[CÓDIGO(S) HUMANO(S)] no TAGV

Patente na Sala Branca do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, resta uma exposição de Isabel Maria Dos integrada na 3ª edição do encontro denominado Paisagens Neurológicas, cuja coordenação cabe igualmente à artista.

© Fotografia: José Crúzio

A Sala Branca é supostamente pequena, no entanto, [CÓDIGO(S) HUMANO(S)] eleva-a a uma espécie de sentido infinito, propondo uma reflexão inescapável. Sumariamente: um espelho; a representação de um coração embalado; vários manequins fotografados a preto e branco, com legendas projectadas a remeter para as Paisagens Neurológicas; por fim, ou no início, textos crípticos e encriptados. Entretanto, no chão, a artista dispôs uma pilha de folhas de cor branca e tamanho A4 com textos aparentemente indecifráveis, mas apenas aparentemente. Já dentro desta exposição, a espectadora é solicitada a desvendar um mistério, sendo colocada diante de uma perplexidade reflexa evidente.

Note-se que cada elemento da composição, e que antes se enunciou, estabelece relações com os restantes, e solicita um fino movimento de implicação. Na síntese disponível em folha de sala pode ler-se acerca desta exposição: “Centra-se na vida dos seres humanos do séc. XXI e explora a participação efetiva do público como gerador da obra final e como gerador de sentido. Colocam-se assim questões relacionadas com a linguagem, com a comunicação ou com a falta dela, sendo o público convocado para a descoberta e consequente reflexão; este movimento implica a (des)codificação mediada por dispositivos, entre os quais a imagem especular.”

Consideramos existirem, sempre, três pólos no acontecimento artístico: artista, obra, espectadora. No meio, a obra – espécie de passador ou crivo, que tanto traz agarrados os filamentos da criação, como abre as portas à percepção, que será por ela conduzida. Ou seja, desconfiamos da amplitude da “obra aberta” tal como a configurou Umberto Eco nos anos 60 do século XX, ainda que o tivesse feito para dar conta das supostas indeterminações da arte contemporânea Precise-se: um azul não é um vermelho, um verde difere do amarelo, uma vertical opõe-se a uma horizontal; posto isto, existe uma concretude da “obra” que obsta a um subjectivismo desenfreado. Por outro lado, as construções críticas de uma obra de arte não se equivalem indiferenciadamente; como diz Rui Chafes – existem pessoas que olham o espelho e não vêem nada, mantendo-se profanas.

Assim sendo, perante o espelho de acento barroco, e que contrasta com os ecrãs lisos e vítreos dos trabalhos que se dispersam pelas duas restantes paredes, compondo uma triangulação; a espectadora é convidada a reflectir os textos disponíveis no chão, alguns decifráveis, outros cujo sentido não é desvendável. Ali, em frente ao espelho, estabelece-se uma fuga longínqua com as mulheres-manequim, como se se preparasse uma dobra entre o humano e o maquinal. Por outro lado, e replicadas, surgem as identidades contínuas, pese embora o “coração se ponha ao largo” – coração solitário, como que preparado para ser autopsiado.

Triangulação: escrita críptica; mulheres-manequim; espelho-coração. Como se Isabel Maria Dos nos colocasse perante os limites da linguagem, por um lado, e, por outro, perante a maquinação infernal de uma afasia de expressão que, no limite, obsta a comunicação. Já Emmanuel Levinas distingue o Dizer do Dito: este anquilosa, aquele não se detém e abre fissuras. Enfim, propõe o confronto de cada pessoa consigo própria, e alerta para a centralidade do afecto, concentrada no coração, que bem podíamos trazer cuidadosamente nas mãos. E lembramo-nos aqui da rapariga-figura de Maria Gabriela Llansol que temia a impostura da língua.

Para ver no TAGV até dia 23 de Outubro, entre as 10:00 e as 22:00. E… leve o seu coração: porque o que olhos vêem, aquele sem dúvida sente!

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© Fotografia de destaque: Isabel Maria Dos

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