‘Terra Vil’, de Luís Campos
| DA VAGA DE SALA
‘Justa’ (2025) , de Teresa Villaverde, foi um dos grandes filmes portugueses que tiveram estreia nacional no ano transato. A cineasta de ‘Três Irmãos’ (1994), ‘Os Mutantes’ (1998) ou de ‘Colo’ (2017), levou-nos para Pedrógão, 8 anos depois da tragédia que queimou fatalmente tantas vidas humanas, além de todo o lastro de morte que se disseminou por aquele ecossistema. Em ‘Justa’, o trauma vive-se ainda como presente, em absoluto. A terra, permanece queimada e marcada pelas cinzas; as árvores, ora tombadas ora chamuscadas; os corpos, feridos e cicatrizados, por fora e por dentro, arrastando-se todos eles em exercícios de luto, sempre num espaço vedado socialmente. Parece não existir mais ninguém naquela terra queimada além das cinco personagens da narrativa. É pois na relação com aquela paisagem emocional que a memória se vai expressando, a partir de diferentes sentidos. Do fogo para a água, com ‘Terra Vil’ (2025) – estreia em longas metragens de Luís Campos – recuperamos a memória coletiva de outra tragédia contemporânea em Portugal: a queda da ponte Hintze Ribeiro, que ligava Castelo de Paiva a Entre-os-Rios, em 4 de Março de 2001. Ancorado numa distância temporal bem mais dilatada – passaram-se mais de 20 anos -, ao contrário de Teresa Villaverde, Luís Campos abre o filme às gentes daquela terra, mostrando rostos anónimos em procissões ou vigílias de memória por aqueles que sucumbiram naquela malograda noite no rio Douro. E diria que o compromisso social e moral com a memória coletiva daquelas gentes, daquelas terras, expresso em ‘Terra Vil’, vai funcionando como um freio para a fatalidade, para a tragédia, no plano pessoal ou particular em que assenta a narrativa ficcional.
Quando a dado momento do filme o pai António (Rúben Gomes) vai à sala de aula do orgulhoso filho, João (William Cesnek), para falar do impacto das alterações climáticas no seu trabalho enquanto pescador, a lampreia esguia que ele leva e que lhe escorrega pelas mãos, para susto de professora e alunos, diria que serve como boa metáfora para os movimentos e guinadas do filme: entre a tragédia e a reconstrução. De barba negra, cerrada e farfalhuda, António corporiza o arrastar traumático de quem vive dia a dia naquele fatídico rio. A sua figura funde-se harmoniosamente com aquela atmosfera sombria, tenebrosa, que se estende do rio para a terra, para a comunidade, encontrando correspondência num céu cinzento, macambúzio, que acicata a melancolia e que vai derramando tristes lágrimas pela chuva. Abandonado pela mulher – ficamos a saber já no decorrer do filme -, António afoga mágoas no álcool, dia e noite, e vai resistindo à tragédia da vida com o filho, adolescente, com quem vive, numa casa que ainda consegue ser mais escura do que a já descrita atmosfera exterior que vai pairando por quase todo o filme. A casa é exígua e macabra e dela exala a violência e a dor que o filme nos faz saber, sem nos mostrar. Faz parte da tragédia de António, que desagua no filho João, cujas marcas no rosto não chegamos a ver – o tempo do filme é de reconstrução, mesmo que se continue a escorregar para a tragédia. Vi muito em ‘Terra Vil’ um aproximar ao cinema de João Canijo, sobretudo quando o filme se inclina mais para a tragédia, do qual também vi a afastar-se sempre que se dá a guinada para a reconstrução. Há uns laivos de ferocidade humana vertidos em António que remetem para o universo de Canijo, aos quais se juntam toda aquela tenebrosa atmosfera que correlaciona indivíduo e sociedade, uma casa e uma terra, uma família e um povo – um realismo social que parte de uma realidade particular para assim reverberar o geral, o meio onde se vive -, com os rituais católicos também presentes: missas, vigílias, procissões, rezas, são bem apanágio dos filmes de Canijo.

Mas se António é o caminho para a tragédia, por sua vez, o filho dele é sinónimo de reconstrução. É no rosto de João que a câmara mais tempo e mais vezes poisa; mesmo quando a conversa é entre terceiros, a câmara procura o seu olhar para nele irmos lendo e decifrando a vontade do filme em operar uma reconstrução, em detrimento da tragédia. Apoiado na família vizinha, da viúva Teresa (Lúcia Moniz) e das duas filhas, João encontra o suporte emocional que lhe permite ir saboreando um pouco a noção de seio familiar. Mesmo quando António deriva para a tragédia, arrastando consigo a família-amiga-vizinha, o laço de solidariedade entre João e elas nunca se rompe: todos são filhos de uma tragédia comum e coletiva que subtraiu e deixou marcas. E essa investida na reconstrução que Luís Campos leva a cabo no filme, através de João, coadjuvado pelas mulheres-vizinhas, é pintada com alguns momentos luminosos, como aquele em que as duas famílias, como estando fundidas numa só, improvisam um almoço-piquenique à sombra de uma grande árvore – sim, aqui o sol disse presente -, à beira-rio, que vemos desde logo num plano geral com tons paradisíacos, em disrupção com aquela estética trágica até então; e também quando João e a filha mais nova da casa das vizinhas, colega de turma, se passeiam a dois com um largo horizonte e um céu mais claro e aberto. E há também momentos de ternura, com a câmara aqui a intervir na expressão desse intento, quando na festa de aniversário de João vamos acompanhando num movimento suave, rosto a rosto, dele, do pai, da viúva e das duas filhas, toda aquela genuína cumplicidade, capaz de formar uma família.
Quando António procura a tragédia ou esta o procura a ele, eis que o freio sociomoral que Luís Campos vai acionando recoloca o filme no caminho da reconstrução, inclusive naquilo que não nos mostra. Olhando para ‘Monte Clérigo’ (2023), a última curta do realizador, há também uma espécie de freio sociomoral quando, a certa altura do filme, é usado o corpo do jovem português filho do patrão para dar vida, e depois morte, a um imigrante asiático, trabalhador agrícola no Alentejo, vítima de rejeição, xenofobia e ódio racial. Não é a mesma coisa vermos a ser alvejado a tiro de caçadeira um corpo de um português ou um corpo de um imigrante asiático. Eis o freio sociomoral, eis a preservação da arte cinematográfica.


