A norte, em Guimarães, este maio já tem uma agenda bem apetecível e ainda só agora começou… Música e Teatro são o mote para esta nota Mutante.
Comecemos pela música, dia 8 de maio, com o nosso escocês Sandy Kilpatrick que abre programação de maio do Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor (CCVF). Esta sexta-feira, a partir da meia-noite, o Café Concerto do CCVF recebe o cantautor escocês que se mudou para Portugal pela imperativa e inevitável força do amor. Inspirado pela música folk, Sandy Kilpatrick procura na criação musical um exercício de regresso à simplicidade. Num mundo cada vez mais agitado, que teima em girar cada vez mais depressa, Kilpatrick transmite, através das suas músicas, imagens que remetem para a natureza, que apelam à calma e tranquilidade obrigando-nos, de certa maneira, a abrandar o ritmo, a viver o momento. Ouvir Sandy Kilpatrick é sentir a música à flor da pele, é sentir na pele os primeiros raios de sol e a brisa que se levanta num fim de tarde bem ameno, lá fora. É nesta celebração de sinestesias que se aguarda a visita de Sandy Kilpatrick ao Café Concerto do CCVF.
© Ólöf Arnalds.
No dia 15, o palco é da islandesa Ólöf Arnalds, de quem Björk, sua conterrânea, disse ser alguém que tem em si a inocência da infância, mas também a profundidade de uma alma antiga. No dia 29, é a vez da portuguesa Mimicat o transportar para outros tempos.
© Mimicat.
Rumando ao Teatro, sábado, 09 de maio, o Grande Auditório do CCVF, será palco para a estreia absoluta de “Britânico”, a mais recente encenação de Nuno Cardoso. A companhia Ao Cabo Teatro recupera esta obra de Jean Racine, consciente da complexidade de um texto que não perde atualidade, quatro séculos depois da sua primeira representação. Nuno Cardoso, encenador cujos trabalhos têm sido aplaudidos pelo público do Centro Cultural Vila Flor, regressa, assim, a Guimarães para estrear novamente uma das suas peças. O espetáculo está marcado para as 21h30. Nuno Cardoso encena esta peça reafirmando todo o seu talento e ousadia, ao pegar numa obra que se revela um desafio para qualquer encenador. Um texto complexo, sempre contemporâneo, como compete aos grandes escritores, com um enredo que fez da obra uma tragédia de caráter e que, na época, serviu para calar os críticos de Racine que não lhe reconheciam a qualidade que a história viria a confirmar. Com “Britânico”, Jean Racine afirma-se como um dramaturgo de referência e deixa a sua marca na literatura.
© “Britânico”, Nuno Cardoso.
Nesta peça, Racine sintetiza o virtuosismo reconhecido da sua escrita com um tema que reflete sobre os valores civilizacionais: o poder, a honra, a verdade. Sendo o único criador moderno de tragédias míticas, o dramaturgo decompõe psicologicamente os mitos de que se serve, reduzindo-os à sua dimensão mais humana. Em “Britânico”, tragédia em cinco atos representada pela primeira vez em 1669, Racine constrói um singular objeto. De uma só vez, o dramaturgo sintetiza o virtuosismo amplamente reconhecido da sua escrita. “Britânico” é, simultaneamente, uma peça que reflete sobre os valores civilizacionais como o poder, a honra, a verdade; e efetua um mergulho profundo sobre o psicologismo das personagens. De facto, ao pôr em cena a monstruosidade das suas personagens — Nero, Agripina, Britânico, Burro, Narciso, etc. —, Racine cria um quadro em que a necessidade e o jogo político são abandonados às paixões, em que o sangue contamina a luta pelo poder, e em que a inelutabilidade funesta do futuro se define pela preponderância da violência e do maquiavelismo face ao amor e à esperança. Com este projeto, a Ao Cabo Teatro procura prosseguir um dos percursos há muito definidos para o trabalho artístico: o exercício de um modelo de criação que concita um contínuo de saberes teatrais, que aprofunda e qualifica a experiência dos seus intervenientes, permitindo a experimentação real e propiciando a inovação das linguagens.
Datas a ter assinaladas na sua agenda, eventos a ir, em Guimarães. •
+ CCVF
© Fotografia de destaque: Sandy Kilpatrick por Diogo Machado.
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