Manuel Filipe nasceu em Condeixa-a-Nova no ano de 1908 e não está inscrito na memória colectiva, pese embora a palavra neo-realismo aplicada às artes plásticas tenha sido pela primeira vez pronunciada por referência à sua Fase Negra.
Com efeito, foi no jornal A Tarde e na página dedicada à “Arte”, coordenada por um jovem que assinava Júlio da Silva Pomar, e que posteriormente ficaria para sempre conhecido como Júlio Pomar, que Manuel Filipe foi entrevistado. Júlio da Silva Pomar, nessa ocasião, dir-lhe-ia: “você faz em pintura o que, entre nós, portugueses, só na literatura se tem tentado. O Neo-realismo…” O pintor respondia-lhe sem hesitação: “Exactamente. Tocou agora um ponto que merece ser esclarecido, e que, propositadamente, anda confundido. O Neo-realismo nascente (e nascente a despeito de tôdas [sic] as tentativas para o negar) está a tomar corpo em Portugal e no estrangeiro, quer em pintura, quer noutras modalidades artísticas, em que ele marcou definitivamente uma posição de conquista.” Era o ano de 1945. Que Ernesto de Sousa venha depois fazer a primeira história, certamente, da pintura neo-realista portuguesa, por volta de 1966, onde de Manuel Filipe, e concretamente acerca da sua Fase Negra, deixa gravada uma intenção estrita e programática ao invés de ter legado autênticos objectos estéticos, e mesmo se considera tal intenção proveniente de sinceridade inteira e ingénua, apresentando-se como “combustível […] para esperanças”, pode ter contribuído para que o pintor permanecesse nos limbos da memória histórica.
Pela parte de José Luís Porfírio, 30 anos mais tarde, não houve dúvidas em considerar a Fase Negra de Manuel Filipe como um conjunto de “obras raras, corajosas e fortes no contexto português.” O próprio Manuel Filipe explicaria a génese de tal fase, aliás, o primeiro ciclo da sua obra: “tinha passado os três últimos anos da guerra [Segunda Guerra Mundial] em Leiria com o ânimo quente e os olhos abertos para o futuro. Entusiasmo. Exaltação. E saiu-me aquilo a que chamo a «fase negra» de uns quase 40 trabalhos apaixonantes na técnica e na temática: eu queria denunciar uma orgânica social e formular um voto. E a coisa saiu violenta, rápida e talvez provocante e polémica.” Formulou realmente um voto com a sua mina Harthmouth e legou-nos desenhos-pintura carnudos, negros, fortes, contrastantes, irrepreensíveis.
Delfim Sardo, por exemplo, integra o quadro “Deus-Pátria-Família”, incluído na Fase Negra, nas obras-primas do século XX português, mesmo se Manuel Filipe não está, repito, inscrito na memória colectiva e já é tempo para que se inscreva. E qual a razão pela qual defendo esta inscrição? Bifurca-se: por um lado, Manuel Filipe está na origem do neo-realismo em Portugal, tendo os seus desenhos-pintura funcionado como catalisadores históricos e metamórficos do movimento, pelo que a acutilância temporal da Fase Negra é perene; por outro, todos os desenhos-pintura de Manuel Filipe reportados à Fase Negra são inegavelmente desafios colocados à nossa sensibilidade estética, tanto quanto provocações, como o próprio pintor reconhece, que nos exigem um posicionamento existencial. Assim, a lente adoptada por Manuel Filipe, nesses anos de “ânimo quente” e com “os olhos abertos para o futuro”, como diz, não faz concessões: escolheu os espoliados, os esquecidos, os traídos, os desvalidos, fazendo-os avançar até nós como os fantasmas de mundos onde a injustiça é o ponto de fuga repetido até à exaustão.
De registar que os desenhos-pintura de Manuel Filipe desta Fase Negra foram, na sua quase totalidade, oferecidos à SEC – Secretaria de Estado da Cultura, encontrando-se hoje dispersos e integrados em diferentes equipamentos culturais portugueses, guardados em gavetas e em depósitos, e raramente disponibilizados aos olhares do público, embora tal já tenha acontecido. No ano de 2015, a Galeria Manuel Filipe, em Condeixa-a-Nova, faria uma exposição sobre a Fase Negra e, em tal ocasião, pôde compor-se um olhar panorâmico lançado a uma pintura que foi urgente, que é ainda hoje um grito e que será para sempre, creio, uma farpa no nosso coração.