Exhibition, de Joanna Hogg
| DA VAGA REALIZADOR DO MÊS
É caso para dizer que à terceira foi de vez. Depois de fazer da figura do marido um pouco o elefante na sala nas duas primeiras longas-metragens, em Unrelated (2007) e em Archipelago (2010) , um alguém ausente-presente, sem materialização de corpo e de voz, sempre do outro lado da linha – para nós, imaginária – da conversa telefónica com a(s) respetiva(s) mulher(es), em ambos os filmes, eis que, em Exhibition (2013), a britânica Joanna Hogg (de quem nos despedimos em DA VAGA REALIZADOR DO MÊS) decide dar-lhe forma física. Na verdade, de Unrelated para Archipelago, Hogg opta por seguir um caminho de condensação da história, reduzindo o inner circle, ajustando e compatibilizando a paisagem com esse círculo de protagonistas mais intimista e mais restrito, deixando antever que na sua terceira obra a vida de um casal seria um salto tão desejado como previsível, tão necessário como possível. A incomunicabilidade feita de atrito entre os casais, que fomos presenciando e construindo sempre e só a partir do corpo e da voz da mulher, através de Anna, em Unrelated, e de Patricia, em Archipelago, naquelas repetidas chamadas telefónicas, é capturada em Exhibition por uma incomunicabilidade silenciosa entre o casal, digamos. Incomunicabilidade silenciosa essa, feita de não ditos e de contenção na expressão de emoções face ao outro, que tão bem vimos Hogg impregnar nos seus protagonistas nos dois primeiros filmes, especialmente quando se verifica atração, identificação e química entre uma mulher e um homem: Anna e Oakley, em Unrelated; Rose e Edward, em Archipelago. Ou seja, o casamento, a exploração da vida conjugal que vemos em Exhibition, respira e dá-se em cima dessa premissa de incomunicabilidade silenciosa – não tão diferente assim daquela que se apossou dos hipotéticos amantes que não chegaram a sê-lo – numa paisagem concebida a preceito, ou melhor, uma casa desenhada a preceito.
Nos créditos finais de Exhibition lemos o nome de James Melvin, como agradecimento e dedicatória ao arquiteto inglês – morrera dois anos antes da estreia do filme – que projetou com arrojo aquela casa de arquitetura brutalista, na Horton Street em Londres, onde viveu com a sua mulher, e que serve de palco para o casal de artistas – ela é D (Viv Albertine) e ele é H (Liam Gillick) – na história de Hogg. Apesar de largar as férias na Toscana (Unrelated) e nas ilhas Scilly (Archipelago), fixando-se agora na cidade londrina, Hogg não abandona a paisagem natural, não descura a sua presença no espaço e a sua preponderância na topografia sentimental. Quando a mulher ou o homem puxam a longuíssima cortina cinzenta que esconde o amplo quarto, é o verde das árvores que açambarca a vista de quem está na cama. De um urbanismo que parece cada vez mais em vias de extinção, vemos as árvores que crescem junto àquela casa, bem como junto a outras faustosas moradias sempre que surgem planos gerais da rua, fontes de vida, de renovação e filtro de ar que alimentam as casas, barreiras naturais que resguardam. Numa casa feita de muitos e extensos vidros, no lugar das paredes, as árvores circundam todo o espaço, possibilitando proteção e evasão, simultaneamente, em especial para ela que parece sempre procurar oxigénio a partir daquelas janelas que não se abrem e onde as vistas são entrecortadas pelos estores, que promovem o aprisionamento, mas também o voyeurismo, numa cena deliciosa, vemos, nós, como voyeurs convidados por ela, o corpo que se desnuda em frente ao vidro e cuja excitação ela vai potenciando pelo abrir e fechar manual dos estores, repetidamente.

Em notáveis enquadramentos, Hogg posiciona a câmara de dentro para fora e de fora para dentro, vai alternando sucessivas vezes, para potenciar o efeito visual, com as decorrentes ramificações no plano mental, emocional e imaginário, a partir dos reflexos dela, das árvores, do interior e do exterior de casa, nos vidros – em determinados planos, sobretudo à noite, chega a dar-se uma autêntica fusão de imagens refletidas, diluindo ou anulando mesmo aquela fronteira envidraçada entre o dentro e o fora, a casa e a rua. Numa casa de áreas mais do que generosas, com dois andares, servida por elevador e por uma escada em espiral, num cinzento metálico que lhe confere uma aparência mecânica, quiçá para aligeirar o incómodo mental de subir e descer, habitada apenas por ela e por ele – inclusive ambos trabalham a partir de casa -, facilmente, aquela casa, ganha a perceção de mundo, o mundo dela e o mundo dele, dois mundos num mundo comum.
“Ainda me amas?”, ouvimos ela a perguntar-lhe por telefone – até no mesmo espaço Hogg recorre ao telefone para quebrar a incomunicabilidade silenciosa -, a partir do escritório dela para o dele. O (des)encontro dá-se na cama king size de lençóis brancos, todas as noites, invariavelmente. Os corpos dela e dele expressam a incomunicabilidade, mesmo quando a rotina é quebrada pelo quarto escurecido com o longo correr da cortina e pelo deitar ao contrário dos corpos na cama. 17 anos juntos naquela casa? Questionam-se eles em conversa com os agentes imobiliários que vão tratar da venda da mesma. Não por divórcio, apenas por algo.


