Curtas Vila do Conde’ 25

Está aí – de 12 a 20 de julho – mais um Curtas Vila do Conde com uma programação traçada a rigor que olha para o panorama nacional e internacional do cinema, com especial enfoque na curta-metragem. É a não perder mais uma edição deste aclamado e sempre actual Curtas.

Se o cinema é muitas vezes apelidado de uma janela para o mundo, isso acontece em parte pela ligação sempre presente e sempre inabalável entre o cinema e o mundo à sua volta. Da mesma forma, um festival de cinema está intrinsecamente ligado à realidade atual, não só pela sociedade e atualidade em que se insere, mas também através dos retratos miniaturas que cada filme e cada obra trazem do exterior para a escuridão da sala de cinema. A edição anterior do Curtas dava amplo destaque à ideia da liberdade na altura em que se celebravam os 50 anos do 25 de Abril, e esta edição não pode deixar de olhar para o estado do mundo em que vivemos, algo refletido também nas diversas obras escolhidas para esta edição. Desde logo um dos maiores destaques do Curtas 2025, a Solar – Galeria de Arte Cinemática apresenta uma exposição da artista e realizadora Maryam Tafakory, uma voz ativa na denúncia do genocídio em curso em Gaza. Intitulada “What Pain does Film Cure” (“Que dor cura o cinema?”), o trabalho desta realizadora parece estar em diálogo permanente com a atualidade, mas também com a questão premente: o que fazer perante a tragédia dos nossos dias, e qual o papel da arte nessa resposta? A sua filmografia, repleta de ensaios com imagens de arquivo e de filmes iranianos, trabalha a ideia de lutar contra o apagamento, contra a reescrita da história por quem detém o poder, defendendo uma ideia de liberdade, protesto e emancipação perante a repressão. Além da sua exposição, Tafakory apresenta também uma Carta Branca, uma seleção de filmes da sua escolha, entre os quais se encontra o filme “I Signed The Petition”, de Mahdi Fleifel, um realizador palestiniano que cresceu num campo de refugiados no Líbano. Fleifel é precisamente um dos destaques do programa In Focus, através do qual será possível descobrir a obra deste realizador que, de várias formas, sempre manteve a questão palestiniana e das migrações de refugiados num lugar central na sua filmografia.

Outro grande destaque da programação do Curtas 2025 é a retrospectiva integral dedicada a Whit Stillman no programa In Focus, um dos autores mais importantes do cinema independente americano das últimas décadas. Através de filmes como “Metropolitan” (1989) e “Barcelona” (1994), Stillman traça um olhar sobre as transformações mais vastas da sociedade, com exame a uma específica classe social: a elite privilegiada e urbana. É também um olhar nostálgico, em particular sobre o final da década de 1990 e uma espécie de anúncio de fim de festa, assinalado no seu filme mais conhecido, “The Last Days of Disco” (1998). O programa New Voices tem dado a conhecer ao longo dos últimos anos o trabalho de talentos emergentes em maior detalhe, e o desta edição volta a apresentar a obra de uma autora que conta já com uma ainda curta mas impressionante filmografia: Maureen Fazendeiro tem-se afirmado como uma realizadora a acompanhar, que tem explorado habilmente diferentes formas narrativas, quer nos seus trabalhos a solo, quer nos filmes com Miguel Gomes.

As preocupações em torno da atividade de criar arte, à medida que os horrores em todo o mundo se intensificam e se questiona o valor da própria arte neste contexto é uma das ideias abordadas pelo realizador John Smith e que atravessa, através de vários registos, as diferentes competições do Curtas. Além de John Smith, presente na Competição Internacional, outros autores, alguns conhecidos, como Sergei Loznitsa, Konstantina Kotzamani, Vitali Mansky, Marco Bellochio ou o coletivo Total Refusal, ou outros novos realizadores a descobrir, abordam diferentes formas de encarar a realidade, quer seja através de documentários, ficções que funcionam como metáforas, ou até o humor ou a ficção científica. Quer seja na Competição Internacional, na Competição Nacional, ou na Competição Experimental, será possível assistir a uma montra do melhor que foi produzido no último ano, que funciona também como uma radiografia do estado corrente do cinema, em toda a sua vitalidade, imprevisibilidade e diversidade.

O encontro entre o cinema e a música no programa Stereo é sempre um dos momentos mais aguardados de cada edição do Curtas, e este ano promete mais uma série de espetáculos memoráveis. Destaque para os três filmes-concertos, com Lee Ranaldo a musicar ao vivo uma banda-sonora para o filme “Quick Billy” (1971), do cineasta Bruce Baillie; da artista visual e compositora francesa Félicia Atkinson, espera-se uma interpretação surpreendente da banda sonora do filme “Les Yeux Sans Visage” (1960), um clássico do cinema de terror; com enorme expectativa é também aguardado o que o músico, produtor e multi-instrumentista John Carroll Kirby tem preparado para este programa – o americano irá musicar uma obra inédita encomendada para o efeito à artista visual Nika Milano. A completar este programa, além da sempre imprevisível competição de Vídeos Musicais, serão exibidos três documentários ligados ao mundo da música.

«Ao lado da sua vocação principal, que passa pela celebração do cinema do presente e de novos autores, no Curtas acreditamos que uma das missões essenciais dos festivais é, também, a sua contribuição para um olhar sempre atento e sempre renovado sobre a história do cinema, que acontece aqui através da secção Cinema Revisitado. Nesta edição destacamos o programa “The Last Film”, que exibe curtas-metragens, que por diferentes razões, acabaram por ser a última obra de realizadores consagrados – neste caso, filmes de Douglas Sirk, Michael Powell, Manoel de Oliveira, Godard e Roberto Rossellini. Há ainda espaço para prestar homenagem a David Lynch, com uma raríssima apresentação do oitavo episódio da mais recente temporada de “Twin Peaks”, e um olhar sobre os 25 anos da “Geração Curtas”.

No Curtas há sempre espaço para os mais novos, não fosse também uma das ambições do festival desenvolver o interesse das novas gerações pela sétima arte. O Curtinhas apresenta diversos programas de filmes para variadas faixas etárias, além de oficinas que são oportunidades pedagógicas, mas também de diversão em grupo. Também a secção My Generation, um programa com curadoria de jovens que estiveram envolvidos em todas as fases do processo (desde a seleção das obras até à elaboração de textos), reflete o olhar desta geração de jovens sobre o mundo, ajudando-nos a pensar sobre questões atuais através do seu ponto de vista.»

São muitos e variados os pontos de interesse que esta edição do Curtas apresenta, especialmente em diálogo com o estado do mundo. Como escreve precisamente Maryam Tafakory no texto de introdução à sua exposição, citando Toni Morrison: “Este é precisamente o momento em que os artistas vão trabalhar. Não há tempo para o desespero, nem espaço para o medo.

A (muito) vasta e diversa programação de todos os longas e curtas que se alinham em mais um Curtas Vila do Conde está disponível no site do Curtas, a que pode aceder no link abaixo. Estude a programação. Escolha os seus destaques. Mergulhe a fundo neste festival da sétima arte. Deixe-se levar pelo que de melhor se faz no cinema que sacode conformismos e agita o nossos sentidos, com uma boa dose de actualidade. •

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