“A llamada” de Remedios Varo

Foi pintado, ou pelo menos nesse ano se terminou, em 1961, e pode admirar-se no National Museum of Women in Arts.

As propostas de pintura – pintura? de Remedios Varo são sempre intrigantes, fortes, delicadas simultaneamente, dessa delicadeza fina, tão fina que passa como uma espécie de aragem que soçobra à nossa frente. Coloco um ponto de interrogação porque, se bem que a pintora tenha um lugar cativo no âmbito da arte, na verdade, considero-a sobretudo uma sintomatologista e uma aferidora dos símbolos; mas também porque a pintura, pintura mesmo, nunca foi só pintura, vindo como segunda pele dos humanos, através da qual se processa uma aderência complexa e rápida, à vez, aos pressentimentos. Assim, há muitos anos, muitos anos, a figuração de um rio corrente proporcionava-nos frescura e som, bem como uma cabeça pintada cujos olhos nos fitavam exigia-nos uma imersão no nosso próprio interior. O facto de estes pressentimentos terem sido substituídos mais tarde pela realidade pura e dura, de se ter declarado o seu entorpecimento, não pode, todavia, mascarar o desígnio da pintura: activar os pressentimentos. Remedios Varo é exímia em fazê-lo.

Cor-de-laranja é a senha para, além da alegria e vibração, a abertura do apetite, pelo que vem como potencial alimento e apaziguamento, assim, da fome; a fome aqui, em “La llamada”, e disso não tenhamos dúvidas, é espiritual. E essa é também uma das razões de ser da pintura: proporcionar alimento espiritual. Para tal, além das qualidades mágicas que encerra e que estão manifestas na sua intensa consistência física, o seu intuito também se finca nas virtualidades comunicacionais: para que tal aconteça é necessário que o quadro mantenha fios de ligação, ainda que algumas vezes ténues, a um visível potencial. Não é a realidade propriamente que a pintura retrata, ainda que a possa denotar: é a mais realidade; e ainda que René Magritte, companheiro de aventuras surrealistas de Remedios Varo se bem que com um oceano Atlântico pelo meio, tenha alertado para o facto do cachimbo não ser um cachimbo, olhamos e vemos isso, um cachimbo. 

Sejamos sinceros: nada em “La llamada” de Remedios Varo parece ser tirado da realidade efectiva, antes vindo a sobrepor-se, certamente também pelas nutrições sonambular e funambular, como segunda pele dos humanos. Mas, mesmo que nada ali se pareça com a realidade efectiva, e assim não venha como representação, mantém o visível potencial e fortalece o espírito.

© Imagem de entrada: “A llamada” de Remedios Varo

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