O tema da Inteligência Artificial está cada vez mais presente nas bocas do mundo. Contudo, seremos nós, humanos, capazes de o compreender, tendo em conta que fomos nós o seu criador? Ou suceder-se-á o exato oposto?
Se somente a Inteligência Artificial é capaz de nos conhecer e não o contrário, como seria “suposto”, seremos nós os manipulados, ao invés de programadores? Quero com isto dizer: “seremos nós controlados por algo que criámos e treinámos ou ensinámos?”
Falando em criação, podemos sempre tocar no tema divino. Ora, a ideia de Deus é a de um ser omnipotente e omnisciente. Lembro-me de que era também assim que caracterizávamos o “Narrador” dos textos, na Escola Primária. Nomeadamente, quando narrava na terceira pessoa.
Este Narrador sabia tudo o que as personagens pensavam, diziam e faziam e decidia se no-lo contava – ou não – através de parágrafos inteiros que descreviam o espaço, o tempo e as personagens, tanto física como psicologicamente. Às vezes, chegava a contar-nos episódios do passado delas, selecionados por ele, o que nos ajudava a compreender o caráter daquela personagem e como se comportava em determinadas circunstâncias. Tal era fulcral para que compreendêssemos a história.
Tinha o poder, portanto, de guardar segredo acerca do que sabia ou divulgar abertamente o que bem entendesse para quem quisesse ouvir ou, mais precisamente, ler. Tudo o que não estivesse explícito tínhamos de ser nós a inferir, a interpretar. Contudo, há segundas e terceiras interpretações. E por aí fora.
Cada um de nós, na sala, escolhia entre participar ativamente ou guardar o que pensava para si. Havia também quem nem se desse ao trabalho de pensar. Voltando ao primeiro grupo, as interpretações divergiam, até certo ponto, claro está.
Provavelmente, muitas vezes a conclusão à qual se chegava acerca de certa frase, parágrafo ou texto nem coincidia com o pensamento do autor no momento em que a escrevera. Não digo que tal seja negativo, tudo depende de como o leitor reage. Tudo depende do bom senso.
Todos os tópicos eram moderados pela professora, que estava “sempre certa” para alguns. Uma espécie de Deus? Não digo, pois este pensamento não era unânime. Havia sempre os que tinham espírito crítico e questionavam o que a professora deliberava.
Por vezes, ela aceitava o que estes afirmavam como uma boa interpretação “alternativa”, por assim dizer. Outras, admitia estar errada. Por outro lado, e espero que tal se tenha sucedido a maior parte das vezes, a professora estava certa e nós tínhamos a oportunidade de aprender algo útil.
Contudo, havia sempre a possibilidade de insistir que tinha razão, mesmo não tendo. Isto quando não se limitava a mudar de opinião repentinamente, por se aperceber do erro. Dependia, provavelmente, do sentimento de não poder ser contrariada abertamente por alunos da escola primária.
De qualquer forma, a palavra da professora era a que sempre contava mais. Havia quem tivesse o hábito de dizer “se a professora assim o diz, assim o é”, quando alguém se atrevia a questioná-la, mesmo não fazendo a mínima ideia do que se tratava, quase como se uma aura divina a envolvesse.
Assim sendo, a professora primária tinha poder sobre nós, sobre o que pensávamos e como pensávamos. Tal como a Inteligência Artificial tem nos dias que correm? Provavelmente ainda não. Contudo, o nosso cérebro é preguiçoso e prefere sempre o caminho mais fácil, portanto, nada melhor que fazer uma pergunta e engolir a resposta sem qualquer espírito crítico… mas terá sido isso que aprendemos na escola primária? Diria que não… É costume dizer-se que a educação primária tem uma forte influência sobre o futuro de todos nós. Neste caso, esta influência falhou.


