no campo [la campagne], mas, fruto da ausência temporária do primo, partilha uns dias a sós com a mulher deste, Daphné (a belíssima Camélia Jordana). Maxime é tradutor mas sonha em ser romancista e, rapidamente, começa a desbobinar a romântica – depende da perspetiva – história da sua vida, como uma novela pronta a saltar para as páginas de um livro; já Daphné, que o ouve avidamente, é montadora de filmes e quanto mais história sai do novelo de Maxime mais Daphné quer puxar a linha ou a fita para ir montando a história na sua cabeça. Mas se ele tem muito para revelar, ela também não lhe fica atrás, até porque, o desejo é a bobine comum que conduz os folhetins romanescos, quer dele, quer dela. O desejo, que em todas as histórias desemboca no prazer e na consequente consumação sexual, sobrepõe-se, secundariza e absorve o amor, e deixa-o sem saber o que é por si só. E quanto mais as histórias contadas pelos protagonistas-narradores se desenrolam, em extensos flashbacks, mais o desejo mimético cresce entre Maxime e Daphné, e sabemos que é uma questão de tempo até à consumação carnal do mesmo. Porém, Mouret parece não gostar de condensar, ligar e fechar a(s) história(s), pelo contrário, mesmo que isso contribua para um certo deslaçar da narrativa, pelo que opta por fazer de outras personagens também narradores, com outros flashbacks, e vai estendendo a teia, com idas e vindas, voltas e reviravoltas, em que nada está adquirido, dando primazia à volatilidade das relações, cujo fio condutor é o desejo.

Nestas histórias, feitas também de encontros e desencontros, o acaso [par hasard] é uma constante. Talvez este seja o elemento no filme – ou um dos – que tenha suscitado comparações entre o cinema de Mouret e Éric Rohmer (“o novo Rohmer francês; “o Rohmer dos tempos modernos”, fui lendo por aí). Acontece que o par hasard que Mouret vai injetando no filme é imposto mecanicamente para ligar personagens e histórias, já o acaso em Rohmer nunca é totalmente fortuito, emana de algumas probabilidades, mesmo que bem diminutas, parte sempre da ideia de um lugar propício: um café habitual, um grande café, lojas de roupa à tarde, um autocarro ou uma festa. Ou seja, em Rohmer há uma adesão à realidade, os tais efeitos do real, que em Mouret não se verifica. Além do acaso, a omnipresença da palavra, nas conversas, aproxima os dois cineastas, obviamente, mas em Rohmer a palavra transporta e carrega as personagens, com o respetivo perfil psicológico e sociológico, muito assente numa mise-en-scène das conversas, não raras vezes longas, incluindo a forma como (protagonistas) se movem e se instalam no espaço; por sua vez, em ‘As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos’, os diálogos são mais bavards, mais curtos e mais apressados. E até na similitude no que toca à utilização de narrador(es) – Rohmer usou particularmente nos ‘Contos Morais’, primeira fase da sua filmografia – observamos que neste filme de Mouret cabe-lhes acima de tudo narrar, nos flashbacks; já nos ‘Contos Morais’ rohmerianos, os narradores-protagonistas confidenciam-nos, a nós espectadores, os seus pensamentos íntimos. Dilemas morais e angústia existencial também não são propriamente elementos modeladores destas personagens de Mouret, ao contrário de Rohmer, e eis que o desejo provoca e consuma traições em ‘As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos’.
O filme tem o mérito de nos manter entretidos de início ao fim, expectantes e um tanto ou quanto desconcertados, pelo casa, descasa; pelo junta, separa; pelo desencontra, reencontra, até aos créditos finais, e, só a partir daí, podemos então encetar uma reflexão sobre a força do desejo e a fraqueza do amor.


