À conversa com “A História do Rock Português”

Em dezembro de 2017, estivemos à conversa com Rita Nabais a propósito de um livro que nos conquistou de imediato. Falamos de “A História do Rock – Para Pais Fanáticos e Filhos com Punkada”, uma viagem ilustrada pelo universo do Rock, pensada para os mais pequenos, mas com argumentos de sobra par a arrebatar os graúdos. Quase nove anos depois, voltamos a encontrar-nos com Rita, desta vez para uma incursão pelo Rock que se fez, e continua a fazer, por terras lusas.

“A História do Rock Português – Para Pais Fanáticos e Filhos com Punkada”, editado pela Escafandro, leva-nos a percorrer décadas de música, histórias, bandas e protagonistas que ajudaram a construir uma identidade musical muito nossa. São 164 artistas e bandas em destaque, centenas de outras referências e cerca de mil sugestões musicais, num livro ilustrado por Tiago Albuquerque e prefaciado por Adolfo Luxúria Canibal. Entre memórias, descobertas e muitas guitarradas, voltámos à conversa com Rita Nabais. Porque o Rock, afinal, não conhece idades nem fronteiras. E o português também tem muito para contar.

Rita, passaram quase nove anos desde a nossa primeira conversa, quando lançaste “A História do Rock”. Na altura falávamos de uma espécie de enciclopédia musical para miúdos, que acabava inevitavelmente nas mãos dos pais. Agora regressas com uma história inteiramente dedicada ao Rock português. Era uma continuação que já tinhas em mente ou foram estes anos, e o próprio percurso do primeiro livro, que te levaram até aqui?
RN:
Sim, o percurso do primeiro livro é que me fez pensar nessa possibilidade pela primeira vez.

O primeiro livro atravessou fronteiras e chegou a países tão distintos como os Estados Unidos, a Suécia ou o México. Confesso que tenho curiosidade em saber como viveste essa internacionalização. Alguma vez imaginaste que um projeto nascido numa “pequena” editora portuguesa pudesse ter este percurso? E o que mudou, entretanto, na tua forma de olhar para estes livros?
RN:
Nunca imaginei que fosse tão longe, embora tenhamos trabalhado imenso para isso. Muitas edições foram adaptadas aos países onde foi editado. Cada edição teve a sua história. A edição sueca, por exemplo, contou com um prefácio de Dregen, guitarrista dos Hellacopters e dos Backyard Babies. A edição destinada ao mercado britânico e australiano saiu com o título History of Rock for Big Fans and Little Punks, capa diferente e conteúdos adaptados. No Brasil, o livro ganhou uma edição própria, também com uma capa diferente e um capítulo adicional dedicado ao rock brasileiro, que percorre bandas como Os Mutantes e chega até aos Sepultura.

Desta vez, o território musical é bem mais próximo, mas suspeito que isso não tenha facilitado a tarefa. Investigar a história do Rock português, com todas as suas ramificações, influências e particularidades, deve ter sido um exercício de arqueologia musical. Que dificuldades encontraste pelo caminho? E que descobertas te surpreenderam verdadeiramente?
RN:
Foi mesmo um exercício de arqueologia musical, sobretudo quando cheguei às primeiras décadas. Há muito pouca informação sobre algumas das bandas pioneiras, e a investigação acaba por depender de fontes dispersas: livros, artigos de jornais e revistas, entrevistas, arquivos e o conhecimento de pessoas que viveram essa realidade. Os bloggers que há muitos anos se dedicam a estes assuntos também foram fundamentais, porque guardam memórias e informações que nem sempre se encontram noutro lado. As entrevistas foram, em alguns casos, a única forma de reconstruir a história de determinadas bandas. Mas essa dificuldade foi também uma das partes mais interessantes do trabalho. A descoberta que mais me surpreendeu foi perceber como o rock português já tinha uma história rica muito antes dos anos 80.

Há uma ideia muito instalada de que o Rock português começou nos anos 80, com o célebre “Chico Fininho” de Rui Veloso. Mas a história, como sabemos, começou bastante antes. Achas que continuamos a conhecer mal as origens da nossa própria música?
RN:
Acho que ainda existe a ideia de que tudo começou com o Rui Veloso e o chamado boom do rock português, mas havia muita coisa a acontecer nas décadas anteriores. Descobrir artistas como a Zurita de Oliveira, que gravou rock em 1960, foi particularmente marcante. Perceber que havia pessoas a fazer este tipo de música num país tão conservador, durante a ditadura, dá-nos também outra perspetiva sobre o que significava ser músico naquela época. No fundo, uma das coisas que esta investigação me confirmou foi que nenhuma explosão musical aparece do nada. Há sempre antecedentes, influências, experiências e pessoas que abriram caminho, mesmo que a história depois nem sempre lhes dê o devido destaque. E talvez a maior recompensa tenha sido precisamente essa: encontrar algumas dessas histórias e ajudar a que não se percam.

São 164 artistas e bandas com destaque no livro, além de muitas outras referências. Imagino que a seleção tenha sido um dos exercícios mais ingratos de todo o processo. Como se estabelece uma fronteira entre aquilo que é incontornável, aquilo que merece ser redescoberto e aquilo que, por inevitáveis limitações de espaço, acaba por ficar de fora?
RN:
Foi, sem dúvida, uma das partes mais difíceis, porque estamos a falar de décadas de música, de muitas gerações e de correntes bastante diferentes. E há sempre uma componente subjetiva nestas escolhas. O que é incontornável para mim pode não ser para outra pessoa, e há bandas de que gosto muito que não têm necessariamente o mesmo peso histórico que outras. Tentei encontrar um equilíbrio entre os nomes que são fundamentais para perceber a evolução do rock português e aqueles que, por uma razão ou por outra, merecem ser mais conhecidos. Não queria fazer apenas uma lista das bandas mais populares, nem um livro exclusivamente para quem já conhece profundamente esta história. Queria que alguém que conhece pouco de rock português pudesse descobrir coisas novas, mas também que quem conhece muito encontrasse referências interessantes. Depois, claro, há as limitações de espaço. Não é possível dar o mesmo destaque a toda a gente, e essa é talvez a parte mais ingrata: saber que vão sempre ficar nomes de fora. Procurei compensar isso com referências a outras bandas e sugestões de canções, para que o livro não seja apenas um ponto de chegada, mas também um ponto de partida. Gostava que alguém lesse sobre uma banda, fosse ouvir uma música e acabasse a descobrir outras cinco. Se isso acontecer, a seleção cumpriu o seu papel.

E já agora, até onde vai o Rock? Porque a música portuguesa sempre viveu de cruzamentos, contaminações e linguagens que nem sempre cabem numa única gaveta. Foi difícil definir os limites do universo musical que querias apresentar?
RN:
Acho que foi uma das questões mais interessantes de resolver, porque nunca quis olhar para o rock como uma gaveta fechada. O rock tem muitos subgéneros e foi-se cruzando, ao longo das décadas, com outras linguagens musicais. Em Portugal, esses cruzamentos são particularmente importantes para perceber o que aconteceu em determinados períodos da nossa história. Por isso, teria sido redutor tentar estabelecer fronteiras demasiado rígidas. O critério foi perceber de que forma cada artista ou género se relacionava com o universo do rock, seja pelas influências que recebeu, pela música que criou ou pelo impacto que teve nas bandas que vieram depois. Há artistas que não associamos imediatamente ao rock, mas que são fundamentais para compreender a música portuguesa e não podiam ficar de fora. O livro acabou por refletir também a minha maneira de ouvir música: gosto de fazer ligações, de perceber de onde vêm as coisas e como influenciam aquilo que aparece a seguir. No fundo, o rock é muita coisa. E talvez seja precisamente essa capacidade de absorver influências, de se transformar e de se misturar com outras linguagens que o mantém vivo. Mais do que definir onde acaba o rock, interessava-me mostrar como se foi construindo e transformando em Portugal.

Olhando para várias décadas de Rock feito em Portugal, encontramos inevitavelmente diferentes contextos políticos, sociais e culturais. Do Portugal anterior ao 25 de Abril de 74, à explosão musical dos anos 80, passando pelas transformações das décadas seguintes, até que ponto consideras que o Rock português foi também um reflexo das mudanças do próprio país?
RN:
O rock português refletiu claramente as transformações do país. Antes do 25 de Abril, fazia-se num contexto muito mais fechado; nos anos 80, acompanhou uma nova geração e uma sociedade em mudança, tornando-se mais presente na língua portuguesa e no quotidiano dos jovens. A evolução tecnológica também foi determinante: dos estúdios e do vinil ao CD, até à internet e à distribuição digital, mudou a forma de gravar, divulgar e descobrir música. Hoje é mais fácil produzir e partilhar, sem depender tanto das editoras ou da rádio. No fundo, a história do rock português acompanha a evolução social, cultural e tecnológica do país. Por vezes, foi a banda sonora dessas mudanças; noutras, ajudou a dar-lhes voz.

Há uma dimensão que me interessa particularmente: a memória. Muitas das bandas e dos músicos que marcaram determinadas gerações são hoje praticamente desconhecidos dos mais novos. Sentiste, durante a investigação, que havia histórias, protagonistas ou até movimentos musicais que corriam o risco de ficar esquecidos?
RN:
Sim, sem dúvida. Foi uma das coisas que mais me marcou durante a investigação. Percebi que havia bandas e músicos com histórias extraordinárias que estavam em risco de desaparecer da memória coletiva, simplesmente porque, na altura, se escreveu pouco sobre eles e muita da informação nunca chegou a ser devidamente preservada. Em alguns casos, as entrevistas foram a única forma de reconstruir esses percursos, e os bloggers que há anos se dedicam ao rock português foram fundamentais para manter vivo esse conhecimento. O exemplo de Zurita de Oliveira foi particularmente marcante para mim. Descobrir uma mulher que gravava rock em Portugal em 1960, num país tão conservador, e perceber a importância que teve, fez-me pensar em quantas histórias destas continuam pouco conhecidas. Queria que o livro ajudasse a recuperar algumas dessas memórias, não por achar que tudo tem de ser lembrado da mesma maneira, mas porque, se não registarmos estas histórias, corremos o risco de perder uma parte importante da nossa história musical.

Na nossa conversa de 2017 dizias-me que não pretendias “evangelizar” os miúdos, mas dar-lhes ferramentas para conhecerem, descobrirem e escolherem. Manténs essa premissa. Mas, quase uma década depois, com o streaming, os tramados algoritmos e uma oferta musical aparentemente infinita, achas que descobrir música se tornou mais fácil ou, paradoxalmente, mais difícil?
RN:
Mantenho essa premissa, sem dúvida. O objetivo nunca foi evangelizar, mas despertar curiosidade e dar ferramentas para que cada um descobrisse o seu próprio caminho musical. Acho que isso continua a fazer sentido, talvez até mais do que em 2017. Hoje temos acesso a praticamente toda a música do mundo, o que é extraordinário. Mas ter acesso a tudo não significa necessariamente descobrir mais. Os algoritmos tendem a sugerir música a partir daquilo de que já gostamos, e podemos acabar presos numa espécie de círculo de referências semelhantes. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil encontrar uma banda desconhecida, ouvir um disco antigo ou chegar a uma cena musical de outro país. Por isso, diria que descobrir música se tornou mais fácil do ponto de vista do acesso, mas talvez mais difícil do ponto de vista da curiosidade. É preciso sair das recomendações automáticas, ouvir um álbum inteiro, seguir uma referência, ler sobre uma banda ou aceitar a sugestão de alguém. No fundo, é isso que gostava que os livros continuassem a fazer: não dizer às pessoas o que devem ouvir, mas dar-lhes vontade de ir à procura.

O primeiro livro tinha ilustrações de Joana Raimundo. Neste novo volume, o universo visual é construído por Tiago Albuquerque. Sendo a ilustração uma componente tão importante destas publicações, como se desenvolveu o trabalho entre texto e imagem? Houve uma linguagem visual definida à partida ou foi surgindo à medida que o livro ganhava forma?
RN:
Acho que havia uma linguagem visual definida à partida, até porque era importante manter uma coerência com o primeiro livro, mas também queríamos que este tivesse uma identidade própria. Aliás, a edição inglesa do primeiro livro acabou por influenciar o formato deste novo volume: tinha um tamanho maior, que permitia dar mais espaço às ilustrações. O Tiago trouxe a sua própria interpretação visual das bandas e dos músicos, e isso é fundamental. Não queria que as ilustrações fossem apenas uma representação literal daquilo que o texto conta; queria que acrescentassem personalidade, humor e uma outra forma de olhar para os artistas. O texto tem de ser rigoroso, porque estamos a contar uma história, mas a imagem pode ter mais liberdade e ajudar a tornar essa história apelativa para leitores de diferentes idades.No fundo, texto e imagem funcionam em conjunto. A ideia é que o livro seja interessante mesmo para quem ainda não conhece as bandas: que as ilustrações despertem curiosidade e levem à leitura, e que a leitura leve à música.

O prefácio é assinado pelo imenso Adolfo Luxúria Canibal, uma das figuras mais singulares da música portuguesa. Como surgiu este convite? E o que representa, para ti, ter alguém com o percurso e a irreverência do Adolfo a abrir as páginas desta história?
RN:
O Adolfo foi uma das primeiras pessoas a ler o livro. Fez uma leitura crítica e deu sugestões para melhorar a sua organização, contribuindo para que o resultado final fosse melhor. Considero-o um artista completo, com uma visão muito própria e um percurso singular na música portuguesa. Tendo em conta o seu contributo para o livro e o facto de os Mão Morta serem também uma das bandas nele representadas, fez todo o sentido convidá-lo para escrever o prefácio. Foi uma escolha que surgiu de forma muito natural.

Há também uma questão que me parece pertinente: durante muito tempo, o Rock foi associado a uma certa ideia de rebeldia, inconformismo e até ruptura. Hoje, quando parte dessa música já integra a nossa memória coletiva e é transmitida de pais para filhos, será que o Rock perdeu alguma da sua irreverência ou simplesmente encontrou novas formas de a manifestar?
RN:
Acho que o rock não perdeu necessariamente a sua irreverência, mas que ela se manifesta de formas diferentes. O que numa época era uma ruptura pode hoje fazer parte da cultura popular e ser transmitido de pais para filhos. Isso não lhe retira importância, apenas significa que o contexto mudou. Além disso, o rock nunca foi uma coisa só. Continua a haver bandas que desafiam convenções, experimentam e incomodam, mesmo que não tenham a visibilidade que o género teve noutras décadas. E talvez a rebeldia também esteja hoje noutras formas de fazer música, de comunicar ou de recusar as regras estabelecidas. No fundo, acho ótimo que pais e filhos possam partilhar esta música, mas espero que os mais novos não fiquem apenas a ouvir aquilo de que os pais gostam. O rock também é descobrir coisas novas, questionar e fazer o próprio caminho. Se deixar de provocar curiosidade e vontade de ir mais além, aí sim, talvez esteja a perder alguma coisa da sua essência.

E quanto às novas gerações de músicos portugueses? Numa altura em que as fronteiras entre géneros são cada vez mais ténues, como olhas para a vitalidade do Rock nacional? Continuamos a ter uma cena musical suficientemente inquieta, experimental e capaz de se reinventar?
RN:
Acho que sim. Continuamos a ter bandas muito interessantes, inquietas e com vontade de experimentar. Aliás, algumas das propostas mais estimulantes surgem precisamente dessa dificuldade em encaixar os projetos num género específico. Há bandas que partem do rock, mas que vão buscar influências à eletrónica, ao hip-hop, à música experimental ou a outras tradições, e acho que essa liberdade é positiva. Talvez o rock já não ocupe o mesmo lugar central que ocupou noutras décadas, mas isso não significa que esteja menos vivo. A vitalidade não se mede apenas pela quantidade de discos vendidos ou pela presença na rádio. Mede-se também pela capacidade de experimentar, de surpreender e de criar música que não soa a mais do mesmo. E acho que isso continua a acontecer em Portugal.

Voltemos à Escafandro. Em 2017 falávamos de uma editora independente com vontade de construir uma espécie de enciclopédia para os mais novos. Nove anos depois, e conhecendo as dificuldades do mercado editorial português, como tem sido manter esse projeto vivo? Continua a haver espaço para livros que apostam na investigação, na ilustração e numa edição cuidada?
RN:
Não é fácil manter uma editora independente num mercado pequeno como o português, sobretudo quando se aposta em livros que exigem muita investigação, ilustração e uma edição cuidada. Neste caso, ganhar o Fundo Cultural da SPA foi fundamental, porque permitiu financiar a impressão do livro. Continuo, no entanto, a acreditar que há espaço para livros diferentes, que despertem a curiosidade dos mais novos e os tratem como leitores exigentes. O desafio é conseguir manter essa ambição e, ao mesmo tempo, tornar o projeto sustentável.

Não resisto a terminar com uma pergunta mais pessoal. Depois de tantos anos mergulhada na história do Rock, primeiro internacional e agora português, há alguma banda, músico ou canção nacional que tenhas redescoberto durante este trabalho e que te tenha feito pensar: “Como é que isto me passou ao lado durante tanto tempo?”
RN:
Descobri e redescobri muitas bandas. Adorei descobrir mais sobre as bandas mais antigas e ouvir as suas músicas. Voltar a ouvir a Banda do Casaco, conhecer melhor os Corpo Diplomático, o primeiro álbum dos Ithaka, sei lá, foi incrível!

E, porque ficámos com a sensação de que esta história ainda tem muito para contar, pergunto-te: depois do Rock internacional e do Rock português, para onde nos leva a próxima viagem musical de Rita Nabais?
RN:
Agora ainda estou investida da promoção do livro e fazer com que ele chegue ao maior número de pessoas possível. Quem sabe chegar às escolas de música ou até mesmo às escolas do nosso país. Nunca me falta vontade de investigar e escrever sobre música.

Por fim, a nós Mutantes, cabe-nos esperar que a nossa Rita nunca pare de investigar e nos brindar com mais histórias e estórias da música, nas suas Edições Escafandro. E porque somos e seremos da música e do livro físico… Perca-se com este livro e com a (re)descoberta ou (re)encontro com a nossa música nacional, e que o livro o leve a descobrir ainda mais música portuguesa (acredite que vale muito a pena).

Boas e obrigatórias leituras. Boas e obrigatórias sonoridades! •

+ Edições Escafandro
+ Entrevista “A História do Rock – Para Pais Fanáticos e Filhos com Punkada” (2017)
© Imagens e Fotografia: Edições Escafandro.

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